{"id":652,"date":"2009-12-12T15:19:47","date_gmt":"2009-12-12T17:19:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=652"},"modified":"2009-12-21T23:02:44","modified_gmt":"2009-12-22T01:02:44","slug":"juventude-fora-de-hora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/juventude-fora-de-hora","title":{"rendered":"JUVENTUDE FORA DE HORA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nCinema de autor na Am\u00e9rica \u00e9 uma linhagem abandonada, apesar da sua import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria do cinema. Est\u00e1, inclusive, na origem de tudo, com Grifith e <em>O Nascimento de uma na\u00e7\u00e3o<\/em>. Ganha for\u00e7a com Frank Capra, Billy Wilder (europeu de nascimento, mas cineasta americano), Nick Ray, Arthur Penn, experimenta a ruptura com John Cassavets e chega ao m\u00e1ximo com Orson Welles. Hoje, \u00e9 representado por Clint Eastwood, um pouco por Sean Penn, entre outros. Para continuar autor, Woody Allen migrou para a Europa. Francis Ford Coppola ficou dez anos sem filmar at\u00e9 voltar ao cinema de autor com <em>Youth without Youth<\/em> (a tradu\u00e7\u00e3o literal \u00e9 <em>Juventude sem Juventude<\/em>, mas pode ser encarado como no t\u00edtulo acima ou no alternativo <em>Mocidade Depois de Velho<\/em>), lan\u00e7ado em 2007.<\/p>\n<p>Quem fez esta indica\u00e7\u00e3o foi o meu amigo Ricky Bols, que gosta dos meus textos sobre cinema que posto aqui. Com Tim Roth, Alexandra Maria Lara e Bruno Graz, o filme \u00e9 baseado numa novela do romeno Mircea Eliade, mas foi totalmente escrito, produzido e dirigido por Coppola. Trata-se de uma viagem no tempo, em que um ling\u00fcista pesquisa a origem da linguagem e para isso ganha o que todos os grandes estudiosos precisam desesperadamente: mais de uma vida, para realizar projetos ambiciosos demais. A nova vida do catedr\u00e1tico j\u00e1 senil, interpretado por Roth, \u00e9 inaugurada por uma carga poderosa de um raio, que o rejuvenesce.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno atrai a aten\u00e7\u00e3o dos nazistas, envolvidos historicamente em magias do Mal, como mostraram os autores de <em>O Despertar dos M\u00e1gicos<\/em>, antigo best-seller hoje esquecido de Louis Pauwels e Jacques Bergier e que pode ser lido online. A delirante fic\u00e7\u00e3o de Mircea \u00e9, em si, um projeto ambicioso demais. Como um Borges (como j\u00e1 foi notado por estudiosos), ele navega por assuntos como a migra\u00e7\u00e3o das almas, reencarna\u00e7\u00e3o, a exist\u00eancia de um Duplo (tema fundamental na literatura de Carlos Castaneda), espiritualidade oriental etc.. Coppola (ou talvez Mircea, j\u00e1 que n\u00e3o li a novela) coloca a hist\u00f3ria em fun\u00e7\u00e3o de um conflito, entre o projeto de uma vida e o amor. Numa das encarna\u00e7\u00f5es da amada, ela vai embora porque n\u00e3o consegue entrar no mundo dele. Na seguinte, mergulha t\u00e3o fundo que envelhece e corre o risco de enlouquecer \u2013 e por isso a rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 certo, n\u00e3o vai adiante.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 a solid\u00e3o e a regress\u00e3o. Toda a trajet\u00f3ria do desamparado professor romeno de l\u00ednguas acaba num livro inacabado, em dois amores partidos, na nega\u00e7\u00e3o do seu Duplo (somos um Outro) e na volta \u00e0 rotina que o condenava, entre professores intelectuais senis e omissos, enquanto a guerra bate na porta com as botas do nazismo. O filme \u00e9 tamb\u00e9m um projeto ambicioso demais para Coppola, que filma o que quer, depois de sofrer tanto com seus megafracassos de bilheterias, seu esbaga\u00e7amento de prazos e verbas, entre outras tempestades.<\/p>\n<p>A juventude que chega tardiamente e viabiliza uma segunda chance para a profiss\u00e3o e o amor, seria fruto dos impactos da ci\u00eancia na humanidade ou apenas perda de tempo? Nossa gera\u00e7\u00e3o, que se recusou a abra\u00e7ar o que estava programado e ousou novos caminhos, dando a si uma nova oportunidade, que elegeu a juventude como o insumo permanente do risco e de uma vida plena, sofre hoje com esse conflito: para onde foram tantas conquistas, tanto conhecimento acumulado, tanta experi\u00eancia? Voltamos \u00e0 estaca zero ou conseguimos realmente mudar tudo? Somos o professor rec\u00e9m sa\u00eddo da recupera\u00e7\u00e3o, cheio de projetos, driblando a tirania, ou aquele que volta ao seu rega\u00e7o de modorra e esquecimento e acaba se perdendo no meio da noite e da neve? Eis a atualidade candente dessa nova obra de Coppola.<\/p>\n<p>Em Roma, num festival em que lan\u00e7ou seu filme, argumentou que a cr\u00edtica deveria dar vez a autores que quisessem ousar, experimentar e n\u00e3o apenas ficar cobrando que fa\u00e7a filme de gangsters . Sim, teve uns bois cornetas que disseram que ele precisava fazer o que sabia fazer, ou seja, filme de bandidos. O cara \u00e9 uma enciclop\u00e9dia do cinema, cada filme seu \u00e9 uma escola diferente, \u00e9 autor de uma obra que ningu\u00e9m mais tem hoje, se equipara aos grandes mestres e querem que ele fa\u00e7a filme de tiroteio e roubos. \u00c9 de chorar.<\/p>\n<p>Neste <em>Youth without Youth<\/em>, o grande cineasta faz um trravelling sobre a hist\u00f3ria da S\u00e9tima Arte. \u00c9 um filme de amor, de espionagem, de especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, de suspense, \u00e0s vezes de terror, de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de viagens. Tem grandes homenagens ao cinema noir, como na persegui\u00e7\u00e3o que o professor sofre nos becos sinistros, quando luz e sombra, chap\u00e9us de feltro e casac\u00f5es, pistolas autom\u00e1ticas e rostos em close criam o clima inesquec\u00edvel dessa arte sem igual, o cinema policial americano cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos Coppola, todos \u00f3timos. Cada pessoa tem suas prefer\u00eancias. Eu destaco o roteiro (que ganhou o Oscar) para <em>Patton,<\/em> a narrativa \u00e9pica sobre um protagonista da II Grande Guerra; e <em>O Poderoso Chef\u00e3o III<\/em>, a den\u00fancia de que a maior m\u00e1fia \u00e9 invis\u00edvel, est\u00e1 no comando e domina o mundo por meio da manipula\u00e7\u00e3o das economias dos pa\u00edses ricos, o que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o cada vez mais evidente.<\/p>\n<p>Os Coppola obrigat\u00f3rios, como Apocalipse Now e os dois primeiros Godfather nem precisa citar, s\u00e3o eternos. Mas h\u00e1 os menos considerados, igualmente \u00f3timos, como <em>Peggy Sue<\/em> e <em>Tucker<\/em>. O cineasta prefere seu filme mais radical A Conversa\u00e7\u00e3o, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes e \u00e9 sobre um espi\u00e3o que surta diante da descoberta de que seu trabalho servia para causas escusas. A perda da inoc\u00eancia de um profissional da guerra \u00e9 um aspecto recorrente do cinema americano, que coloca os her\u00f3is deslocados na volta para casa, em desgra\u00e7a nos quart\u00e9is das For\u00e7as Armadas ou da CIA, em pa\u00edses distantes onde entram em crise de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Em <em>Youth Without Youth<\/em>, Coppola retoma o fio de suas m\u00faltiplas narrativas, apostando na intelig\u00eancia dos espectadores, peitando a cr\u00edtica submissa e sem nenhuma luz. Talvez seja por isso, o excesso de sombras, que tenha trazido Coppola a Florian\u00f3polis nos \u00faltimos anos, onde pretende criar projetos imobili\u00e1rios, no m\u00ednimo uma casa debru\u00e7ada para o mar. Que salte esta primavera, t\u00e3o chuvosa e sombria e venha no ver\u00e3o, que o ver\u00e3o da ilha o espera, com camar\u00e3o e tainha na brasa.<\/p>\n<p>Vem, cara, que a gente nem vai te cobrar filmes de g\u00e2ngsters. Prometemos tamb\u00e9m nem comentar teu excelente Juventude fora de hora. Na tua presen\u00e7a, a gente se cala. \u00c9 o que devem fazer os espectadores com ju\u00edzo, quando encontram, por acaso, uma das encarna\u00e7\u00f5es do g\u00eanio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A juventude que chega tardiamente e viabiliza uma segunda chance para a profiss\u00e3o e o amor, seria fruto dos impactos da ci\u00eancia na humanidade ou apenas perda de tempo? Nossa gera\u00e7\u00e3o, que se recusou a abra\u00e7ar o que estava programado e ousou novos caminhos, dando a si uma nova oportunidade, que elegeu a juventude como o insumo permanente do risco e de uma vida plena, sofre hoje com esse conflito: para onde foram tantas conquistas, tanto conhecimento acumulado, tanta experi\u00eancia? Voltamos \u00e0 estaca zero ou conseguimos realmente mudar tudo? Somos o professor rec\u00e9m sa\u00eddo da recupera\u00e7\u00e3o, cheio de projetos, driblando a tirania, ou aquele que volta ao seu rega\u00e7o de modorra e esquecimento e acaba se perdendo no meio da noite e da neve? 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