{"id":692,"date":"2009-12-12T19:49:18","date_gmt":"2009-12-12T21:49:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=692"},"modified":"2009-12-21T23:27:25","modified_gmt":"2009-12-22T01:27:25","slug":"de-o-credito-george-lucas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/de-o-credito-george-lucas","title":{"rendered":"D\u00ca O CR\u00c9DITO, GEORGE LUCAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>George Lucas \u00e9, com justa raz\u00e3o, tratado com a maior defer\u00eancia pela imprensa e o mundo cinematogr\u00e1fico. Fez coisas incr\u00edveis e virou milion\u00e1rio gra\u00e7as ao seu talento e a no\u00e7\u00e3o que tem de mercado, ou seja, n\u00e3o se deixa levar por id\u00e9ias prontas e com sua criatividade atrai milh\u00f5es de pessoas em todo mundo, por d\u00e9cadas. Mas Lucas tem um defeito grave: n\u00e3o d\u00e1 cr\u00e9dito para suas melhores sacadas. Em Star Wars, a ess\u00eancia \u00e9 totalmente fundada nos livros de Carlos Castaneda. O Yoda como Don Juan, a For\u00e7a como o nagual, o jedi como o guerreiro impec\u00e1vel, tudo conflui para Castaneda. Em Indiana Jones 4, a mesma coisa: o roteirista Lucas (a dire\u00e7\u00e3o \u00e9 de Steven Spielberg) tirou o principal de Erick Van Daniken, do best-seller Eram os Deus Astronautas. Algu\u00e9m citou Daniken? Nem George Lucas.<\/p>\n<p>Daniken \u00e9 o cara que tentou provar a origem interplanet\u00e1ria dos deuses dos povos pr\u00e9-colombianos (n\u00e3o que eu concorde com isso, mas foi ele que inventou esse tro\u00e7o). Lucas convenceu Spielberg que os seres poderosos em quest\u00e3o (que tinham como tesouro o conhecimento e n\u00e3o o ouro, outra chupada de Castaneda) n\u00e3o eram de outros planetas, mas de outras dimens\u00f5es. Conversa mole. Os sujeitos em quest\u00e3o possuem aquela cabe\u00e7a ovalada do ET de Steve e s\u00e3o baseadas nos cr\u00e2nios dos maias, que deformavam a cabe\u00e7a das crian\u00e7as para agradar os deuses. S\u00e3o seres de outros planetas, tanto \u00e9 que voltam para o lugar de origem num disco voador tradicional, daqueles do cinema dos anos 50, claro que superdimensionado.<\/p>\n<p>Com os recursos da computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, os filmes de fic\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o n\u00e3o passam de desenhos animados ou de videogames. Nos Extras do DVD rec\u00e9m lan\u00e7ado, Spielberg diz que fizeram o filme baseado numa mixagem: seriados dos anos 30 e 40 em forma de um filme ambientado nos anos 50. Steve tem exatamente a minha idade. O que ele viu na inf\u00e2ncia e juventude aconteceu com toda nossa gera\u00e7\u00e3o. Indiana Jones \u00e1 a mistura dos seriados com o filme principal, que vinha logo depois, e que eram, claro, dos anos 50, contempor\u00e2neos. Ou seja, ele quis fazer um filme com a gra\u00e7a do seriado (que vinha antes do filme) com o carisma do filme principal.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um agravante: Indiana Jones \u00e9 um her\u00f3i a servi\u00e7o do Imp\u00e9rio e mant\u00e9m a escrita da guerra fria, onde Lucas e Steve foram criados. Desta vez, os inimigos que contam s\u00e3o os russos, j\u00e1 que os peruanos n\u00e3o s\u00e3o de nada. A chegada de Jones e o filho no Peru, cercados por galinhas num aeroporto deserto, diz tudo da imagem que o cinema americano imp\u00f5e como regra. Para eles, os hisp\u00e2nicos (ou seja, n\u00f3s) s\u00e3o uns convardes (chickens), j\u00e1 que levamos (n\u00f3s, quem cara p\u00e1lida?) um pau na guerra da Espanha contra os Estados Unidos na disputa por Cuba e na tunga de metade do territ\u00f3rio do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o os americanos segundo o cinema dos Estados Unidos? Um grupo de pessoas, uma turma, sem ra\u00edzes, que debocham da ancestralidade de outros povos e continentes. Indiana Jones \u00e9 a flor do deboche. O desprezo pela paisagem (jip\u00f5es que destroem tocas de pequenos marsupiais), a identifica\u00e7\u00e3o da natureza com o perigo que precisa ser detonado ou evitado, e que guarda segredos que devem ser virados pelo avesso, tudo isso faz parte da cultura predat\u00f3ria americana. N\u00e3o \u00e9 por nada que o her\u00f3i usa um chicote. Sabemos o que o chicote significa num sistema escravista. O foco na Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m diz muito sobre a estrat\u00e9gia americana, que depois do pau que est\u00e1 levando no Oriente M\u00e9dio quer vir aqui brigar um pouco, chicotear esses hisp\u00e2nicos.<\/p>\n<p>No fundo, roubar um brasileiro (Castaneda) ou um su\u00ed\u00e7o (Daniken) faz parte dessa mentalidade de apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita do mundo todo. Indiana Jones 4 \u00e9 cheio de refer\u00eancias cinematogr\u00e1ficas, desde O Selvagem, com Marlon Brando, at\u00e9 o pr\u00f3prio ET, de Spielberg. Homenagear \u00e9 uma coisa, \u00f3tima. Chupar id\u00e9ias e n\u00e3o dar o cr\u00e9dito, outra, grave. \u00c9 sintom\u00e1tico o conselho dado pelo professor de arqueologia aos alunos concentrados na Biblioteca: aprendam fora daqui, diz ele, ou seja, arqueologia est\u00e1 na pesquisa de campo, n\u00e3o na teoria. Claro, fica mais f\u00e1cil se dirigir a um p\u00fablico \u00e1grafo, sem a base da leitura. Em compensa\u00e7\u00e3o, o papai Indiana quer que o filho volte \u00e0s aulas. Abandonar os estudos \u00e9 para os pobres, os consumidores. Elite, composta pelos que produzem pensamento, precisa dos t\u00edtulos.<\/p>\n<p>N\u00e3o que Lucas e Sipielberg devam ser tratados aos pontap\u00e9s por cometerem esses erros. Os dois s\u00e3o g\u00eanios e nos encantam h\u00e1 d\u00e9cadas. Mas \u00e9 bom saber exatamente o que eles s\u00e3o e o mundo ao qual pertencem. Sen\u00e3o correremos o risco de ser v\u00edtimas do plano maquiav\u00e9lico da russa paranormal interpretada por Cate Blanchet (eliminada totalmente dos Extras, junto com o magn\u00edfico John Hurt, por que ser\u00e1?), em que o poder imperial nos domina totalmente e pensa por n\u00f3s, enquanto a gente nem sabe o que est\u00e1 acontecendo. Nesse plano, as v\u00edtimas acham que est\u00e3o tendo pensamentos originais. Mas \u00e9 tudo plantado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>George Lucas \u00e9, com justa raz\u00e3o, tratado com a maior defer\u00eancia pela imprensa e o mundo cinematogr\u00e1fico. Fez coisas incr\u00edveis e virou milion\u00e1rio gra\u00e7as ao seu talento e a no\u00e7\u00e3o que tem de mercado, ou seja, n\u00e3o se deixa levar por id\u00e9ias prontas e com sua criatividade atrai milh\u00f5es de pessoas em todo mundo, por d\u00e9cadas. 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