{"id":656,"date":"2009-12-12T15:21:32","date_gmt":"2009-12-12T17:21:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=656"},"modified":"2009-12-21T23:35:21","modified_gmt":"2009-12-22T01:35:21","slug":"ha-medo-no-ar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ha-medo-no-ar","title":{"rendered":"H\u00c1 MEDO NO AR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 medo no ar. A intimidade est\u00e1 sendo devassada. Ningu\u00e9m se sente seguro. Querem saber tudo de voc\u00ea. Na caixa do supermercado, como alertou uma leitora desta revista, aquele que ocupa um lugar atr\u00e1s na fila se debru\u00e7a para saber RG, CIC, telefone e endere\u00e7o de quem est\u00e1 sendo atendido. Mesmo sem ficar interessado nos dados do outro, essa press\u00e3o significa que h\u00e1 vontade de ocupar o espa\u00e7o alheio.<\/p>\n<p>Nas casas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 id\u00eantica. Voc\u00ea levanta o muro e sempre tem algu\u00e9m que sobe ainda mais alto para poder espionar. \u00c9 um desaforo que voc\u00ea se feche em copas. \u00c9 preciso se entregar \u00e0 bisbilhotice. Foi decretada a transpar\u00eancia total. Podem clonar um perfil. Podem telefonar com amea\u00e7as. Podem multiplicar os exemplares dos cart\u00f5es. Voc\u00ea est\u00e1 distra\u00eddo, mas todos sabem quais s\u00e3o seus h\u00e1bitos, suas demandas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o invente de deixar a porta do carro com um mil\u00edmetro de afastamento do lugar certo, pois a humanidade cair\u00e1 em cima de voc\u00ea gritando, desesperada: \u201cA porta est\u00e1 aberta!\u201d. Essa s\u00edndrome realmente me deixa intrigado. Por que mexe tanto com as pessoas? Elas n\u00e3o admitem que voc\u00ea trafegue sem que esteja totalmente trancado no autom\u00f3vel. Talvez porque esse seja o \u00faltimo ref\u00fagio da privacidade. Como n\u00e3o h\u00e1 mais como escapar, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel cultivar o anonimato e a intimidade sentados ao volante, bem protegidos por uma pel\u00edcula escura grudada no vidro. A porta aberta seria o caos, o sinal de que o reduto mais extremo estaria enfim nos bra\u00e7os do perigo.<\/p>\n<p>O que mais espanta \u00e9 ver at\u00e9 crian\u00e7as berrarem para voc\u00ea apontando o estrago. Motoqueiros se jogam contra sua lateral para denunciar a amea\u00e7a. Est\u00e1 se sentindo isolado, ningu\u00e9m d\u00e1 bola para voc\u00ea? Bata com displic\u00eancia a porta do autom\u00f3vel e saia devagarinho. Ver\u00e1 ent\u00e3o o p\u00e2nico hist\u00e9rico diante do evento que significa a \u00faltima coisa suport\u00e1vel sobre a face da terra. H\u00e1 indiferen\u00e7a diante do seq\u00fcestro intermin\u00e1vel que des\u00e1gua no assassinato. Pode-se bocejar com a crise das bolsas, o sucateamento do cr\u00e9dito, o horror dos programas de audit\u00f3rio, as not\u00edcias mentirosas, as alegrias for\u00e7adas, as falcatruas. Tudo passa. Mas uma portinha quase entreaberta, assim, minimamente fora do prumo, faz com que o dil\u00favio, o apocalipse e o universo em desencanto se desencadeie como avalanche sobre voc\u00ea.<\/p>\n<p>Basta voc\u00ea corrigir o defeito para que tudo volte ao normal. As pessoas fingem que n\u00e3o prestam aten\u00e7\u00e3o. Talvez at\u00e9 seja bom esse neg\u00f3cio da porta. Pois ela mostra o quanto est\u00e3o atentos \u00e0 sua vida. Deixe alguma coisa por fazer para ver como funciona. Esquecer o len\u00e7o no ch\u00e3o era o expediente das mo\u00e7as que queriam atrair os futuros maridos. Manter a manchinha na roupa impec\u00e1vel n\u00e3o falha. O detalhe exp\u00f5e o olho fixo em voc\u00ea.<\/p>\n<p>Escancarar as janelas da casa, quem sabe, poder\u00e1 provar que n\u00e3o somos t\u00e3o interessantes assim. Antigamente, ningu\u00e9m fechava nada. Passarinhos perdidos entravam s\u00f4fregos, e se debatiam entre panelas. Vizinhos eram como pessoas da fam\u00edlia. Visitantes espor\u00e1dicos metiam a m\u00e3o no trinco. Comadres andavam na ponta dos p\u00e9s porque sabiam que algu\u00e9m na casa sesteava naquela hora.<\/p>\n<p>\u00c9 que, talvez, tudo j\u00e1 se soubesse e ningu\u00e9m sentia necessidade de se esconder. Nem existiam carros suficientes para mexer com a multid\u00e3o. Era o tempo das carro\u00e7as. O ploc ploc dos cavalos que carregavam leite ou verduras rebatiam no forro. Viv\u00edamos numa eterna manh\u00e3 de primavera. Acord\u00e1vamos para a vida. Algu\u00e9m jogava pedras na nossa janela. Era a garotada da vizinhan\u00e7a, mostrando uma bola de futebol. Sum\u00edamos ent\u00e3o nos terrenos baldios. Ningu\u00e9m lembrava mais daqueles moleques enfezados, que atrapalhavam a vida da casa.<\/p>\n<p>Mor\u00e1vamos no Mundo Perdido. Era quando faz\u00edamos parte da Cria\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximos demais da divindade, que de vez em quando n\u00e3o resistia e vinha participar da pelada. Mas Ele n\u00e3o tinha dom\u00ednio suficiente, n\u00e3o driblava direito, o que demandava certa malandragem de estilo. Prefer\u00edamos ent\u00e3o coloc\u00e1-Lo no arco, onde fazia defesas sensacionais, voando at\u00e9 as nuvens para segurar o chute que jog\u00e1vamos nos eucaliptos. Era imposs\u00edvel furar aquele goleiro. Jamais deixava a guarda aberta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 medo no ar. A intimidade est\u00e1 sendo devassada. Ningu\u00e9m se sente seguro. Querem saber tudo de voc\u00ea. 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