{"id":671,"date":"2009-12-12T18:54:56","date_gmt":"2009-12-12T20:54:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=671"},"modified":"2009-12-21T23:26:51","modified_gmt":"2009-12-22T01:26:51","slug":"a-china-e-vizinha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-china-e-vizinha","title":{"rendered":"A CHINA \u00c9 VIZINHA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o lembro quase nada do filme <em>La Cina \u00e9 vicina,<\/em> que cheguei a ver no cinema, quando eu ia ao cinema, mas posso dizer com propriedade, gra\u00e7as ao Google, que \u00e9 de Marco Belochio e de 1967. Tomei emprestado o t\u00edtulo para comentar <em><strong>Still Life,<\/strong><\/em> ou Natureza Morta, ou Em busca da Vida, do novo cineasta cult chin\u00eas, Jia Zhang-Ke, nascido em 1970 e um veterano de boas produ\u00e7\u00f5es. Esta, ganhou o Le\u00e3o de Ouro de Veneza de 2006. Muito j\u00e1 foi dito sobre esse grande filme, que aborda o esgar\u00e7amento das rela\u00e7\u00f5es sociais em meio \u00e0 lenta submers\u00e3o de uma cidade hist\u00f3rica em fun\u00e7\u00e3o da megausina Tr\u00eas Gargantas, projeto mao\u00edsta inspirada em Itaipu, e que ser\u00e1 inaugurada no ano que vem. Prefiro enfocar as coincid\u00eancias expl\u00edcitas com o Brasil.<\/p>\n<p>Nunca o povo chin\u00eas mostrado na tela foi t\u00e3o brasileiro. O mineiro que se engaja nas demoli\u00e7\u00f5es, as rodas de cigarro e aguardente, a aparente passividade, a malandragem ing\u00eanua, a afetividade navegando na frieza, os corpos suados e detonados em meio \u00e0s ru\u00ednas. Zhang-Ke filma lentamente, como Wim Wenders em Paris, Texas, e revela a grande paisagem do interiorz\u00e3o do pa\u00eds se transformando junto com seus habitantes. Os sub\u00farbios sujos, os edif\u00edcios encardidos, os terra\u00e7os favelados, as salas aglomeradas, as pens\u00f5es baratas, as conversas intermin\u00e1veis sobre dinheiro, o barulho, a tristeza sem fim.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o desumano o que est\u00e1 sendo feito, \u00e9 t\u00e3o deteriorado o ambiente, \u00e9 t\u00e3o im\u00f3vel a mente das pessoas, \u00e9 t\u00e3o armadilhada a situa\u00e7\u00e3o em que se meteram, que nenhuma ponte iluminada, nenhuma tecnologia de massa, como os celulares na m\u00e3o de todos, nada, absolutamente nada poder\u00e1 redimir tamanha trag\u00e9dia. Mas o impressionante \u00e9 que tudo isso tem o tom de um poema \u00e9pico, jamais de uma agonia. \u00c9 uma disson\u00e2ncia do discurso cinematogr\u00e1fico, essa for\u00e7a transmitida pela imagem em confronto com a fragilidade humana e das \u00e1guas,montanhas e vegeta\u00e7\u00e3o que submergem sob a press\u00e3o das decis\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>\u00c9 um privil\u00e9gio ver essa China que nada tem de milenar (id\u00e9ia soterrada pelo comunismo de resultados mao\u00edsta e que segue firme na atual mar\u00e9 alta do capitalismo chin\u00eas). \u00c9 um assombro ver que toda a tradi\u00e7\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 precariedade do eterno presente e s\u00f3 o que sobrevive como sinal de grandeza \u00e9 essa busca pelos entes queridos e desaparecidos, esse esfor\u00e7o de reatar casamentos e filia\u00e7\u00f5es, essa for\u00e7a que empurra as pessoas de volta para os grupos destru\u00eddos pela avalanche da \u00e9poca. Filme de alta dosagem dramat\u00fargica, feita com atores amadores, para que tudo esteja livre da interven\u00e7\u00e3o dos clich\u00eas e se sobressaia a grande arte desse diretor magn\u00edfico.<\/p>\n<p>Nenhum pa\u00eds, a n\u00e3o ser o nosso, perdeu a no\u00e7\u00e3o do \u00e9pico. Pois a radical mudan\u00e7a das na\u00e7\u00f5es clama por um cinema desse tipo, que chega ao del\u00edrio de sugerir discos voadores na impessoalidade c\u00e9tica dos habitantes, a brincar de surrealismo quando um edif\u00edcio vira um foguete e sobe aos c\u00e9us. N\u00f3s ficamos na pontualidade est\u00e9ril, na exposi\u00e7\u00e3o criminosa dos corpos, enquanto pessoas como Zhang-Ke encontram, no povo ao qual pertence, essa saga que se desdobra aos borbot\u00f5es. Aqui acontece o mesmo na pr\u00e1tica, mas nossos cineastas, em sua maioria, est\u00e3o com as costas voltadas para esse mural de acontecimentos.<\/p>\n<p>Precisamos seguir esse exemplo, precisamos nos emocionar com nosso pa\u00eds, ver com os olhos livres, enxergar o que est\u00e1 acontecendo conosco, criar\/encontrar hist\u00f3rias em meio ao caos. Sob pena de submergirmos como a cidade de Fengjie em Still Life. A vida resiste por mais que o sert\u00e3o vire mar e o mar sert\u00e3o. O sopro monumental do povo diante do seu destino: eis a China de Zhang-Ke, eis o Brasil que precisamos ter em nossas retinas t\u00e3o cansadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Still Life, ou Natureza Morta, ou Em busca da Vida, \u00e9 do cineasta cult chin\u00eas, Jia Zhang-Ke, nascido em 1970 e um veterano de boas produ\u00e7\u00f5es. Esta, ganhou o Le\u00e3o de Ouro de Veneza de 2006. Nunca o povo chin\u00eas mostrado na tela foi t\u00e3o brasileiro. O mineiro que se engaja nas demoli\u00e7\u00f5es, as rodas de cigarro e aguardente, a aparente passividade, a malandragem ing\u00eanua, a afetividade navegando na frieza, os corpos suados e detonados em meio \u00e0s ru\u00ednas. Zhang-Ke filma lentamente, como Wim Wenders em Paris, Texas, e revela a grande paisagem do interiorz\u00e3o do pa\u00eds se transformando junto com seus habitantes. 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