{"id":683,"date":"2009-12-12T19:02:22","date_gmt":"2009-12-12T21:02:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=683"},"modified":"2009-12-21T23:50:11","modified_gmt":"2009-12-22T01:50:11","slug":"balcao-de-pecados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/balcao-de-pecados","title":{"rendered":"BALC\u00c3O DE PECADOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDesaten\u00e7\u00e3o talvez seja o maior pecado do com\u00e9rcio. Nos pequenos estabelecimentos, a indiferen\u00e7a se manifesta pelo esp\u00edrito de grupo, autocentrado e imperme\u00e1vel a interfer\u00eancias. Conversar entre si, deixando o cliente parado \u00e0 espera de atendimento, cobrar no caixa sem olhar quem est\u00e1 pagando, varrer os p\u00e9s da v\u00edtima que tenta consumir alguma coisa s\u00e3o alguns exemplos dessa expuls\u00e3o involunt\u00e1ria promovida pelos que deveriam estender tapete vermelho. O pior \u00e9 o olhar de \u201ctu-por-aqui?\u201d quando voc\u00ea chega na loja familiar e os propriet\u00e1rios est\u00e3o ocupados em colocar a conversa em dia. Deveria haver um buraco onde o cliente pudesse se enfiar por alguns momentos, at\u00e9 passar o efeito devastador que a virada coletiva e silenciosa de cabe\u00e7a em sua dire\u00e7\u00e3o provoca, como a perguntar os motivos para a presen\u00e7a estranha em territ\u00f3rio sagrado.<\/p>\n<p>Nas grandes corpora\u00e7\u00f5es, o expediente \u00e9 o famoso olho branco, o treinamento corporativo \u201ctiau-pra-ti\u201d, como dizem em Porto Alegre. Aus\u00eancia ou as costas s\u00e3o os fatos mais comuns nos vest\u00edbulos imensos e cheios de mercadorias, em que a migalha de uma orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 negada pela falta absoluta de funcion\u00e1rios vis\u00edveis. Voc\u00ea \u00e9 filmado de todos os \u00e2ngulos, deve haver uns 15 analisando teus gestos, mas nenhuma gentileza chega para te encaminhar \u00e0 estante certa, dizer se a casa trabalha com determinado produto, ou simplesmente para informar o pre\u00e7o que est\u00e1 oculto em c\u00f3digo. \u00c9 um paradoxo, pois existem grandes investimentos no marketing de relacionamento, quando pagam os tubos para mostrar o gesto virtual sol\u00edcito que inexiste ao vivo.<\/p>\n<p>O \u00fanico lugar realmente expl\u00edcito, vis\u00edvel e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos clientes \u00e9 o setor de pagamentos. Como n\u00e3o pode existir sintonia entre falta de aten\u00e7\u00e3o e dinheiro em caixa, \u00e9 um mist\u00e9rio que as megalojas aumentem cada vez mais o faturamento. Talvez porque a popula\u00e7\u00e3o tenha crescido de forma geom\u00e9trica, e os monop\u00f3lios, em rela\u00e7\u00e3o a essa demanda, mantenham ainda encolhidos de maneira brutal os espa\u00e7os reservados para as vendas. Meia d\u00fazia de grifes exibe um olhar ol\u00edmpico, como a dizer que os incomodados se retirem para as ruas de com\u00e9rcio popular, onde a desaten\u00e7\u00e3o usa de outras armas. Como, por exemplo, a gritaria no ouvido dos passantes, as mentiras escrachadas sobre qualidade e pre\u00e7os e o falso charme da ignor\u00e2ncia vestida pelo tom da esperteza.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que ganha for\u00e7a as negocia\u00e7\u00f5es via internet, capaz de uma comodidade que falta aos espa\u00e7os comerciais f\u00edsicos. Tenho preferido esse tipo de intercurso, apesar das eventuais surpresas, como a megamagazine que nos deixou esperando um m\u00eas para fornecer um reles gabinete de cozinha e, quase esgotado o prazo, avisou que n\u00e3o tinha o dito dispon\u00edvel. O transtorno foi driblado pela promessa de devolu\u00e7\u00e3o do dinheiro, n\u00e3o sem antes a empresa definir, como solicita\u00e7\u00e3o sua, a desist\u00eancia que foi deles. Mas quem pode contra a linguagem burocr\u00e1tica engessada em in\u00fameros documentos?<\/p>\n<p>Gosto de freq\u00fcentar livrarias, mas ultimamente minha prefer\u00eancia por obras antigas tem me empurrado cada vez mais para a rede. Comprei esses dias um exemplar caprichado, bem melhor do que outro, da mesma edi\u00e7\u00e3o, que eu tinha perdido, de conte\u00fado detalhado e interessante: \u201cViagem Militar ao Rio Grande do Sul\u201d, do Conde D`Eu. Reli o livro para revisitar a minuciosa geografia desse narrador aristocr\u00e1tico, que debocha o tempo todo dos maus h\u00e1bitos riograndenses, a come\u00e7ar pelo excesso de luxo em aposentos desconfort\u00e1veis. N\u00e3o perdoa a fraqueza dos cavalos ga\u00fachos, t\u00e3o famosos, denunciando o gasto excessivo em arreios e estribos de prata, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 economia absurda em cereais adequados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o das montarias, uma necessidade urgente em plena Guerra do Paraguai.<\/p>\n<p>Como esqueci a narrativa, lida muitos anos atr\u00e1s naquele exemplar que sumiu, ainda n\u00e3o cheguei ao destino do Conde, que acompanhava o Imperador em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 minha cidade natal, Uruguaiana, tomada pelo inimigo. Mas sei que, gra\u00e7as \u00e0 compet\u00eancia de uma livraria de Goi\u00e2nia, tenho em m\u00e3os uma raridade sobre Hist\u00f3ria do Brasil, que ensina mais do que muita an\u00e1lise desatenta, id\u00eantica ao mau com\u00e9rcio que n\u00e3o faz quest\u00e3o de nossa exist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desaten\u00e7\u00e3o talvez seja o maior pecado do com\u00e9rcio. 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