{"id":646,"date":"2009-12-12T15:17:02","date_gmt":"2009-12-12T17:17:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=646"},"modified":"2009-12-21T23:30:51","modified_gmt":"2009-12-22T01:30:51","slug":"dezembro-o-susto-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/dezembro-o-susto-do-tempo","title":{"rendered":"DEZEMBRO, O SUSTO DO TEMPO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nVi dezembro chegar nas luzes da vizinhan\u00e7a. Elas piscam, insistentes, o susto do Tempo. Tentam surrar a lembran\u00e7a da v\u00e9spera, tr\u00e1gico novembro. Prometem festa, quando h\u00e1 dor. Vagalumes fixos de cores berrantes, est\u00e3o deslocadas neste final de anti-primavera, quando no lugar de flores, colhemos luto. Quanto mais antigos somos, mais dezembro nos aproxima daquele choro derramado, posso dizer: de crian\u00e7a. Ainda mais agora, quando as cicatrizes do para\u00edso nos lembram o quanto somos pobres aqui no Sul t\u00e3o celebrado. A pobreza quase oculta ficou ostensiva. A paisagem derreteu e o morro veio abaixo, levando junto o sonho de felicidade.<\/p>\n<p>De repente, o Brasil inteiro descobriu que aqui, lugar de alegria no ver\u00e3o, quando todos nos visitam, \u00e9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o de escassez e desperd\u00edcio. Vidas sumiram, terrenos deixaram de existir, cidades foram riscadas do mapa, bairros inteiros engoliram seus habitantes. Quem consolar\u00e1 o brasileiro deste quadrante, que custa a acordar do pesadelo, enquanto milhares de abnegados her\u00f3is trazem a comida e a \u00e1gua, e permanece nas m\u00e3os de Deus o \u00fanico consolo?<\/p>\n<p>O ano n\u00e3o prometia esse desfecho. T\u00ednhamos a ilus\u00e3o de que todos os equ\u00edvocos, cada vez mais intensos a cada temporada, como o volante arrogante, a irresponsabilidade coletiva, a ansiedade geral, a brutalidade possante expressa em motores cada vez mais hegem\u00f4nicos, poderiam ser manobrados pela paci\u00eancia, a perseveran\u00e7a, o otimismo e o prazer, enfim de viver na praia. Mas com a press\u00e3o das \u00e1guas, tudo ficou insuport\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel achar normal ter que jogar o carro para a cal\u00e7ada para dar vez ao mastodonte que o pressiona com roncos, luzes e o olhar feroz.<\/p>\n<p>N\u00e3o queremos mais correr no estacionamento para que o animal, que veio zunindo do cruzamento, possa imediatamente colocar sua carruagem na vaga inexistente. N\u00e3o queremos atravessar a rua de cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o. N\u00e3o queremos ouvir o som alto, o vozerio gritado, as conversas bisonhas, a beberagem, a comilan\u00e7a, a confraterniza\u00e7\u00e3o visigoda numa \u00e9poca que pede civiliza\u00e7\u00e3o e respeito. Queremos um ver\u00e3o equilibrado entre a perda que aqui todos sofreram e a necessidade de recompor as for\u00e7as, sonhar um pouco, antes que tudo rebente.<\/p>\n<p>Existe a certeza de que o Tempo deva ser aproveitado, como se viver fosse sugar de canudinho a caipirinha que some por entre pedras de gelos. Que, se nos entregarmos a todos excessos cevados pela imagina\u00e7\u00e3o ao longo de um ano duro de trabalho, seremos recompensados por uma satisfa\u00e7\u00e3o que jamais vir\u00e1. N\u00e3o tem outra sa\u00edda. A paz de esp\u00edrito vem da certeza na vida eterna. Se voc\u00ea se acha mortal, datado, finito e acabado, se n\u00e3o compreende que sua alma volta para a eternidade, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio. As f\u00e9rias ser\u00e3o sempre esse rosnado de feras, essa catinga de brutos, essa sedu\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o que voc\u00ea v\u00e1 se entregar \u00e0 carolagem ou dizer \u201cfica com Deus\u201d a cada instante, como acontece com os fundamentalistas. A f\u00e9 ficou t\u00e3o desvirtuada pelos catequistas analfabetos, que a religi\u00e3o voltou a ser de foro \u00edntimo, do tempo das catacumbas. Voc\u00ea reza, mas n\u00e3o faz um carnaval com suas ora\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea pede prote\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o fica advertindo os outros sobre sua corre\u00e7\u00e3o. Somos prec\u00e1rios, cometemos faltas. Devemos nos insurgir contra a barb\u00e1rie, mas n\u00e3o virar pastores de Evangelhos mal lidos.<\/p>\n<p>Rezemos pelas almas dos nossos mortos. E vamos ao mar, que o mar lava o sofrimento e nos prepara diante do irremedi\u00e1vel. Saudemos o mar. Que fique em seu leito e que suas b\u00ean\u00e7\u00e3os sejam o \u00fanico excesso deste in\u00edcio de dezembro, em que ficamos mais fr\u00e1geis e com no\u00e7\u00e3o mais exata do quanto dependemos uns dos outros para sobreviver. A solidariedade deve ser tamb\u00e9m exercida pelos viajantes, que aportam aqui \u00e0 procura da natureza, expulsa dos seus locais de origem.<\/p>\n<p>Fica, penhasco, em guarda na praia posta em sossego. Mantenha-se, montanha, com suas trilhas e segredos. Voltem, cardumes, para nossas redes de espera. Que o p\u00e3o e a \u00e1gua sejam repartidos, sempre. Porque assim ordenam os mandamentos do Alto, os que nos transcendem e por isso nos libertam. Chegue, dezembro, com seu abra\u00e7o profundo. Traga reden\u00e7\u00e3o, traga de volta essa crian\u00e7a eternamente rec\u00e9m nascida, a esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vi dezembro chegar nas luzes da vizinhan\u00e7a. Elas piscam, insistentes, o susto do Tempo. 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