{"id":673,"date":"2009-12-12T18:55:54","date_gmt":"2009-12-12T20:55:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=673"},"modified":"2009-12-21T23:41:30","modified_gmt":"2009-12-22T01:41:30","slug":"encosto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/encosto","title":{"rendered":"ENCOSTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPalavra \u00e9 como gente, possui mediunidade e, portanto, est\u00e1 propensa ao encosto. Sessent\u00e3o, por exemplo, que serve para me definir a partir deste final de outubro, sempre traz ou trazia o adjetivo sacudido na garupa. Eu sabia (ou confiava) que chegaria aos 60, mas jamais imaginei ser um sessent\u00e3o sacudido. Por muito tempo, a pobre da palavra portuguesa vinha, obrigatoriamente, acompanhada pela express\u00e3o \u201ccom certeza\u201d. N\u00e3o era s\u00f3 para rimar, era para definir uma identidade. Tudo o que \u00e9 portuguesa \u2500 casa, fam\u00edlia, mulher \u2500 tem ou tinha o com certeza junto. Hoje o com certeza tem vida pr\u00f3pria, j\u00e1 que existe uma lei que obriga todo mundo a us\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, n\u00e3o existia americano que n\u00e3o fosse tranq\u00fcilo, gra\u00e7as a um c\u00e9lebre livro de Graham Greene. Nem velha senhora que n\u00e3o fosse indigna, gra\u00e7as a Bertold Brecht. Morte, nos tempos \u00e1ureos de Gabriel Garcia Marquez, era sempre anunciada , numa reprodu\u00e7\u00e3o de massa que provocava a desconfian\u00e7a de que todos os tituladores tinham surtado de vez. O pior era a cara de grande descoberta quando algu\u00e9m \u201cbolava\u201d algo como \u201ccr\u00f4nica de uma morte anunciada\u201d para qualquer reportagem.<\/p>\n<p>J\u00e1 tivemos surtos de sonhos que acabavam todos os dias; e de anos que, ao contr\u00e1rio, jamais chegavam ao fim. H\u00e1 casos graves que soterram conjuga\u00e7\u00f5es de verbos toda a vez em que s\u00e3o invocadas. Diga-se, por exemplo, jamais poder\u00e1 vir sozinha. \u00c9 fundamental que seja acompanhada com o \u201cde passagem\u201d. O uso \u00e9 t\u00e3o excessivo que importante diretor de reda\u00e7\u00e3o costumava bradar para as paredes: \u201cNingu\u00e9m diz nada de passagem, as pessoas simplesmente dizem!\u201d<\/p>\n<p>O que impressiona \u00e9 a resist\u00eancia desses v\u00edcios, que voltam \u00e0 tona ciclicamente. Quem chega aos 60 pode se desesperar se for identificado com algo como sacudido, dito por algu\u00e9m de passagem, numa tirada de humor anunciado, o que nos faz querer fugir para o al\u00e9m mar, para uma casa portuguesa com certeza que ir\u00e1 nos acolher. O pesadelo maior ser\u00e1 algu\u00e9m chegar de microfone na m\u00e3o e perguntar como \u00e9 que \u201cvoc\u00ea se sente\u201d chegando aos sessenta, e como \u00e9 \u201cessa coisa\u201d de ficar assim, digamos, velho. S\u00e3o amea\u00e7as que devemos nos prevenir criando respostas r\u00e1pidas e malcriadas. Espero n\u00e3o ter de us\u00e1-las.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por d\u00e9cadas, n\u00e3o existia americano que n\u00e3o fosse tranq\u00fcilo, gra\u00e7as a um c\u00e9lebre livro de Graham Greene. Nem velha senhora que n\u00e3o fosse indigna, gra\u00e7as a Bertold Brecht. Morte, nos tempos \u00e1ureos de Gabriel Garcia Marquez, era sempre anunciada , numa reprodu\u00e7\u00e3o de massa que provocava a desconfian\u00e7a de que todos os tituladores tinham surtado de vez. O pior era a cara de grande descoberta quando algu\u00e9m \u201cbolava\u201d algo como \u201ccr\u00f4nica de uma morte anunciada\u201d para qualquer reportagem.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/673"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=673"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/673\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1837,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/673\/revisions\/1837"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}