{"id":660,"date":"2009-12-12T15:24:10","date_gmt":"2009-12-12T17:24:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=660"},"modified":"2009-12-21T23:29:47","modified_gmt":"2009-12-22T01:29:47","slug":"caca-no-quarto-crescente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/caca-no-quarto-crescente","title":{"rendered":"CA\u00c7A NO QUARTO CRESCENTE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>A silenciosa imobilidade une cachorro e ca\u00e7a. As duas cabe\u00e7as est\u00e3o penduradas no mesmo olhar fixo. Uma espada invis\u00edvel cruza as criaturas no instante decisivo da tarde, at\u00e9 agora muda. O fio re\u00fane as aten\u00e7\u00f5es terminais da persegui\u00e7\u00e3o entre urtigas. O perdigueiro treme porque o tempo desanda e a impaci\u00eancia come\u00e7a a devorar sua certeza. Mais um segundo e a presa desatar\u00e1 o v\u00f4o rasteiro, que vibra abrindo um rasgo no campo.<\/p>\n<p>A matraca da perdiz acorda ent\u00e3o a fuga na esta\u00e7\u00e3o. Abre um claro entre pastagens altas e espanta o susto preparado pelas cobras. N\u00e3o h\u00e1 mais nada ao redor do que o troar de for\u00e7as: meu pai de cartucheira cruzada no corpo; sua arma de extremo soco, que se d\u00e1 o luxo de emitir o tiro arisco, capaz de extrair a cabe\u00e7a da ave em pleno v\u00f4o; sua vis\u00e3o circunflexa e longa, como luneta de navegador. Eu estou um pouco atr\u00e1s, sentindo o cheiro de rebanhos prudentes, gado afastado do miolo do drama, recolhido ao remanso de um tufo de umbus ocupando extremos, l\u00e1 onde o sol ir\u00e1 se p\u00f4r, ao lado das corujas e sob o luar crescente.<\/p>\n<p>Aquela terra n\u00e3o nos pertence. Fica atr\u00e1s das cercas que ultrapassamos com nossas cal\u00e7as de brim, alpargatas rotas, chap\u00e9us de feltro. Somos feitos de palha, como os bois de festa. Ro\u00e7amos as m\u00e3os no pasto para colher talos verdes, que mascamos enquanto os p\u00e9s afundam em barros ocultos. N\u00e3o \u00e9 um passeio. Somos uma caravana de tormentos. Nenhuma carne est\u00e1 a salvo quando seguimos o pai concentrado na sua guerra ofegante. De vez em quando, ele concede o privil\u00e9gio de uma bandeja, a ave muito pr\u00f3xima e desatenta, capaz de levar o tiro de um de n\u00f3s, herdeiros sem treino. Basta apontar para a v\u00edtima em movimento. Desde que ela n\u00e3o fique imprest\u00e1vel para o forno, por for\u00e7a do chumbo espalhado a esmo, fruto de pontaria tr\u00f4pega.<\/p>\n<p>Prefiro n\u00e3o atirar. Estudo o mist\u00e9rio do rastreador, que cheira o caminho tra\u00e7ado pelo medo. Ningu\u00e9m enxerga o que ele v\u00ea. Feito de bronze, aguarda a ordem de avan\u00e7ar. A voz do pai \u00e9 um clarim de batalh\u00e3o, identificada pelo tom de mando. Sob aquela guarda conheci as porteiras das est\u00e2ncias, os arroios escondidos em matos, as corredeiras de dourados na madrugada sem estrelas. Aprendi a ficar quieto como um anzol forrado de piavas, \u00e0 espreita do surubi gigante, o que ir\u00e1 afogar dez b\u00f3ias do espinhel ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>A pele prec\u00e1ria dos p\u00e9s criados em asfalto conheceram a brutalidade dos barrancos, os charcos do inverno, os insetos do crep\u00fasculo, as tra\u00edras onde todas as linhas trope\u00e7avam, enredadas pela m\u00e3o invis\u00edvel de um destino feito de espumas. Aprendi a fazer fogo e a esperar os adultos voltarem com sua algazarra e assim poder dormir, sem a urdidura dos fantasmas. Vi tanto amanhecer que desandei. Descobri que as cidades s\u00e3o apenas acidentes e que nascemos todos em campo aberto.<\/p>\n<p>Fomos recolhidos cedo \u00e0s paredes. Viciamos em tetos, sof\u00e1s, fios, talheres. Mas basta o fogo no ch\u00e3o em nossa frente, num dia qualquer da inf\u00e2ncia, para que ressurja o sopro da sementeira original da ra\u00e7a que negamos. Somos bugres de polainas, mas se topamos na raiz podre que desperta os marimbondos, saberemos como agir, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s sangas. L\u00e1 vamos mergulhar o nosso esbo\u00e7o. O que nos desenhou para sempre.<\/p>\n<p>Nem \u00e9 preciso mais o pai com a m\u00e3o no cartucho feito na v\u00e9spera, com p\u00f3lvora comprada a granel, bucha improvisada, espoletas secas. J\u00e1 sabemos o caminho da ro\u00e7a. Vestimos a farda dos acampamentos e vamos, reunidos, seguindo as pegadas do Tempo. Estamos de olho no horizonte. De l\u00e1 vir\u00e1 o Quarto Crescente, anunciando a eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A silenciosa imobilidade une cachorro e ca\u00e7a. As duas cabe\u00e7as est\u00e3o penduradas no mesmo olhar fixo. 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