{"id":650,"date":"2009-12-12T15:18:50","date_gmt":"2009-12-12T17:18:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=650"},"modified":"2009-12-21T23:53:25","modified_gmt":"2009-12-22T01:53:25","slug":"verao-a-vista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/verao-a-vista","title":{"rendered":"VER\u00c3O \u00c0 VISTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O ver\u00e3o se aproxima e vejo bra\u00e7os levantados, que se destacam na multid\u00e3o. Eles se sacodem ao ritmo de um Carnaval de cidade pequena, pra\u00e7a cheia, sal\u00e3o suado. As lantejoulas grudam na pele que brilha, como um verniz. Os rostos redondos de olhos esperan\u00e7osos aguardam o porvir, nome antigo do futuro, que chegou cedo demais e depressa se despediu. O Tempo voltou ao normal, devorando a mem\u00f3ria. \u00c0 poesia restou o encargo de resgatar o p\u00f3 dos dias, reuni-lo em forma de criatura. E soprar nela o despertar, enquanto enterram o amor num canto remoto do quintal.<\/p>\n<p>Confundimos a lembran\u00e7a, achando que ela \u00e9 feita de saudade ou mocidade. \u00c9 composta de sentimento, essa \u00e9 a verdade. Sem o socorro do cora\u00e7\u00e3o, tudo est\u00e1 perdido: as horas s\u00e3o feitas de areia, os momentos enchem os por\u00f5es de lixo. Se mantemos intacto o mel que lambuza a clepsidra, o rel\u00f3gio antigo de gr\u00e3o e vidro, ent\u00e3o achamos o tesouro oculto. Aqueles bra\u00e7os, por exemplo, eram da mulher que rodava o sonho no espanto de menino. O corpo se aproxima, arrastando os p\u00e9s cadenciados pela marcha-rancho. O cheiro \u00e9 de t\u00e1bua inchada pela chuva. Pernas sob a fresta do vestido prometem o mundo.<\/p>\n<p>O ver\u00e3o se aproxima e cansamos da primavera alagada, dos s\u00fabitos tornados, das casas penduradas na serra. Esquecidos da praia, queremos de volta o horizonte azul de calmarias. Queremos a renda branca entre conchas e penas. O pisar no ouro liso das margens amigas. O levantar do sol como uma pipa, majestoso no seu trono de luzes fartas, de manh\u00e3s claras e tardes de Dan\u00fabio. Queremos cartas que nos digam: vou te conhecer, me aguarde. Queremos o fim das suspeitas, o prescrever das penas, o esquecimento, filtro de recorda\u00e7\u00f5es plenas.<\/p>\n<p>Queremos uma sele\u00e7\u00e3o de cenas. \u00c9 noite, e estamos lassos depois de tanta \u00e1gua. Colocamos a roupa branca e sa\u00edmos pela cal\u00e7ada, debaixo de l\u00e2mpadas indecisas. H\u00e1 barulho de lata, tambor, apito. Vozes nos dizem que a algazarra come\u00e7ou pelo sub\u00farbio e aos poucos parte para dominar o centro. \u00c9 o ver\u00e3o que grita, por meio dessa vis\u00e3o inesquec\u00edvel: dois bra\u00e7os vibram no ar e eles se dirigem em nossa dire\u00e7\u00e3o. De cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o, damos um passo \u00e0 frente. A pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o arranca a alegria debaixo do tapete.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ver\u00e3o se aproxima e vejo bra\u00e7os levantados, que se destacam na multid\u00e3o. Eles se sacodem ao ritmo de um Carnaval de cidade pequena, pra\u00e7a cheia, sal\u00e3o suado. As lantejoulas grudam na pele que brilha, como um verniz. Os rostos redondos de olhos esperan\u00e7osos aguardam o porvir, nome antigo do futuro, que chegou cedo demais e depressa se despediu. O Tempo voltou ao normal, devorando a mem\u00f3ria. \u00c0 poesia restou o encargo de resgatar o p\u00f3 dos dias, reuni-lo em forma de criatura. E soprar nela o despertar, enquanto enterram o amor num canto remoto do quintal.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=650"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1866,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions\/1866"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}