{"id":667,"date":"2009-12-12T15:32:11","date_gmt":"2009-12-12T17:32:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=667"},"modified":"2009-12-21T23:03:51","modified_gmt":"2009-12-22T01:03:51","slug":"o-avesso-do-exilio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-avesso-do-exilio","title":{"rendered":"O AVESSO DO EX\u00cdLIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO presidente deposto Mauro Jindre Calvano Castro encontrou no Uruguai seu ex\u00edlio dourado. Sentia-se no Brasil, para desespero de sua assessoria, que n\u00e3o conseguia explicar direito a confus\u00e3o que o estadista fazia entre a antiga prov\u00edncia Cisplatina, do tempo do Imp\u00e9rio, e o estado soberano que agora o recebia. Achava que os uruguaios eram riograndenses mais urbanos e cultos e, o que era melhor, habitantes de uma civiliza\u00e7\u00e3o que h\u00e1 muito no Brasil tinha sido destru\u00edda. Toda vez que o Doutor Mauro Jindre entrava num caf\u00e9 e via aqueles gar\u00e7ons com guardanapos longos pendurados no ante-bra\u00e7o, come\u00e7ava a cantar Noel Rosa.<\/p>\n<p>Mas a pol\u00edtica, ou melhor, a percep\u00e7\u00e3o coletiva do jogo pol\u00edtico, \u00e9 um espa\u00e7o virtual que subsiste com suas pr\u00f3prias leis. O presidente era prestigiado e tinha carisma. Conseguira, no seu curto governo eleito pelo voto trabalhista tardio, retomar alguns lances eliminados pela longa ditadura que tomara conta do seu pa\u00eds por seis d\u00e9cadas. Em 2024, assumiu o poder acenando com a volta dos trens, desta vez todos em a\u00e7o inox, dos col\u00e9gios p\u00fablicos de qualidade, dos edif\u00edcios com no m\u00e1ximo tr\u00eas andares. Prometeu impor a cal\u00e7a curta para a meninada, o fim da MTV, fuzilamento de traficantes e consumidores de drogas, aproveitamento da madeira cortada da Amaz\u00f4nia para fabrica\u00e7\u00e3o em massa de barcos de todos os calibres. E, o ponto focal da sua campanha, o Rio de Janeiro novamente como capital da Rep\u00fablica (Bras\u00edlia iria virar uma cidade universit\u00e1ria e de alta tecnologia).<\/p>\n<p>Tinha prometido dinamizar a Marinha, atualizar o Ex\u00e9rcito, colocar a For\u00e7a A\u00e9rea na Lua. Deu certo. Foi eleito por uma lavada de votos. Mas as for\u00e7as do Mal se recompuseram para destru\u00ed-lo e em apenas dois anos e meio de governo foi colocado para rua num golpe de estado que contou com a participa\u00e7\u00e3o decisiva de um ex\u00e9rcito para-militar, privatizado, formado por solados de cinco continentes. Posto para fora do pa\u00eds, o Doutor Mauro deixou-se ficar no Uruguai, com a esperan\u00e7a de voltar rapidamente. Desta vez, teve o cuidado de n\u00e3o comprar nenhuma fazendinha.<\/p>\n<p>Mas como poderia realizar seu intento se a nova ordem tinha retomado o que havia sido destru\u00eddo no seu governo? N\u00e3o apenas a volta dos clipes da MTV, mas o novo sucateamento dos trens, o c\u00e2mbio paralelo, os juros altos, o tr\u00e1fico de armas, a favelama, a cana-de-a\u00e7\u00facar, a soja. Havia dinheiro no pa\u00eds, fartamente distribu\u00eddo pelo governo americano republicano, que voltou com tudo depois de tr\u00eas presidentes negros, dois reeleitos e o \u00faltimo deposto com um tiro na nuca. Sa\u00edra tudo errado. O ex\u00edlio, que no in\u00edcio prometera ser de pompa e gl\u00f3ria, revelou-se frio, amargo e sombrio.<\/p>\n<p>O Doutor Mauro, que antes recebia estadistas em sua limousine preta, colocada \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o pelo governo socialista uruguaio, agora usava um velho Gol encardido, que mandara buscar de suas propriedades na fronteira. A toda hora ficava a p\u00e9, porque o carrinho afogava, batia biela, entupia. Esperando o socorro do mec\u00e2nico, o presidente encostava-se no ve\u00edculo lendo algum jornal popular, para disfar\u00e7ar. Mas suas entranhas ardiam. O que mais o incomodava era seu bi\u00f3grafo. Este, o jornalista aposentado Afr\u00e2nio de Couto Magalh\u00e3es Pereira, inventara de exagerar tudo o que o presidente fazia no ex\u00edlio. Se tirasse uma foto em frente ao Rio da Prata dizia que era um gigante como Netuno. Se posava numa escadaria de shopping, falava em ascens\u00e3o ao poder.<\/p>\n<p>O presidente n\u00e3o suportava mais Afr\u00e2nio, escoadouro de recursos, pois insistia em ficar num dos hot\u00e9is mais caros do Uruguai, enquanto ele, presidente, se entocava num quarto barato de pens\u00e3o no sub\u00farbio. Tudo pelo marketing, dizia o indigitado.<\/p>\n<p>Afr\u00e2nio chamava o hall do hotel onde se hospedava \u00e0s custas das doa\u00e7\u00f5es que amealhava passando o chap\u00e9u pelos nichos culpados do mundo, de Catetinho, pois o Doutor Mauro realmente tinha mudado a capital para o Rio e talvez esse tenha sido o fator principal de sua deposi\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m mais estava acostumado a suportar os cariocas como centro do universo. Era preciso voltar ao normal, a Niemeyer, a Delfim Netto, a Jarbas Passarinho. Quem ag\u00fcentaria uma parada com a banda dos fuzileiros navais tocando Cisne Branco? Era preciso impor novamente o tunc tunc eletr\u00f4nico, o sertanojo, o heavy metal.<\/p>\n<p>E assim foi feito. O Doutor Mauro at\u00e9 se reacostumara ao pa\u00eds que decidira desconstruir. Via normalmente as novelas da Igreja Interestelar, brasileira e multiplanet\u00e1ria. Precisava era dar um jeito em Afr\u00e2nio, o \u00fanico que acreditava na volta do presidente deposto ao poder. Quem sabe mandava colocar umas trouxinhas de fumo no bolso do vagabundo para que apodrecesse na cadeia? Ou o acusasse de ass\u00e9dio? J\u00e1 sei! disse um dia o presidente, Doutor Mauro. Vou mentir que o convidaram para ser correspondente em Montevid\u00e9u do New York Times. Arranjo at\u00e9 passagem para ele pagar esse mico. Do jeito que \u00e9 trapalh\u00e3o, ser\u00e1 preso quando passar por Miami.<\/p>\n<p>Doutor Mauro Jindre era um estadista e tanto. O problema \u00e9 que ele estava gostando da sua vidinha. Tinha at\u00e9 colocado o olho numa uruguaia formosa, que passava todos os dias na frente da janela de seu quarto barato de pens\u00e3o, e que Afr\u00e2nio jurava ser uma espi\u00e3. Talvez pudesse at\u00e9 dar uma bimbada. Tudo \u00e9 poss\u00edvel no mundo da pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente deposto Mauro Jindre Calvano Castro encontrou no Uruguai seu ex\u00edlio dourado. Sentia-se no Brasil, para desespero de sua assessoria, que n\u00e3o conseguia explicar direito a confus\u00e3o que o estadista fazia entre a antiga prov\u00edncia Cisplatina, do tempo do Imp\u00e9rio, e o estado soberano que agora o recebia. Achava que os uruguaios eram riograndenses mais urbanos e cultos e, o que era melhor, habitantes de uma civiliza\u00e7\u00e3o que h\u00e1 muito no Brasil tinha sido destru\u00edda. Toda vez que o Doutor Mauro Jindre entrava num caf\u00e9 e via aqueles gar\u00e7ons com guardanapos longos pendurados no ante-bra\u00e7o, come\u00e7ava a cantar Noel Rosa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/667"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=667"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/667\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":669,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/667\/revisions\/669"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}