{"id":677,"date":"2009-12-12T18:57:38","date_gmt":"2009-12-12T20:57:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=677"},"modified":"2009-12-21T23:02:03","modified_gmt":"2009-12-22T01:02:03","slug":"lei-e-desordem-em-gotham-city","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/lei-e-desordem-em-gotham-city","title":{"rendered":"LEI E DESORDEM EM GOTHAM CITY"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Aviso de cara: achei o m\u00e1ximo o novo Batman, o Cavaleiro das Trevas. Filme de a\u00e7\u00e3o costuma ser mon\u00f3tono, pois a sucess\u00e3o de eventos, sem permitir que o espectador respire, hoje \u00e9 lei no cinema. Batman n\u00e3o foge muito \u00e0 regra. Mas seu valor est\u00e1 fora do tiroteio, explos\u00f5es, corridas e saltos no abismo. Mora em outros vetores. Personagens contra si mesmos, por exemplo.<\/p>\n<p>Todos confrontam sua pr\u00f3pria persona: o promotor Harry Dent, com o rosto dividido entre o \u00f3dio e a justi\u00e7a; o vil\u00e3o Coringa, que tem sua cicatriz, fruto da auto-mutila\u00e7\u00e3o, como emblema da rejei\u00e7\u00e3o que sofreu na vida amorosa; o pr\u00f3prio Batman (interpretado pelo assustador Christian Bale), alter-ego de Bruce Wayne, por sua vez o amante esquecido e vingativo que n\u00e3o suporta a perda e que convive com um velho (Michael Cane), retrato de sua obsolesc\u00eancia; o investigador (o camale\u00e3o Gary Oldman) , que morre e ressuscita, que tem o poder e ao mesmo tempo implora clem\u00eancia; at\u00e9 mesmo a mulher, Rachel, dividida entre dois amores. Di\u00e1logos com frases poderosas. E o melhor: uma carga de s\u00ednteses e alegorias que traduzem uma s\u00e9rie de coisas da nossa era.<\/p>\n<p>A principal delas \u00e9 a paran\u00f3ia. A tecnologia disseminada em massa como o pesadelo do caos, que \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do terrorismo da era Bush no momento da verdade: valeu a pena abrir m\u00e3o da liberdade em fun\u00e7\u00e3o de uma seguran\u00e7a imposs\u00edvel? O uso de celulares para os ataques, a presen\u00e7a m\u00faltipla do bandido e seu poder infinito de mistifica\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o. O que assusta n\u00e3o \u00e9 a cara de palha\u00e7o com a boca cortada pela pr\u00f3pria navalha, mas essa rede de acessos e ferramentas que transforma todos em c\u00famplices da vit\u00f3ria do Mal sobre Gotham City, a cidade mais mal informada do mundo, j\u00e1 que \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o sabe que Batman \u00e9 Bruce Wayne.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 um mural de refer\u00eancias. A sociedade que perde a batalha para o crime precisa do her\u00f3i solar que suplante a fase infantil de confiar em algu\u00e9m que age no escuro. O Cavaleiro das Trevas deve dar lugar \u00e0 lei e \u00e0 ordem, mas o que acontece \u00e9 que a desordem toma conta da lei. Para manter o mito, Batman assume a vilania para que seja perseguido e livre a cara do promotor, que lutou contra o crime e morreu depois de se entregar para a Queda. A dupla face do protagonista da Justi\u00e7a, uma normal e outra cadav\u00e9rica, diz muito sobre a divis\u00e3o que o Bem, ou o que as pessoas identificam como Bem, sofre no embate contra a criminalidade.<\/p>\n<p>EBatman, como Shane no mitol\u00f3gico final do grande faroeste de George Stevens, despede-se da inoc\u00eancia, que grita em v\u00e3o seu nome. No fundo, a crian\u00e7a continuar\u00e1 fiel a ele, por mais que o persigam. Crian\u00e7a precisa de algu\u00e9m a seu lado quando tudo est\u00e1 escuro. Os adultos \u00e9 que se iludem achando que a claridade ir\u00e1 provar alguma coisa, vai lhes dar seguran\u00e7a. No escuro existem coisas que n\u00e3o dormem. Coringa, por exemplo. Heath Ledger detona. Sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 misto de palha\u00e7o de circo e vil\u00e3o de filme B de gangster. Sua for\u00e7a vem do entorno: ele est\u00e1 em todos os lugares e tudo pode. \u00c9 o p\u00e2nico que provoca que alimenta sua performance.le n\u00e3o precisaria fazer nada, tanta \u00e9 inje\u00e7\u00e3o que o roteiro e o visual emprestam ao seu personagem. Como \u00e9 desnecess\u00e1rio, brinca em cena e isso o salva.<\/p>\n<p>O banditismo terceirizado, o que obriga a cidadania em p\u00e2nico a assumir o papel de assassina, \u00e9 o grande pesadelo do filme. Detono meu semelhante e me torno igual ao que condeno ou n\u00e3o? \u00c9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Deve-se perguntar por que chegamos a esse est\u00e1gio de desraz\u00e3o. Coringa \u00e9 a resposta. Ser do Mal d\u00e1 barato. Enquanto Batman arrosta os pecados do mundo, o multifac\u00ednora brinca no abismo.<\/p>\n<p>Onde estamos nesse ru\u00eddo todo? Presos no barco com a m\u00e1fia, votando pra chegar a uma decis\u00e3o. Com a m\u00e3o no detonador \u2013 fuck them all. Confiando o gesto final ao primeiro malvado que se oferece para assumir o encargo. \u201cBatman, come back!\u201d Imposs\u00edvel. Amadurecemos demais para acreditar em her\u00f3is de hist\u00f3rias em quadrinhos. Pena que isso n\u00e3o nos leva a nada. \u00c9 hora, portanto, de revisitar o mito criado por Bob Kane, o que \u00e9 feito com compet\u00eancia por Christopher Nolan, que tamb\u00e9m \u00e9 co-roteirista, junto com Jonathan Nolan.<\/p>\n<p>Novo Batman: matou a pau. Sai da frente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Batman, como Shane no mitol\u00f3gico final do grande faroeste de George Stevens, despede-se da inoc\u00eancia, que grita em v\u00e3o seu nome. No fundo, a crian\u00e7a continuar\u00e1 fiel a ele, por mais que o persigam. Crian\u00e7a precisa de algu\u00e9m a seu lado quando tudo est\u00e1 escuro. 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