{"id":662,"date":"2009-12-12T15:25:04","date_gmt":"2009-12-12T17:25:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=662"},"modified":"2009-12-21T23:28:25","modified_gmt":"2009-12-22T01:28:25","slug":"o-drama-de-marcos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-drama-de-marcos","title":{"rendered":"O DRAMA DE MARCOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nFutebol \u00e9, al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o entre linhas retas e curvas, o conflito entre a bola e a expectativa dos jogadores. O segundo antes da falta, a paradinha do p\u00eanalti, os empurr\u00f5es na \u00e1rea no momento do escanteio, o desespero nos minutos finais, a euforia no in\u00edcio, a espera da substitui\u00e7\u00e3o, o corpo ca\u00eddo depois do choque. Quando n\u00e3o h\u00e1 conflito, essa briga entre a percep\u00e7\u00e3o (permanente, mas que n\u00e3o influi no resultado) e o fato (descart\u00e1vel, mas decisivo), n\u00e3o temos futebol. Temos comentaristas. Na tarde do domingo, dia 9\/11\/2008, os narradores juravam que n\u00e3o havia jogo entre Palmeiras e Gr\u00eamio, porque a partida estava muito disputada. N\u00e3o consegui atinar com esse racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente o contr\u00e1rio: porque havia disputa de bola, havia jogo. Mas os comentaristas diziam que um time n\u00e3o deixava o outro jogar, portanto estava tudo muito travado. N\u00e3o vi assim. Vi uma partida \u00e9pica, com todos dando tudo o tempo todo. Nem d\u00e1 para saber como conseguem f\u00f4lego para lutar at\u00e9 o segundo derradeiro. Tirou sangue de v\u00e1rios. No primeiro tempo, j\u00e1 se via um hospital em campo: algu\u00e9m enfaixou a cabe\u00e7a, outro o pulso, mais um teve que fazer curativo na testa. Quando ser\u00e1 que v\u00e3o criar um capacete transparente, fino e resistente de silicone ou o que for para que os jogadores possam trabalhar em paz, sem colocar em risco o patrim\u00f4nio?<\/p>\n<p>Por ter sido um jogo intenso, em que a rela\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica entre expectativa e bola chegou ao seu ponto m\u00e1ximo de tens\u00e3o, \u00e9 que aconteceu a trag\u00e9dia. Pois quando a percep\u00e7\u00e3o coletiva foca demais num ponto, quando a cabe\u00e7as, machucadas ou n\u00e3o, se voltam para aquela comunh\u00e3o entre golpe de vista e chute no \u00e2ngulo, fica de fora o improv\u00e1vel. \u00c9 desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geom\u00e9tricos do futebol.<\/p>\n<p>Quem viu, sabe. Tcheco, do Gr\u00eamio, levantou a bola em elipse aberta e alta para o miolo da \u00e1rea. Seu objetivo seria colocar os advers\u00e1rios no sufoco, oferecendo a sorte para que seus companheiros conseguissem sacudir a rede. Defesa e ataque se concentraram uns nos outros, enquanto a bola evolu\u00eda no hiperespa\u00e7o, no n\u00e3o-lugar, na estrada inexistente que corta em diagonal o universo conhecido. Ali ela encontrou seu rumo e foi despencando devagar, sem que ningu\u00e9m percebesse suas inten\u00e7\u00f5es. Era uma criminosa disfar\u00e7ada depois do roubo, um popular tentando escapar da revolu\u00e7\u00e3o desencadeada em plena rua.<\/p>\n<p>Mas bola n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o, obedece ao impulso, o chute de Tcheco. Ela simplesmente cumpriu seu destino. Foi levantando v\u00f4o, enquanto os jogadores se estapeavam numa outra dimens\u00e3o, a considerada real. E ali ela foi se aninhando, naquele caminho virtual que a levou, para desespero do goleiro Marcos, do Palmeiras, para o fundo do gol. Na trajet\u00f3ria, tocou em algu\u00e9m? N\u00e3o importa. Ela nem foi desviada. O goleiro n\u00e3o estava prestando aten\u00e7\u00e3o naquela evolu\u00e7\u00e3o bizarra, no evento absurdo, que era a bola simplesmente indo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria do Gr\u00eamio sem que ningu\u00e9m, nem mesmo Wanderley Luxemburgo, que sabe tudo, visse na hora o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>Como tem sido natural fazer an\u00e1lises cheias de frases definitivas equilibrando-se em bases improv\u00e1veis, \u00e9 certo que Marcos caiu na armadilha e assumiu a culpa pelo estrago. Para compensar, rifou sua carreira indo v\u00e1rias vezes para a \u00e1rea advers\u00e1ria, tentando o empate. Cansou nesse devaneio e por pouco n\u00e3o sofreu um rev\u00e9s mortal, que o jogaria no ex\u00edlio completo. Marcos fora substitu\u00eddo nos jogos anteriores e o substituto aproveitou bem a oportunidade, pegando sem parar. O time estava pertinho da lideran\u00e7a. Marcos voltou como titular absoluto e n\u00e3o contava com a improbabilidade da jogada esdr\u00faxula que o desestabilizou.<\/p>\n<p>Deve estar procurando explica\u00e7\u00f5es, o goleir\u00e3o campe\u00e3o do mundo e o algoz que tirou o Corinthians para sempre de uma decis\u00e3o mundial no Jap\u00e3o. S\u00f3 existe um motivo, craque: uma tempestade de olhares convictos, sem ostentar d\u00favidas, inclusive o teu olhar, goleir\u00e3o, deixou a guarda aberta para que o futebol, esse jogo mortal que s\u00f3 pode existir como atividade de esp\u00edritos livres, aprontasse uma das suas.<\/p>\n<p>Foi o desfecho cl\u00e1ssico que costuma ocorrer quando todos est\u00e3o virados para o mesmo lado e o Senhor dos Desertos resolve cavar o \u00e9ter com suas m\u00e3os douradas. Ele brinca na areia do nada para que possamos aprender o que \u00e9 bom para a tosse: a de que somos presas aleat\u00f3rias da grande bagun\u00e7a que \u00e9 a vida al\u00e9m dos muros que cercam todos os est\u00e1dios. Isso pode derrubar a alegria de alguns torcedores e incendiar outros. Mas todos saem ganhando quando vemos o chute sem ja\u00e7a decidir um jogo inesquec\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por ter sido um jogo intenso, em que a rela\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica entre expectativa e bola chegou ao seu ponto m\u00e1ximo de tens\u00e3o, \u00e9 que aconteceu a trag\u00e9dia. Pois quando a percep\u00e7\u00e3o coletiva foca demais num ponto, quando a cabe\u00e7as, machucadas ou n\u00e3o, se voltam para aquela comunh\u00e3o entre golpe de vista e chute no \u00e2ngulo, fica de fora o improv\u00e1vel. \u00c9 desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geom\u00e9tricos do futebol.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=662"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1800,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/662\/revisions\/1800"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}