{"id":682,"date":"2009-12-12T19:00:40","date_gmt":"2009-12-12T21:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/o-que-e-filme-noir"},"modified":"2009-12-21T21:43:48","modified_gmt":"2009-12-21T23:43:48","slug":"o-que-e-filme-noir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-e-filme-noir","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 FILME NOIR?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Filme noir \u00e9 um duelo de chap\u00e9us, desabados em rugas na testa, cobrindo cabelos lisos e lassos, jogados em cima de sof\u00e1s quando algu\u00e9m chega num apartamento vazio. Chap\u00e9us que jamais saem de cena e s\u00e3o recolhidos no ch\u00e3o dos becos, depois de uma briga, meia d\u00fazia de socos ou um assassinato cometido por punhais. Filme noir \u00e9 uma crian\u00e7a na escada, atrapalhando o tr\u00e2nsito dos suspeitos, fornecendo pistas para os perseguidores, fazendo contraponto com sua imobilidade intensa \u00e0 a\u00e7\u00e3o que trope\u00e7a quando sapatos de verniz descem em fuga. \u00c9 uma silhueta na porta de vidro, onde se l\u00ea o nome do detetive, sombras no tapete a representar corpos que caem sob o impacto de ati\u00e7adores de lareira.<\/p>\n<p>Filme noir s\u00e3o tiros de mulher. A fragilidade como \u00faltimo recurso da trama, a sedu\u00e7\u00e3o embaralhando a narrativa, a sensualidade apontada pelo pecado, as mechas que caem sobre os olhos, os batons tomando conta da tela, c\u00edlios mais longos do que a ang\u00fastia, saltos pretos sob a press\u00e3o de passos limitados por saias coladas muito abaixo dos joelhos. S\u00e3o suspiros, sorrisos marotos, entrega e cobran\u00e7a. S\u00e3o apontamentos de secret\u00e1rias, j\u00f3ias de amantes de milion\u00e1rios, de herdeiras que se apaixonam por matadores, de rostos com estudado espanto, m\u00e3os que chegam \u00e0 boca compondo o gesto do p\u00e2nico falso, ou at\u00e9 mesmo verdadeiro, quando enfim h\u00e1 sangue.<\/p>\n<p>Filme noir \u00e9 um cigarro atr\u00e1s do outro, tragado como quem respira, colocado no canto da boca, em busca sempre do fogo que se esconde em pequenas caixas de f\u00f3sforos brancos, que se acendem em qualquer lugar, em paredes, nos sapatos e at\u00e9 nas costas dos subalternos. S\u00e3o pequenos copos de bourbon despejados na voracidade da sede, a aplacar a culpa, a esconder perdas, a mascarar desenganos. S\u00e3o garrafas que perdem conte\u00fado conforme a dor vai desenhando v\u00edtimas e confirmando derrotas.<\/p>\n<p>Filme noir \u00e9 v\u00edcio como intervalo de virtudes, que s\u00e3o colocadas no in\u00edcio e no final, de maneira breve. A maior parte do tempo \u00e9 o desespero que canta em balc\u00f5es resplandecentes, pianos que lembram, microfones ao redor de casais imposs\u00edveis. \u00c9 amor que n\u00e3o se realiza a n\u00e3o ser como farsa. \u00c9 confronto de g\u00eaneros incompat\u00edveis que por breves instantes se aproximam e incendeiam o cinema. \u00c9 Veronika Lake e Alan Ladd, o sexo poss\u00edvel numa era de solid\u00e3o e sombras. E \u00e9 Victor Macture e Richard Widmark, a amizade eleita como caricatura, o \u00f3dio que atira da janela de um carro, com a mesma for\u00e7a do beijo profundo roubado depois do crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Filme noir \u00e9 texto como provoca\u00e7\u00e3o, \u00e9 di\u00e1logo inveross\u00edmel tratado com a maestria da imagina\u00e7\u00e3o incendiada. \u00c9 arte de transgress\u00e3o que debocha dos marchands e das galerias, pintura que se apartou de todas as escolas, \u00e9 penumbra elevada \u00e0 categoria do g\u00eanio. \u00c9 revela\u00e7\u00e3o de talentos, que depois se desperdi\u00e7aram em filmes que jamais chegariam aos p\u00e9s de quem os gerou. S\u00e3o corpos sob medida, talhados para ternos cl\u00e1ssicos, para vestidos que varriam sal\u00f5es e se jogavam em camas de casais cobertos por cetins e platinados.<\/p>\n<p>Filme noir \u00e9 pulsa\u00e7\u00e3o oculta, ess\u00eancia revisitada, par\u00e2metro, luz irm\u00e3 da sombra. \u00c9 momento \u00fanico, crivado de significa\u00e7\u00f5es infinitas, composta de rostos inesquec\u00edveis, quando homens e mulheres conheceram integralmente o sentido de sobreviver na civiliza\u00e7\u00e3o que, ao chegar ao esplendor, se acabou para sempre. Por isso fica essa can\u00e7\u00e3o feita para a amada ingrata e morta, esses blues tocados em vozes por todas as biroscas, esse cl\u00edmax de orquestras seguindo detalhes, pontuando descobertas, impulsionando ruas vistas de sacadas, terra\u00e7os, coberturas, andares supremos onde justi\u00e7amentos e chantagens fazem mais v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Filme noir \u00e9 armadilha. Voc\u00ea n\u00e3o escapa de um filme noir. Ele te persegue, ele permanece, ele retorna. Tente decifrar o enigma, localizar o talism\u00e3, recuperar o broche. Voc\u00ea estar\u00e1 na mira de velhos gal\u00e3s, de quarent\u00f5es de olhar duro, de perfis subindo escadas de inc\u00eandio. N\u00e3o adianta tentar adivinhar. Tudo ficar\u00e1 claro s\u00f3 depois que as luzes se acenderem e o cinema, mais uma vez, sumir do teu conv\u00edvio, como os parentes mortos, a vizinha inesquec\u00edvel, o mestre que deu adeus. Eles jamais voltar\u00e3o, por mais que voc\u00ea tente reencontr\u00e1-los numa esquina escura, numa sala com o piso repleto de retratos quebrados.<\/p>\n<p>Filme noir \u00e9 a desesperan\u00e7a de n\u00e3o existir outro cinema igual, em qualquer tempo, em qualquer condi\u00e7\u00e3o. \u00c9 como crime insol\u00favel, seq\u00fcestro com final tr\u00e1gico. Talvez a mulher desta vez n\u00e3o atire em voc\u00ea. Talvez voc\u00ea a leve para uma vida feliz. Quem sabe? Filme noir \u00e9 imprevis\u00edvel, como as tormentas na v\u00e9spera..<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filme noir s\u00e3o tiros de mulher. A fragilidade como \u00faltimo recurso da trama, a sedu\u00e7\u00e3o embaralhando a narrativa, a sensualidade apontada pelo pecado, as mechas que caem sobre os olhos, os batons tomando conta da tela, c\u00edlios mais longos do que a ang\u00fastia, saltos pretos sob a press\u00e3o de passos limitados por saias coladas muito abaixo dos joelhos. S\u00e3o suspiros, sorrisos marotos, entrega e cobran\u00e7a. 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