{"id":675,"date":"2009-12-12T18:56:42","date_gmt":"2009-12-12T20:56:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=675"},"modified":"2009-12-21T23:35:45","modified_gmt":"2009-12-22T01:35:45","slug":"imobilidade-regressao-e-loucura-em-durval-discos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/imobilidade-regressao-e-loucura-em-durval-discos","title":{"rendered":"IMOBILIDADE, REGRESS\u00c3O E LOUCURA EM DURVAL DISCOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA demoli\u00e7\u00e3o da loja que s\u00f3 vendia vinil e se recusava a acompanhar os tempos, no final do cult Durval Discos (Anna Muylaert, 2003) \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas de um neg\u00f3cio obsoleto, ou de uma constru\u00e7\u00e3o velha, mas de todo o imagin\u00e1rio do pa\u00eds que se transformava na \u00e9poca em que ocorre os eventos da narrativa (1995). Essa superestrutura, nascida e criada na \u00e9poca da ditadura e que, em tese, se contrapunha aos poderes pol\u00edticos do sistema, exibiu sua fragilidade no momento em que os protagonistas que dela se alimentavam n\u00e3o amadureceram. O dono da loja \u00e9 o paradigma dessa imobilidade, que se estende aos outros personagens.<\/p>\n<p>Durval (Ary Fran\u00e7a, antol\u00f3gico) n\u00e3o desvinculou o espa\u00e7o profissional do dom\u00e9stico. Vive com a m\u00e3e (Etty Fraser, definitiva) j\u00e1 sem capacidade f\u00edsica de manter a casa funcionando e que n\u00e3o entende o fracasso do empreendimento. O cabelo insistentemente comprido, inadequado ao visual do corpo marcado pela idade, no filho, e as roupas muito antigas, na m\u00e3e, s\u00e3o sinais evidentes de que pararam no tempo, incapazes de avan\u00e7ar. O que seria esse avan\u00e7o? O reconhecimento do fim da adolesc\u00eancia, por parte do sujeito, e da chegada da senilidade, por parte da senhora.<\/p>\n<p>Qual a sa\u00edda? Seria o casamento, representado pela gar\u00e7onete (Marisa Orth), que assedia o dono da loja em escapadas pretensamente para fumar, ou seja, fugir da tirania do pequeno patronato (a perua propriet\u00e1ria sempre com o filho pequeno nos bra\u00e7os). Mas o imaturo n\u00e3o reconhece que chegou a hora de casar, ter filhos, procurar uma solu\u00e7\u00e3o profissional (no m\u00ednimo, tirar o ganha-p\u00e3o do ambiente caseiro, do amadorismo). A velha n\u00e3o quer perder a mordomia do conv\u00edvio com o filho, o mant\u00e9m sob jugo e n\u00e3o aceita concorr\u00eancia . Tanto n\u00e3o aceita, que se encarrega de atirar quando a mo\u00e7a descobre a menina seq\u00fcestrada sob cust\u00f3dia na casa\/loja.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a (Isabela Guasco, perfeita), \u00e9 a regress\u00e3o. A velha quer voltar a ser m\u00e3e, o filho disputa o almo\u00e7o com a menina. A inf\u00e2ncia abandonada pela m\u00e3e verdadeira, fingida e rica, que vive com a falsa m\u00e3e, a bab\u00e1 (Let\u00edcia Sabatella), acaba na m\u00e3o dos seq\u00fcestradores. A filha n\u00e3o veio pelo amadurecimento dos personagens, e sim pela transgress\u00e3o nesse mundo em ru\u00ednas. Ao pedir hist\u00f3rias de Cinderela e Branca de Neve, ao se fantasiar de bailarina, ao montar no cavalo branco (o s\u00edmbolo do pr\u00edncipe que um dia vir\u00e1), a crian\u00e7a \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o desse mundo im\u00f3vel, que recua. No filme, esse recuo des\u00e1gua na loucura, quando acontece os assassinatos, a morte tanto da gar\u00e7onete quando da bab\u00e1, e o surto da velha, que n\u00e3o quer chamar a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>A narrativa que come\u00e7a tradicional, tipicamente brasileira, evolui para o surreal e o bizarro. \u00c9 incr\u00edvel como elementos simples (a carro\u00e7a no asfalto, o cavalo no quarto, o sangue na parede) funcionam. Elogiad\u00edssima, com justa raz\u00e3o, a diretora e roteirista Anna Muylaert teria, segundo alguns cr\u00edticos, se inspirado em Dali para compor o visual de algumas cenas antol\u00f3gicas. Acredito que ela tenha um p\u00e9 no cinema da Europa Oriental. Existe um toque de Cinzas e Diamantes, do polon\u00eas Andrzej Wadja, nas cenas do cavalo, assim como seu roteiro de \u201cQuando meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias\u201d, que fez junto com o diretor Cao Hamburger, \u00e9 totalmente calcado em \u201cQuando meu pai saiu em viagem de neg\u00f3cios\u201d, do iugoslavo (nascido em Sarajevo) Emir Kusturica.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que ela conseguiu grande impacto com seu filme ao radiografar uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o amadurece, que se refugia no imagin\u00e1rio ao qual foi acostumado e que considera ser de total liberta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 encarceramento nessa cultura gerada em oposi\u00e7\u00e3o, ou paralelamente, ao sistema de opress\u00e3o econ\u00f4mica. \u00c9, no fundo, fruto dele. Por isso n\u00e3o tem for\u00e7a para sobreviver e sucumbe com as marteladas da barb\u00e1rie urbana e econ\u00f4mica. S\u00e3o Paulo (o bairro de Pinheiros, mais especificamente) \u00e9 o retrato desse caos a que foi reduzido o pa\u00eds na ditadura. Capote Valente com Teodoro Sampaio: passei mais de uma vida por esse endere\u00e7o.<\/p>\n<p>L\u00e1 estou eu freq\u00fcentando, com velhos discos de vinil, os sebos especializados, ciscando preciosidades, desatento \u00e0 brutal transforma\u00e7\u00e3o que erradicou nossas vidas para a lata do lixo. Toda aquela m\u00fasica estupenda que fez nossa cabe\u00e7a foi junto e no seu lugar implantaram, com a nossa coniv\u00eancia, o baticum eletr\u00f4nico, o berreiro pseudo-sertanejo, o esgani\u00e7amento pop, entre outras falcatruas. Mas, como Durval no final do filme, parecemos aliviados que tudo tenha enfim acabado. A crian\u00e7a volta para seu ambiente e n\u00f3s voltamos \u00e0 pris\u00e3o a qual fomos acostumados. A servid\u00e3o \u00e9 um v\u00edcio e Durval Discos sua den\u00fancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A demoli\u00e7\u00e3o da loja que s\u00f3 vendia vinil e se recusava a acompanhar os tempos, no final do cult Durval Discos (Anna Muylaert, 2003) \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas de um neg\u00f3cio obsoleto, ou de uma constru\u00e7\u00e3o velha, mas de todo o imagin\u00e1rio do pa\u00eds que se transformava na \u00e9poca em que ocorre os eventos da narrativa (1995). Essa superestrutura, nascida e criada na \u00e9poca da ditadura e que, em tese, se contrapunha aos poderes pol\u00edticos do sistema, exibiu sua fragilidade no momento em que os protagonistas que dela se alimentavam n\u00e3o amadureceram. 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