{"id":658,"date":"2009-12-12T15:22:31","date_gmt":"2009-12-12T17:22:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/nada-muda"},"modified":"2009-12-21T23:31:42","modified_gmt":"2009-12-22T01:31:42","slug":"nada-muda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/nada-muda","title":{"rendered":"NADA MUDA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Vejo rostos, gestos, express\u00f5es, id\u00e9ias que pertenciam, quando eu era crian\u00e7a, aos mais velhos. Olho mais de perto e noto agora que todas essas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o emitidas, de maneira id\u00eantica, por gente bem mais jovem do que eu. Nada mudou. Foi como se os modelos estivessem esperando as novas gera\u00e7\u00f5es, para vesti-las com os h\u00e1bitos formatados desde sempre. N\u00e3o importa quem vem depois. Tudo se reproduz como se a dial\u00e9tica fosse uma fic\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e n\u00e3o um flagrante nos mecanismos do mundo.<\/p>\n<p>Para os longevos, fica estranho observar esse senhor provecto a dar opini\u00e3o grave sobre a crise, j\u00e1 que ele mant\u00e9m o tom e os argumentos da \u00e9poca em que nem era nascido. O garoto quarent\u00e3o, vejam s\u00f3, \u00e9 um av\u00f4 que lembra Tolstoi, mas sente saudades dos anos 80, que aconteceram hoje de manh\u00e3. A senhora que brincava de boneca na semana passada assume aquele ar de matrona empedernida, a desferir cr\u00edticas, principalmente contra os homens, esses imprest\u00e1veis. O coronelz\u00e3o de hoje jogava taco com outros moleques quando passei por determinada rua, h\u00e1 um m\u00eas. Isso sem falar nos sacerdotes aer\u00f3bicos, m\u00e3es com cara de beb\u00eas, trint\u00f5es cansados de guerra, aposentados de cabelos pretos que juram ser a fauna de uma idade avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>As barbas brancas rec\u00e9m postas querem usurpar nosso lugar, os veteranos de verdade, que n\u00e3o esperavam essa bizarra concorr\u00eancia. Desconfio que os motivos s\u00e3o quest\u00f5es pr\u00e1ticas, como pegar fila especial nos bancos. Assumem o visual dos provectos e nele acrescentam o charme do vigor juvenil, o que lhes d\u00e1 uma apar\u00eancia cool t\u00e3o ao gosto de publicidade.<\/p>\n<p>Ou ser\u00e1 que os biotipos imut\u00e1veis s\u00e3o modelados por esp\u00edritos saudosos e cada vez mais apressados? Isso explicaria o guarda gordinho que mal saiu da adolesc\u00eancia, mas j\u00e1 levanta o dedo dando conselhos; a vizinha intrometida que nem sequer tem rugas; o malandro de bigodinho fino que usa celular, mas parece ilustra\u00e7\u00e3o de reclame dos anos 20; o sujeito de cabelo engomado que, em plena era digital, clama por um microfone de r\u00e1dio, daqueles que imitavam tijolos.<\/p>\n<p>Ser\u00edamos manequins descart\u00e1veis assumindo personagens eternos. Um deles, o nosso, jamais se renderia \u00e0 evid\u00eancia de que tudo se transforma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os longevos, fica estranho observar esse senhor provecto a dar opini\u00e3o grave sobre a crise, j\u00e1 que ele mant\u00e9m o tom e os argumentos da \u00e9poca em que nem era nascido. O garoto quarent\u00e3o, vejam s\u00f3, \u00e9 um av\u00f4 que lembra Tolstoi, mas sente saudades dos anos 80, que aconteceram hoje de manh\u00e3. A senhora que brincava de boneca na semana passada assume aquele ar de matrona empedernida, a desferir cr\u00edticas, principalmente contra os homens, esses imprest\u00e1veis. O coronelz\u00e3o de hoje jogava taco com outros moleques quando passei por determinada rua, h\u00e1 um m\u00eas. 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