{"id":648,"date":"2009-12-12T15:18:00","date_gmt":"2009-12-12T17:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=648"},"modified":"2009-12-21T23:38:51","modified_gmt":"2009-12-22T01:38:51","slug":"perto-daqui-aqui-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/perto-daqui-aqui-mesmo","title":{"rendered":"PERTO DAQUI, AQUI MESMO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O depoimento mais arrasador da trag\u00e9dia que derreteu a paisagem de Santa Catarina, matando mais gente do que as estat\u00edsticas conseguem suportar, foi o do jovem pai de fam\u00edlia que perdeu a mulher gr\u00e1vida e a filha pequena, veiculado pelo Jornal Nacional\/RBS. Sua fala \u00e9 a dor da perda maior, a da esperan\u00e7a. Como conviver com a impossibilidade de salvar a fam\u00edlia, com a perspectiva de n\u00e3o ver nascer e crescer a crian\u00e7a esperada, que tinha at\u00e9 nome escolhido? Como n\u00e3o sofrer diante da m\u00e3e agarrada ao corpo da menina, encontrada depois, quando tudo estava perdido?<\/p>\n<p>Pela primeira vez vi os apresentadores de televis\u00e3o, que vivem for\u00e7ando a barra para promover emo\u00e7\u00f5es baratas, ficarem realmente tocados com essa fala dita de maneira entrecortada, por algu\u00e9m que expressou o grande abismo em que a popula\u00e7\u00e3o mergulhou depois que a chuva insistente e depois torrencial, provocou no belo estado que todos n\u00f3s escolhemos para viver, mesmo os que ainda n\u00e3o vieram para c\u00e1.<\/p>\n<p>Santa Catarina sempre foi a garantia de que nem tudo est\u00e1 perdido. Se voc\u00ea vive d\u00e9cadas numa esta\u00e7\u00e3o de horrores, como os megacentros urbanos malcheirosos e violentos, quando chega nesse apraz\u00edvel lugar se encanta e quer ficar para sempre. \u00c9 assim que acontece. \u00c9 t\u00e3o avassaladora essa tend\u00eancia de vir para c\u00e1 que ontem estive no correio para enviar uma encomenda para Uruguaiana quando, ao meu lado, uma fam\u00edlia inteira perguntava para a mo\u00e7a que atendia como fazer chegar uma carta exatamente na terra natal deles, Uruguaiana. Isso serve para v\u00e1rias outras regi\u00f5es, que n\u00e3o cansam de enviar gente para c\u00e1. Ou seja, \u00e9 todo mundo mesmo.<\/p>\n<p>Por isso d\u00f3i demais ver a calamidade que este lugar privilegiado se transformou, virando o foco do notici\u00e1rio com seus alagamentos, deslizamentos, afogamentos, mortes, mis\u00e9ria, saques, desespero, choro. Por que, meu Deus? Porque temos que passar essa dura prova, neste peda\u00e7o de Brasil que parece ter jeito, onde ainda existe ou existia paz, reconhecimento m\u00fatuo, coletividade? Pessoas preocupadas me telefonam de Campo Grande, Amsterdam, Imb\u00e9, Porto Alegre. Querem saber como estamos. Estamos bem, pois aqui no norte da ilha fomos poupados, felizmente, com algumas exce\u00e7\u00f5es, alagamentos em servid\u00f5es (as pequenas ruas que existem por aqui). Mas estamos arrasados.<\/p>\n<p>Redescobrimos que nossa tranq\u00fcilidade n\u00e3o vem da na\u00e7\u00e3o que habitamos, mas da firmeza do clima. Se ele estiver bom, tudo pode ser resolvido, at\u00e9 mesmo a ditadura que nos governa. Mas se redemoinhos de centenas de quil\u00f4metros se movimentam em sentido anti-hor\u00e1rio, capturando milh\u00f5es de toneladas da \u00e1gua do mar, para jogar sem cessar em cima de n\u00f3s, ent\u00e3o n\u00e3o tem rem\u00e9dio, n\u00e3o tem mais jeito. \u00c9 uma esp\u00e9cie de trai\u00e7\u00e3o. \u00c9 como romper as regras do jogo s\u00f3 para humilhar o advers\u00e1rio. Onde est\u00e1 o sol, que n\u00e3o seja ardido e pren\u00fancio de mais chuva? Onde est\u00e1 a praia, imposs\u00edvel de freq\u00fcentar com tanta intemp\u00e9rie?<\/p>\n<p>Uma rocha de duas mil toneladas pousa na pista da BR-101. Dois milh\u00f5es de quilos \u00e9 brincadeira. Para voc\u00ea trafegar nessa estrada, que normalmente j\u00e1 \u00e9 prec\u00e1ria, vai ter que remover um aster\u00f3ide de m\u00e9dias dimens\u00f5es? Para voltar a circular, \u00e9 preciso implodir um Himalaia de granito? E a buc\u00f3lica rodovia SC-401, a que nos liga ao centro de Florian\u00f3polis, serpenteando entre verdes morros? H\u00e1 uma semana est\u00e1 interditada e o tro\u00e7o vai demorar ainda mais vinte dias. Os morros despencaram brutalmente, me deixando de cabelo em p\u00e9. Eu queria achar que aquilo estava acontecendo longe daqui, mas me alertaram, gritaram no meu ouvido: \u00c9 apenas uns 10 quil\u00f4metros daqui, ali na curva, entende? Ali? dizia eu, incr\u00e9dulo. Mas eu passava por ali todos os dias. Ali mesmo!<\/p>\n<p>N\u00e3o quero falar mal de ningu\u00e9m, mas fico pasmo diante das explos\u00f5es em bloqueios onde devem existir ainda pessoas soterradas; queixas de que os mantimentos e recursos n\u00e3o podem ser transportadas (claro, choveu! foi por isso que enviaram os mantimentos, seu); helic\u00f3pteros cheios de autoridades que descem em \u00e1reas de risco e n\u00e3o carregam ningu\u00e9m porque est\u00e3o lotados (inacredit\u00e1vel!); soberba na hora de fazer o balan\u00e7o achando quem tudo \u00e9 culpa da natureza. N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o. Vamos assumir uma ponta da culpa. Isso n\u00e3o quer dizer que devemos negar a grande movimenta\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, o hero\u00edsmo dos bombeiros, v\u00edtimas e volunt\u00e1rios, a generosidade de quem envia ajuda. Tudo isso \u00e9 verdade, \u00e9 louv\u00e1vel e quem precisa levanta as m\u00e3os para o alto. Mas vamos analisar o que aconteceu. Desde o derretimento da paisagem at\u00e9 os processos de salvamento. Vamos ver o que h\u00e1, para saber melhor o que h\u00e1 de vir.<\/p>\n<p>Afora, isso, rezar. Deus nos proteja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Redescobrimos que nossa tranq\u00fcilidade n\u00e3o vem da na\u00e7\u00e3o que habitamos, mas da firmeza do clima. Se ele estiver bom, tudo pode ser resolvido, at\u00e9 mesmo a ditadura que nos governa. Mas se redemoinhos de centenas de quil\u00f4metros se movimentam em sentido anti-hor\u00e1rio, capturando milh\u00f5es de toneladas da \u00e1gua do mar, para jogar sem cessar em cima de n\u00f3s, ent\u00e3o n\u00e3o tem rem\u00e9dio, n\u00e3o tem mais jeito. \u00c9 uma esp\u00e9cie de trai\u00e7\u00e3o. \u00c9 como romper as regras do jogo s\u00f3 para humilhar o advers\u00e1rio. Onde est\u00e1 o sol, que n\u00e3o seja ardido e pren\u00fancio de mais chuva? 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