{"id":704,"date":"2009-12-12T21:46:09","date_gmt":"2009-12-12T23:46:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=704"},"modified":"2009-12-21T22:54:14","modified_gmt":"2009-12-22T00:54:14","slug":"across-the-universe-chegue-junto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/across-the-universe-chegue-junto","title":{"rendered":"ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Nada mais \u00e9 inesquec\u00edvel, tudo est\u00e1 na m\u00e3o. A mem\u00f3ria era um lugar, hoje \u00e9 lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido est\u00e1 no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como p\u00e3o adormecido. \u00c9 o caso do impressionante <em>Across the Universe,<\/em> o musical que nasce cl\u00e1ssico, lan\u00e7ado em 2007. \u00c9 tratado como um amontoado de clipes, como dilui\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas dos Beatles, como &#8220;mais do mesmo&#8221; dos anos 60, quando n\u00e3o \u00e9 nada disso. \u00c9 uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme n\u00e3o pega bem. A moda \u00e9 negligenciar a obra alheia.<\/p>\n<p>\u00c9, como dizia o cronista Olavo Bilac dos inimigos de E\u00e7a de Queiroz, se transformar num desses \u201cesmerilhadores de defeitos, ca\u00e7adores de sen\u00f5es, que passam a vida a catarem imperfei\u00e7\u00f5es nas obras-primas como quem anda a catar caramujos nos rosais\u201d. Volto ao cronista Bilac nos pr\u00f3ximos dias, pois esse tema vale mais de um post (mas n\u00e3o resisto em comentar tamb\u00e9m seu terr\u00edvel perfil de Carlos Gomes, o maestro ing\u00eanuo que sofreu na m\u00e3os dos med\u00edocres e bandidos at\u00e9 morrer miseravelmente; ou do projeto de Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, que se meteu a fazer um gigantesco bal\u00e3o de alum\u00ednio e com isso torrou todo o seu patrim\u00f4nio).<\/p>\n<p>De que trata Across the Universe? Da genialidade dos Beatles, que romperam todos os r\u00f3tulos e se transformaram nos criadores absolutos da nossa \u00e9poca. Dizer que Beatles \u00e9 rock \u00e9 o mesmo que enquadrar Mozart ou Schubert. O fogo perene do talento maior em can\u00e7\u00f5es, poemas e melodias de absoluto esplendor, costuram uma hist\u00f3ria de amor ambientada em dois continentes nos anos 60. O que est\u00e1 em pauta n\u00e3o \u00e9 a reitera\u00e7\u00e3o dos velhos clich\u00eas da contracultura, ou do romantismo velho de guerra, mas a proje\u00e7\u00e3o, para o tempo infinito, de uma obra musical que \u00e9 a s\u00edntese dramat\u00fargica do humano transformado culturalmente pela tecnologia.<\/p>\n<p>Beatles n\u00e3o \u00e9 utopia, \u00e9 reportagem de um tempo mau, para usar a express\u00e3o favorita de Pl\u00ednio Marcos. N\u00e3o \u00e9 poesia \u00e1gua-com-a\u00e7\u00facar, \u00e9 inven\u00e7\u00e3o de vanguarda de alta voltagem. Basta ver e ouvir Joe Cocker (you tube) interpretando Come Together, que no filme celebra a apari\u00e7\u00e3o do personagem Jo-Jo, homenagem a Jimi Hendrix, amante de Sadie, uma representa\u00e7\u00e3o de Janis Joplin. Cocker canta maravilhosamente e em poucos segundos assume v\u00e1rios personagens, de vagabundo do metr\u00f4 a motorista da m\u00e1fia. Come Together (o link \u00e9 a an\u00e1lise de Daniel Ducl\u00f3s sobre a letra dessa can\u00e7\u00e3o) \u00e9 toda a poesia de transgress\u00e3o, de William Blake a Ezra Pound, zipada em algumas estrofes e ambientada nos cruzamentos da cria\u00e7\u00e3o que nos conquistaram nos anos 60 e 70, da guitarra ao teatro.<\/p>\n<p>O que encanta e seduz \u00e9 a fidelidade \u00e0 criatividade original (pela primeira vez o universo musical e visual dos Beatles deixa de ganhar uma reprodu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica fake). \u00c9, ao mesmo tempo, uma releitura e uma recria\u00e7\u00e3o fiel ao original, sem ser redundante, sem pagar o mico de virar pastiche do que estamos acostumados a ver e ouvir. As can\u00e7\u00f5es t\u00eam alta voltagem narrativa e servem para gerar conflitos, emo\u00e7\u00f5es e celebra\u00e7\u00f5es entre os protagonistas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria nasce nos bailinhos bem comportados, rompe junto com a guerra e chega at\u00e9 os protestos e ao salto psicod\u00e9lico. Uma viagem cultural no tempo, atualizado numa obra inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 de Julie Taymor (Frida), recebeu uma indica\u00e7\u00e3o ao Oscar Figurino, de Albert Wolsky ; o roteiro \u00e9 de Dick Clement e Ian La Fresnais, baseado em est\u00f3ria de Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Fresnais . Com Evan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgees (Jude), Joe Anderson (Max Carrigan), Dana Fuchs (Sadie), Martin Luther (JoJo), T.V. Carpio (Prudence), Bono (Dr. Robert), Eddie Izzard (Sr. Kite). Vejam e ou\u00e7am. \u00c9 de arrepiar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada mais \u00e9 inesquec\u00edvel, tudo est\u00e1 na m\u00e3o. A mem\u00f3ria era um lugar, hoje \u00e9 lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido est\u00e1 no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como p\u00e3o adormecido. \u00c9 o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce cl\u00e1ssico, lan\u00e7ado em 2007. \u00c9 tratado como um amontoado de clipes, como dilui\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas dos Beatles, como &#8220;mais do mesmo&#8221; dos anos 60, quando n\u00e3o \u00e9 nada disso. \u00c9 uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme n\u00e3o pega bem. 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