{"id":703,"date":"2009-12-12T21:44:09","date_gmt":"2009-12-12T23:44:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/bilac"},"modified":"2009-12-21T23:39:49","modified_gmt":"2009-12-22T01:39:49","slug":"bilac","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/bilac","title":{"rendered":"BILAC"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nNepotismo, prostitui\u00e7\u00e3o infantil, viol\u00eancia urbana: nada escapa ao cronista Olavo Bilac na carioca Gazeta de Not\u00edcias. Na virada do s\u00e9culo 19 para o 20, ele denuncia os exploradores sexuais de crian\u00e7as de sete e oito anos, ironiza os oligarcas que empregam as fam\u00edlias nas bocas do Senado e da C\u00e2mara, se insurge contra as quadrilhas em a\u00e7\u00e3o na Revolta da Vacina. Bilac tem o dom da palavra clara, sem esse azedume que tomou conta da literatura brasileira nos \u00faltimos tempos, fruto da desconfian\u00e7a dos autores em rela\u00e7\u00e3o aos leitores.<\/p>\n<p>Pois s\u00f3 pode ser isso: quem escreve, hoje, tem medo de ser confundido com as gavetas sinistras onde foram colocadas id\u00e9ias e posturas. Como vivemos sob opress\u00e3o constante, o truque foi jogar na vala comum o que n\u00e3o se enquadra nos novos c\u00e2nones, para assim, lampeiros, os denunciantes se confraternizarem no limbo da corre\u00e7\u00e3o impoluta. Esse expediente garante grossas fatias dos projetos milion\u00e1rios, que oficializaram alguns lugares comuns do modernismo para excluir o que aparentemente se op\u00f5e a ele.<\/p>\n<p>Bilac, por exemplo, \u00e9 colocado como o modelo do poeta ultrapassado, aquele que importou modismos da Fran\u00e7a e comp\u00f4s ladainhas para senhoritas e madames em sal\u00f5es encerados. Bilac \u00e9 um assombro de dom\u00ednio do idioma e tem o que perdemos miseravelmente: a m\u00fasica das palavras, que \u00e9, no fundo, a sua ess\u00eancia. Exatamente o oposto dessa literatura metida a besta que domina o pa\u00eds, com suas escatologias prim\u00e1rias, seus pseudo-rompimentos de linguagem, suas certezas datadas, suas portas fechadas ao talento fora do circuito (uma situa\u00e7\u00e3o marginal que, \u00e0s vezes, \u00e9 empalmada pelos espertalh\u00f5es, que fingem assim ser avessos ao sistema, quando o servem).<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter coragem para enfrentar o medo de ser enquadrado. Clareza \u00e9 fundamental para sair de cima do muro e se horrorizar diante da destrui\u00e7\u00e3o do tecido social, quando as cidades s\u00e3o dominadas por fac\u00ednoras, que aproveitam a insurg\u00eancia coletiva para destruir o \u00faltimo poder reservado \u00e0 cidadania (o direito de ir e vir, de sobreviver). O \u201ccorreto\u201d \u00e9 dourar a p\u00edlula e justificar a brutalidade usando o \u00e1libi perfeito da sede de justi\u00e7a. Se esse equ\u00edvoco precisar de um monumento, basta olhar em torno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nepotismo, prostitui\u00e7\u00e3o infantil, viol\u00eancia urbana: nada escapa ao cronista Olavo Bilac na carioca Gazeta de Not\u00edcias. Na virada do s\u00e9culo 19 para o 20, ele denuncia os exploradores sexuais de crian\u00e7as de sete e oito anos, ironiza os oligarcas que empregam as fam\u00edlias nas bocas do Senado e da C\u00e2mara, se insurge contra as quadrilhas em a\u00e7\u00e3o na Revolta da Vacina. Bilac tem o dom da palavra clara, sem esse azedume que tomou conta da literatura brasileira nos \u00faltimos tempos, fruto da desconfian\u00e7a dos autores em rela\u00e7\u00e3o aos leitores.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6,10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/703"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=703"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1832,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/703\/revisions\/1832"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}