{"id":680,"date":"2009-12-12T18:59:29","date_gmt":"2009-12-12T20:59:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=680"},"modified":"2009-12-21T23:35:03","modified_gmt":"2009-12-22T01:35:03","slug":"fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/fantasmas","title":{"rendered":"FANTASMAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o existem mais fantasmas. Acho que o motivo \u00e9 o excesso de luzes firmes. Esp\u00edritos precisam de fagulha, chama de vela, crepitar de fogueira. Eles s\u00e3o atra\u00eddos pela indecis\u00e3o do fogo entre brilho e sombra. Lembro das labaredas que come\u00e7avam com folhas secas no crep\u00fasculo no meio do mato. Elas migravam para gravetos e galhos e chegavam submissas, em forma de brasas, \u00e0s toras, que duravam at\u00e9 alta madrugada. Enquanto havia claridade, permanec\u00edamos acordados, atentos aos barulhos, inexplic\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando o breu tomava conta do acampamento, tent\u00e1vamos dormir sob o sereno. O pai roncava com a auto-sufici\u00eancia dos adultos, depois de nos assustar falando sobre bruxas, pontuando a narrativa com gestos largos sob o lusco-fusco de estrelas t\u00edmidas. N\u00e3o havia lua, apenas nebulosas pretas a surrar as bordas da Via L\u00e1ctea. Garras sa\u00edam \u00e0 ca\u00e7a. Ou seria o ro\u00e7ar de almas famintas?<\/p>\n<p>Algo mergulhava na correnteza fazendo um surdo estrondo, um silvo cruzava a margem oposta, algu\u00e9m arrastava alpargatas: tudo era pren\u00fancio de sustos. Criaturas misteriosas queriam fazer contato. Desconfio que elas nos raptavam no sono. E nos devolviam de manh\u00e3, provocando o despertar com mordidas de insetos.<\/p>\n<p>Em casa era a mesma coisa. Tias contavam hist\u00f3rias de damas mortas, cadeiras que balan\u00e7avam sozinhas, no ritmo de rel\u00f3gios de parede, imensos como catedrais. M\u00e3os leves e invis\u00edveis roubavam colares de pesco\u00e7os nus. Mulheres de vestido platinado pediam carona e desciam na porta do cemit\u00e9rio. Av\u00f4s tossiam atr\u00e1s de portas de quartos que jamais se abriam.<\/p>\n<p>Tudo isso sumiu junto com as fam\u00edlias numerosas, as casas de infinitos c\u00f4modos, os quintais onde cabia o mundo vasto. Foi-se embora como o chiado dos r\u00e1dios de ondas curtas, os trens que partiam de esta\u00e7\u00f5es vazias, rumo a plataformas tragadas pela n\u00e9voa. Ficamos perdidos, sem ancestrais que batiam sinos em torres de aldeias fora do mapa.<\/p>\n<p>Um dia, estaremos de novo no limite do arroio \u00e0 espera da \u00faltima barca. Seremos recolhidos, como os peixes nas redes de n\u00e1ilon. No outro lado, um entardecer id\u00eantico nos espera com um f\u00f3sforo aceso no montinho de folhas. L\u00e1, ser\u00e1 revelada a origem daqueles ru\u00eddos. E tudo acabar\u00e1 em risada, como nas pescarias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existem mais fantasmas. Acho que o motivo \u00e9 o excesso de luzes firmes. Esp\u00edritos precisam de fagulha, chama de vela, crepitar de fogueira. Eles s\u00e3o atra\u00eddos pela indecis\u00e3o do fogo entre brilho e sombra. Lembro das labaredas que come\u00e7avam com folhas secas no crep\u00fasculo no meio do mato. Elas migravam para gravetos e galhos e chegavam submissas, em forma de brasas, \u00e0s toras, que duravam at\u00e9 alta madrugada. Enquanto havia claridade, permanec\u00edamos acordados, atentos aos barulhos, inexplic\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/680"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=680"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/680\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1820,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/680\/revisions\/1820"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}