{"id":654,"date":"2009-12-12T15:20:45","date_gmt":"2009-12-12T17:20:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=654"},"modified":"2009-12-21T23:00:04","modified_gmt":"2009-12-22T01:00:04","slug":"mitch-mitchell-o-som-do-sonhador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/mitch-mitchell-o-som-do-sonhador","title":{"rendered":"MITCH MITCHELL: O SOM DO SONHADOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O sonho n\u00e3o brotou, como querem os textos da mem\u00f3ria fake da m\u00eddia, repetidos at\u00e9 a extrema exaust\u00e3o, para manter no ar a inten\u00e7\u00e3o de assassin\u00e1-lo. O sonho foi sonhado (com perd\u00e3o da necess\u00e1ria tautologia) por grandes artistas como Mitch Mitchell, baterista da Jimi Hendrix Experience (banda conhecida por todas as pessoas que permaneceram alertas numa \u00e9poca de sombras). Ele foi encontrado morto no dia 13 de novembro de 2008, aos 62 anos, v\u00edtima de causas naturais, ou seja, desconhecidas. Tinha acaba de fazer uma turn\u00ea por 18 cidades americanas.<\/p>\n<p>Estava vivo, mas disso nada sab\u00edamos. Colocam na nossa frente uma prociss\u00e3o de nulidades que exigem ser celebradas pelo fato de abrirem as pernas enquanto rolam no palco no meio da gritaria pura e simples. Mitch Mitchell era um solista e seu instrumento n\u00e3o se limitava ao ritmo. Anti-baticum, era t\u00e3o sofisticado quando um \u00f3rg\u00e3o, um violino, uma c\u00edtara.<\/p>\n<p>Vemos e ouvimos o g\u00eanio de Hendrix acompanhando com a guitarra os solos do seu baterista. Nesses momentos, era Mitchell o protagonista de sua hist\u00f3ria musical. Quem foi devassado pelo seu som quando apareceu, de s\u00fabito, em Woodstock, viu que ele se diferenciava dos extremos. Numa ponta, a efus\u00e3o do rock, tanto o tradicional das bandas quentes da \u00e9poca quanto da emergente latina, como acontecia nas performances dos percussionistas que acompanhavam Santana. Na outra, o desmaio infinito dos bateristas de jazz, solistas de primeira hora, mas diferentes da inven\u00e7\u00e3o de Mitch, que era do rock, portanto, da guerra.<\/p>\n<p>O jazz \u00e9 m\u00fasica de desarmados, de espirais que mergulham em continentes submersos. O rock \u00e9 convoca\u00e7\u00e3o e garra. Um concerto de hard rock \u00e9 apenas a caricatura extrema de uma natureza que n\u00e3o foge a luta. Mas h\u00e1 um disparate: Mitch Mitchel, soldado nas linhagens incendi\u00e1rias, era a reflex\u00e3o perform\u00e1tica, como se um garoto que estreasse no front fosse encarregado dos toques de clarim, apesar de dispor apenas de um tambor.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ar, recuar, montar: como emitir essas palavras de ordem contando apenas com a escassez dos couros estendidos em paisagens noturnas? Sua solu\u00e7\u00e3o foi fazer como no jazz, mas com outra desenvoltura, com isso que chamam agora de pegada, e que era uma esp\u00e9cie de carga de brigada ligeira, que instrumentava as plat\u00e9ias abra\u00e7adas \u00e0 sua determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um de seus toques era o hiato, a pausa, n\u00e3o o breque, que \u00e9 apenas caudat\u00e1rio do ritmo. A pausa \u00e9 como desistir completamente do que est\u00e1 sendo tocado, \u00e9 o turning point, o ponto de muta\u00e7\u00e3o, em que uma frase respira para acordar rodeada de esp\u00edritos habitados no minuto seguinte, quando todos est\u00e3o fissurados diante do artista e sua capacidade de mudar o mundo conhecido.<\/p>\n<p>Escrevo de mem\u00f3ria, pois pouco ouvi Mitch Mitchell. Mas basta alguns segundos para recuperar o Tempo estocado nos armaz\u00e9ns do limbo. Ele tocou para seu tempo, mas ficar\u00e1 mesmo atuante no futuro. Quando toda essa tralha que a ditadura financeira inventou para tontear as multid\u00f5es escravas beijar a lona, haver\u00e1 novamente a chance de escutar Mitch Mitchell, exatamente naquele instante em que ele some do ouvido para sempre.<\/p>\n<p>Sabemos que retornar\u00e1 em fra\u00e7\u00f5es microsc\u00f3picas de anos-luz. \u00c9 o que vai acontecer quando retomar seu som. O sonhador ent\u00e3o reinventar\u00e1 a anima\u00e7\u00e3o que fez nossa cabe\u00e7a e que est\u00e1 guardada por enquanto, como um c\u00e3o ainda vigoroso mantendo a vig\u00edlia na noite gelada e intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>RETORNO &#8211; <em>\u00c9 t\u00e3o importante o que Miguel Lobato Ducl\u00f3s escreveu nos coment\u00e1rios desse texto, que vou reproduzir aqui, na se\u00e7\u00e3o Retorno: &#8220;O Jimi era a estrela mas n\u00e3o tinha estrelismo. Ele mesmo havia sofrido com o estrelismo do Little Richard, que o expulsou de sua banda, no come\u00e7o de carreira, porque ele era grande demais. Jimi dava vez e espa\u00e7o pro Mitch exercer sua virtuose na bateria, com seus solos determinados e inovadores, para em seguida retormar o controle de maestro com sua guitarra cat\u00e1rtica, redentora da voli\u00e7\u00e3o e da liberdade. E mantinha-se o sentido de banda, j\u00e1 que quando caiu o Experience, Jimmy manteve Mitch na lend\u00e1ria performance de Woodstock, com a Gipsy of Raibows. Uma mensagem perene que j\u00e1 est\u00e1 no futuro, e prova viva de que o mundo n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o foi nem deve ser pouco.&#8221; (Miguel Lobato Ducl\u00f3s). <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sonho n\u00e3o brotou, como querem os textos da mem\u00f3ria fake da m\u00eddia, repetidos at\u00e9 a extrema exaust\u00e3o, para manter no ar a inten\u00e7\u00e3o de assassin\u00e1-lo. 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