{"id":686,"date":"2009-12-12T19:31:19","date_gmt":"2009-12-12T21:31:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=686"},"modified":"2009-12-21T23:30:31","modified_gmt":"2009-12-22T01:30:31","slug":"noir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/noir","title":{"rendered":"NOIR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPronuncia-se no ar. N\u00e3o, Udo, n\u00e3o \u00e9 r\u00e1dio, \u00e9 cinema. Noir se escreve com i, mas pronuncia-se a. \u00c9 coisa dos franceses. Serve para batizar um tipo de filme americano. Sei l\u00e1 porque os gringos n\u00e3o puseram filme nigga, talvez porque se usassem nigga teriam apanhado. Preferem usar palavra francesa, que \u00e9 mais charmosa. Se tu disser, Udo, alem\u00e3o batata, burr\u00e3o, passe o alho em franc\u00eas vai parecer uma coisa chic. Foi por isso que chamaram de noir naqueles filmes nos anos 30, 40 e 50, de detetive, tudo em preto e branco. \u00c9 coisa de intelequ\u00eatual, sabe? Intelequ\u00eatual gosta de cuspir franc\u00eas e pensar em ingl\u00eas caipira. Eram filmes baratos, os caras faziam o que queriam. S\u00e3o Cult, como dizem. Muito apreciados. Por qu\u00ea? Porque eram bem feitos, porra. Se tinha porrada? Tinha, mas n\u00e3o era filme de luta. Tinha tiro? Tinha, mas n\u00e3o era tiroteio. Eram dramas, intensos, entende? Claro que n\u00e3o entende, nasceste na ro\u00e7a, tens uns p\u00e9s de pil\u00e3o, m\u00e3o de soc\u00e1 mio, como vais saber dessas coisas? Passe o conhaque, Udo, n\u00e3o domina a garrafa.<\/p>\n<p>Soubeste do Nick, \u00e9, o Nicolau, aquele, l\u00e1 da Dona Netti, assim com dois t\u00eas. Sabe que a Dona Netti se chamava Ambrosia? Quem deu o apelido, que pegou, foi o Nick. Ele era apaixonado por filme noir. Dizia que todos eram obras-primas. Vivia futucando arquivo morto para ver se encontrava alguma obra viva, que desse para projetar. \u00c9 que ele tinha visto praticamente sozinho os filmes l\u00e1 na adolesc\u00eancia dele. Como era um cara desse tamanho, fajutou uma carteira de estudante e entrava em sess\u00e3o proibida para di menor. Sabia que ele queria fazer um festival desses filmes, quando tudo j\u00e1 tinha virado sucata? Ningu\u00e9m sabia onde estavam. Nick achava que os filmes favoritos dele n\u00e3o cabiam em DVD. Tinha que ser no celul\u00f3ide. V\u00ea se pode.<\/p>\n<p>Soube depois pelo Ricardo Videomarca, o publicit\u00e1rio que inventou esse sobrenome, que o Nick procurou a ag\u00eancia dele para promover o festival. A\u00ed perguntaram: qual filme voc\u00ea j\u00e1 tem? Beijo da Morte? A Chave de Vidro? Alma torturada? Curva do Destino? N\u00e3o tinha nenhum. Disse que tinha Scarface. Mas Scarface n\u00e3o \u00e9 bem um noir, \u00e9 filme de gangster, bem fajuto, gritaram para ele. Os caras da ag\u00eancias eram metidos, mesmo, viviam chupando reclame de revista estrangeira ent\u00e3o sabiam. Nick ficou arrasado. Quase se matou. Sumiu de casa, deixando Dona Netti apavorada. Ela ent\u00e3o foi at\u00e9 a pol\u00edcia e contou para o inspetor Malden a hist\u00f3ria do filho louco e o detetive se condoeu.<\/p>\n<p>Bem, Udo, tu que \u00e9 metido a comedor sabe, se condoeu uma boa chonga. O cara queria meter na senhora desesperada. E deu uma busca em hotel barato. Encontrou o Nick com os canos furados de tanto se picar. Estava entregue, o desgra\u00e7ado. S\u00f3 porque n\u00e3o sabia o que achava saber mais do que os outros. Como o Malden estava a fim da m\u00e3e do cara, deu uma for\u00e7a. Freq\u00fcentou a casa, conseguiu um emprego tempor\u00e1rio de escriv\u00e3o numa delegacia bem afastada. Nem podia fazer aquilo, precisava de concurso, mas quem ia saber? Estava tudo em casa. A\u00ed o Nick se revelou. Virou inspetor. Dava carteira\u00e7o. Mas nunca desistiu do seu festival de filme Noir.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a bisbilhotar em jornal e montou uma rede alcag\u00fcetes que vinham lhe dizer onde tinha um acervo de filmes velhos, em cinemas que iam ser demolidos, em empresas falidas etc. Ia l\u00e1 e arrebanhava tudo. Como os tro\u00e7os estavam em peti\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, contratou um v\u00e9io especialista em laborat\u00f3rio, que foi recuperando o que podia. Como o Nick era como tu, Udo, um ignoranta\u00e7o, foi aceitando tudo o que velho dizia. E o que velho dizia era o seguinte: veja isso, consegui fazer o servi\u00e7o completo nesse filme. Era mentira. O v\u00e9io s\u00f3 juntava uns peda\u00e7os de filmes aqui e ali e os rolos mostravam hist\u00f3rias sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a. Como era tudo muito parecido, Nick foi engolindo.<\/p>\n<p>Quando viu que tinha um monte daqueles filmes recuperados, alugou uma sala de cinema antiga, que estava numa pendenga judicial por causa de umas heran\u00e7as. Conseguiu tudo na marra: a sala, o projetor, a seguran\u00e7a do local, tudo. E foi at\u00e9 a ag\u00eancia de publicidade, aquela que tinha esnobado ele, armado. Foi l\u00e1 e obrigou os caras a fazerem um cartaz divulgando o festival. Exigiu tamb\u00e9m, j\u00e1 que ele era meganha, que colocassem notas na imprensa. E na noite da estr\u00e9ia do festival ficou esperando. Mas era muito longe a tal sala e ningu\u00e9m queria mais saber de filme noir, velho, com gente de chap\u00e9u e cara feia, sendo preso, algemado, se vingando ou falando aqueles di\u00e1logos inventados pelos escritores policiais que ficaram ricos criando frases.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem apareceu l\u00e1 foi a Ver\u00f4nica Leite, lembra daquela loura gostosa? J\u00e1 estava meio gorda, mas gostava de cantar e fazer m\u00e1gicas. Nick ficou encantado com ela. Mostrou seus conhecimentos. Passou um filme, na sala vazia, s\u00f3 eles dois. A mulher estranhou que o assassino era descoberto logo no in\u00edcio. Come\u00e7ava como uma mulher dando tiro no outro. Mas isso n\u00e3o seria no final? perguntou ela e Nick rosnou. Mas se entenderam. Naquela semana do festival, viram todos, um por dia. Nick at\u00e9 deixou de ir \u00e0 delegacia. O delegado ent\u00e3o ficou uma fera e mandou ele embora.<\/p>\n<p>Nick n\u00e3o se importou. Tinha a loura, tinha os filmes, tinha a sala. Tinha. Porque em seguida veio uma ordem e demoliram o cinema. Nick ficou na rua, abra\u00e7ado aos rolos, com uma loura puta de companheira, que dormia o dia todo. \u00c9 para tu ver, Udo, como s\u00e3o as coisas. Nick estava duro e tentou vender o festival dele. Bateu em tudo que \u00e9 porta. Teve gente que quis ver. Ca\u00edram na gargalhada. Allan Ladd n\u00e3o \u00e9 o promotor, \u00e9 o matador, diziam. E Nick teve mais uma prova de sua imbecilidade, seu desconhecimento.<\/p>\n<p>Pois tu sabe dele, Udo? Sabe do Nick? Pois mataram o cara? Hein? Tu j\u00e1 sabia? E eu aqui gastando meu latim. Quem? Tu o qu\u00ea? E desde quando deste para isso, Udo? Porque a Ver\u00f4nica Leite era tua? \u00c9 isso, Udo? Mataste de ci\u00fame? Ah, teu investimento, teu ganha p\u00e3o. O cara era uma amea\u00e7a. Porra, Udo, retiro o que eu disse sobre ti. Tu \u00e9 um cara porreta, mesmo. Bem, estou indo. Me alcan\u00e7a&#8230;deixa que eu pego meu chap\u00e9u. N\u00e3o, Udo, n\u00e3o fa\u00e7a isso, eu n\u00e3o vou contar para ningu\u00e9m&#8230;juro! Udo, n\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3o!!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soubeste do Nick, \u00e9, o Nicolau, aquele, l\u00e1 da Dona Netti, assim com dois t\u00eas. Sabe que a Dona Netti se chamava Ambrosia? Quem deu o apelido, que pegou, foi o Nick. Ele era apaixonado por filme noir. Dizia que todos eram obras-primas. Vivia futucando arquivo morto para ver se encontrava alguma obra viva, que desse para projetar. \u00c9 que ele tinha visto praticamente sozinho os filmes l\u00e1 na adolesc\u00eancia dele. Como era um cara desse tamanho, fajutou uma carteira de estudante e entrava em sess\u00e3o proibida para di menor. Sabia que ele queria fazer um festival desses filmes, quando tudo j\u00e1 tinha virado sucata? Ningu\u00e9m sabia onde estavam. Nick achava que os filmes favoritos dele n\u00e3o cabiam em DVD. Tinha que ser no celul\u00f3ide. 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