{"id":70,"date":"2005-05-13T21:11:46","date_gmt":"2005-05-13T23:11:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=70"},"modified":"2009-12-20T20:52:22","modified_gmt":"2009-12-20T22:52:22","slug":"maua-o-animo-da-nacionalidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/maua-o-animo-da-nacionalidade","title":{"rendered":"MAU\u00c1: O \u00c2NIMO DA NACIONALIDADE"},"content":{"rendered":"<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" width=\"98%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#333333\">\nbackground=http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/bgs\/cinza2.gif border=0&gt;<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" width=\"95%\" align=\"center\" bgcolor=\"#ffffff\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" width=\"82%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p align=\"center\"><strong>MAU\u00c1 &#8211; O \u00c2NIMO DA NACIONALIDADE<\/strong><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/maua02.gif\" alt=\"\" align=\"left\" \/> A maneira fr\u00edvola como a cr\u00edtica tratou um dos melhores filmes do cinema nacional &#8211; &#8220;Mau\u00e1, o Imperador e o Rei&#8221;, de Sergio Rezende &#8211; revela o p\u00e2nico\/Brasil dos textos da imprensa pseudo- politicamente correta, limitada pela falta de luzes e, muitas vezes, pela m\u00e1-f\u00e9, dos seus articulistas. Ca\u00edram de pau no roteiro, mas tiveram o cuidado de elogiar a reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca, como se os autores deste filme brilhante merecessem um tapinha na cabe\u00e7a, id\u00eantico ao que se reservava aos escravos. Mau\u00e1 \u00e9 um filme rar\u00edssimo. \u00c9 talvez o primeiro filme bem sucedido sobre pol\u00edtica e neg\u00f3cios do Brasil. O que se costuma ver quando h\u00e1 a abordagem aos bastidores do poder s\u00e3o resqu\u00edcios do teatro amador, quando inevitavelmente os di\u00e1logos e personagens obedecem \u00e0 caricatura preconceituosa dos cineastas e roteiristas. Em Mau\u00e1 acontece o contr\u00e1rio.<br \/>\nO maior ator brasileiro de todos os tempos &#8211; Othon Bastos, no papel do Visconde Feitosa, \u00e9 uma contundente encarna\u00e7\u00e3o do Mal do nosso cinema e n\u00e3o uma reles caricatura, como disseram os cr\u00edticos. Othon Bastos \u00e9 o mestre da concentra\u00e7\u00e3o e sua oposi\u00e7\u00e3o a Mau\u00e1 \u00e9 a met\u00e1fora maior do filme. Quando Othon Bastos aparece em cena, todo mundo deveria ficar de p\u00e9. N\u00e3o h\u00e1 desempenho maior do que o dele no papel de Corisco, o amb\u00edguo anti-her\u00f3i da obra-prima de Glauber Rocha, &#8220;Deus e o Diabo na Terra do Sol&#8221;.<br \/>\n<img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/maua01.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/> Come\u00e7o por Othon para chamar a aten\u00e7\u00e3o para Paulo Betti, perfeito no papel de Mau\u00e1, emocionante no seu entusiasmo por um projeto de pa\u00eds por meio da voca\u00e7\u00e3o empresarial. A garra e o talento de Betti sobram tamb\u00e9m na cena mais emocionante deste filme sobre o poder, que \u00e9 o encontro de Mau\u00e1\/Betti com o amor da sua vida, no cais, quando Malu Mader\/May chega vestida de branco do Rio Grande do Sul e revela sua do\u00e7ura e o amor \u00e0 primeira vista na troca de olhares.<br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 politicamente correto emocionar-se com a vida de Mau\u00e1, j\u00e1 que ele encarna o que &#8220;h\u00e1 de pior&#8221; no mundo, a figura do (toc,toc,toc) &#8220;empres\u00e1rio&#8221;. No Brasil, empres\u00e1rio \u00e9 nome feio. Portanto, pau no filme, que escolheu a metragem de 135 mil\u00edmetros para um projeto t\u00e3o ambicioso e soube prender a aten\u00e7\u00e3o do espectador at\u00e9 final por meio de um ritmo onde todo excesso \u00e9 debastado e onde os cortes n\u00e3o obedecem \u00e0 obviedade da continuidade, mas privilegiam a intensidade dram\u00e1tica.<br \/>\nOs detalhes &#8211; morada de Deus &#8211; n\u00e3o devem ser fr\u00edvolos no coment\u00e1rio cinematogr\u00e1fico. Por isso, deixemos de lado o \u00f3bvio &#8211; por exemplo, destacar o cuidado com os figurinos e o cen\u00e1rio (que insistem em chamar de reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca &#8211; \u00e9pocas n\u00e3o se reconstituem, o que existem s\u00e3o os instrumentos visuais em fun\u00e7\u00e3o da narrativa, e nisso Mau\u00e1 \u00e9 imbat\u00edvel). Esse entorno, que fazem parte do essencial do filme, precisam ser perfeitos e a nova fase do cinema nacional &#8211; com o diretor Sergio Rezende \u00e0 frente &#8211; tem dado mostras que aprendeu o of\u00edcio.<br \/>\nO detalhe que importa s\u00e3o os atores. \u00c9 preciso destacar Antonio Pitanga, o escravo Valentim que \u00e9 alforriado por Mau\u00e1 &#8211; o segredo desse ator maravilhoso \u00e9 que ele acredita em Brasil e acredita em cinema nacional; \u00e9 que \u00e9 um ator de primeira linha que sempre soube imprimir excel\u00eancia nessa \u00e1rea que chamam de coadjuvante; \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica mascarada em for\u00e7a de natureza; \u00e9 a empatia da sua expressividade que imanta a hist\u00f3ria do cinema nacional desde os anos 60. \u00c9 preciso tamb\u00e9m destacar o ator que faz o jovem Mau\u00e1 &#8211; cruel e determinado na sua cara de menino; e novamente Malu Mader, deslumbrante e contida na sexualidade, expl\u00edcita e recatada, presen\u00e7a admir\u00e1vel num filme que merece a qualifica\u00e7\u00e3o de obra-prima.<\/p>\n<p>Exageros? Certamente. Um deles \u00e9 o desbaste dos defeitos do her\u00f3i para privilegiar a coer\u00eancia de sua biografia. Mas o Brasil precisa dessa luz definida sobre seus personagens. Por que n\u00e3o? Enquanto, na maior cara de pau, os americanos no inundam com suas veleidades patri\u00f3ticas, nossos protagonistas culturais enchem-se de dedos quando o assunto \u00e9 nacionalismo e patriotismo. E isso que Mau\u00e1 tem o cuidado de mostrar todas as rela\u00e7\u00f5es do empres\u00e1rio do imp\u00e9rio como empreiteiro e como s\u00f3cio e aliado dos ingleses. Mas o que conta s\u00e3o as nuances dessa trajet\u00f3ria (sua briga com Rotschild \u00e9 exemplar; ou mesmo seu arrependimento do seu envolvimento com o Uruguai). A atua\u00e7\u00e3o dos ingleses no drama \u00e9 esclarecedora, como de resto todo o filme, que se pretende did\u00e1tico, sem jamais cair na chatice.<br \/>\nMau\u00e1, o filme, merece ser elogiado indefinidamente, porque trata o Brasil com o esp\u00edrito da maioridade, porque respeita o espectador, porque \u00e9 um conjunto de acertos. Jamais pode ser chamado, como foi, de mon\u00f3tono. \u00c9 um crime desqualificar este filme, que ironicamente acaba sofrendo o mesmo processo experimentado por Mau\u00e1: o da incompreens\u00e3o. &#8220;H\u00e1 um sabor que nosso tempo (talvez farto das toscas imita\u00e7\u00f5es perpetradas pelos profissionais do patriotismo) n\u00e3o costuma perceber sem certo receio: o elementar sabor do her\u00f3ico&#8221;, diz Borges em &#8220;O pudor da Hist\u00f3ria&#8221;&#8221;, texto de 1952 inserido no volume &#8220;Outras Inquisi\u00e7\u00f5es&#8221;.<br \/>\nMau\u00e1 resgata o heroismo e inspira-se na id\u00e9ia de p\u00e1tria, sem cair na armadilha da xenofobia. Sua integridade vem da excel\u00eancia do of\u00edcio (o cinema exercido com a aura da melhor carpintaria), iluminada pela id\u00e9ia de na\u00e7\u00e3o que, sem esconder o conflito, concebe sua inteireza e perman\u00eancia a partir de uma biografia. Esta, na tela, \u00e9 tornada ilustre pela evid\u00eancia da sua obra, e eterna pela inje\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo que inspira na carne morna do estado atual da nacionalidade.<\/p>\n<table border=\"0\" bgcolor=\"#ffa500\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"middle\"><strong>Email do diretor S\u00e9rgio Rezende sobre este artigo<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#f0e68c\">Car\u00edssimo Nei: Navegando pelo mar revolto da internet cheguei ao bom porto do seu site. Rapaz, que alegria voc\u00ea me deu com seu artigo sobre o Mau\u00e1. Tenho 51 anos, mas reagi como crian\u00e7a. De fato, o que voc\u00ea coloca sobre as rea\u00e7\u00f5es ao filme s\u00e3o a express\u00e3o absoluta dos fatos. Nunca apanhei tanto na vida. A gente veste a coura\u00e7a &#8211; o que \u00e9 p\u00e9ssimo, definitivamente &#8211; e toca em frente.<\/p>\n<p>Sua an\u00e1lise lavou minha alma. Porque voc\u00ea viu o filme. Um incauto pode achar pouco, mas encontrar um homem capaz que veja nosso trabalho &#8211; goste ou n\u00e3o goste &#8211; \u00e9 o que de melhor nos pode acontecer. Aconteceu. Repito: lavou minha alma.<\/p>\n<p>Grande abra\u00e7o<\/p>\n<p>Sergio Rezende<\/p>\n<p>P.S.: Brinco sempre com Othon Bastos, dizendo a ele que daqui a 500 anos, quando abrirem a caixa de chumbo com a mem\u00f3ria do cinema brasileiro, o \u00f3bvio ficar\u00e1 evidente: Othon \u00e9 nosso maior ator. Um Othon basta.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maneira fr\u00edvola como a cr\u00edtica tratou um dos melhores filmes do cinema nacional &#8211; &#8220;Mau\u00e1, o Imperador e o Rei&#8221;, de Sergio Rezende &#8211; revela o p\u00e2nico\/Brasil dos textos da imprensa pseudo- politicamente correta, limitada pela falta de luzes e, muitas vezes, pela m\u00e1-f\u00e9, dos seus articulistas.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1403,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70\/revisions\/1403"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}