{"id":706,"date":"2009-12-12T21:47:07","date_gmt":"2009-12-12T23:47:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=706"},"modified":"2009-12-21T23:24:46","modified_gmt":"2009-12-22T01:24:46","slug":"o-cinema-em-busca-das-origens","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-cinema-em-busca-das-origens","title":{"rendered":"O CINEMA EM BUSCA DAS ORIGENS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Todo filme \u00e9 sobre cinema. Um longo caminho (2005), dirigido por Yimou Zhang e com Ken Takakura e um elenco de atores amadores, n\u00e3o foge \u00e0 regra. A morte, nessa obra, \u00e9 representada pela aus\u00eancia da ind\u00fastria audiovisual na vida dos personagens. O velho, que depois de perder a mulher se recolhe a uma aldeia de pescadores, n\u00e3o tem sequer televis\u00e3o. Sua tela, a natureza, que atrai sua aten\u00e7\u00e3o durante horas, \u00e9 a extrema solid\u00e3o de um mundo sem cinema. Ele s\u00f3 existe porque est\u00e1 sendo filmado por Yimou, cineasta deslumbrante de v\u00e1rios sucessos.<\/p>\n<p>O personagem Takata, que ao se recolher exclui o filho do seu conv\u00edvio, quer resgatar essa rela\u00e7\u00e3o familiar tarde demais. O filho, que sofre de doen\u00e7a terminal, nem aparece, portanto est\u00e1 praticamente morto. Subsiste sua mem\u00f3ria, um v\u00eddeo sobre sua paix\u00e3o pelas \u00f3peras chinesas. E estas, recolhidas numa aldeia distante e no pres\u00eddio, s\u00f3 existir\u00e3o no momento em que forem filmadas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 sobre o longo percurso do protagonista para conseguir filmar uma \u00f3pera prometida pelo cantor. Como ele conseguir\u00e1 seu objetivo? Por meio do cinema. S\u00f3 quando ele grava um depoimento para o diretor da pris\u00e3o, sobre sua necessidade de focar a \u00f3pera com determinado int\u00e9rprete, que est\u00e1 preso, \u00e9 que as portas se abrem. Mas a opera\u00e7\u00e3o se complica. O cantor, por sua vez, precisa ver o filho, de cinco anos, que nem chegou a conhecer.<\/p>\n<p>Takata ent\u00e3o vai at\u00e9 a aldeia e fotografa o menino, para mostrar ao pai. O velho precisava da \u00f3pera para resgatar uma rela\u00e7\u00e3o perdida. Como acontece o desenlace ( a doen\u00e7a terminal enfim vence a batalha) no meio da viagem, seu intento perde o sentido. O que resta \u00e9 apenas mostrar as fotos do garoto para o pai presidi\u00e1rio.<\/p>\n<p>A responsabilidade de filmar escapa assim do indiv\u00edduo e \u00e9 empalmada pela coletividade, pois agora todos os que se envolveram com a hist\u00f3ria do velho querem que ele consuma sua inten\u00e7\u00e3o. Ele cede diante das press\u00f5es e o que vemos ent\u00e3o \u00e9 a \u00f3pera filmada. Mas filmada por quem? Pelo protagonista, sim, mas principalmente por Yimou. O cineasta assume o papel da coletividade e faz do seu cinema uma arte coletiva.<\/p>\n<p>Yimou busca as origens do cinema, seu sentido. Para que fazer filmes? Para que a coletividade se enxergue e assim n\u00e3o morra. Para que serve um cineasta? Para instrumentar a sociedade com essa arte completa, o cinema, e assim garantir a identidade, a heran\u00e7a. J\u00e1 que a rela\u00e7\u00e3o entre pai e filho se esgar\u00e7ou, j\u00e1 que a fam\u00edlia se perdeu, j\u00e1 que n\u00e3o somos mais na\u00e7\u00f5es, mas amontoados de gente em luta pela sobreviv\u00eancia a qualquer custo, resta ao cinema recuperar esse conv\u00edvio e isso s\u00f3 se consegue por meio da imagem e do som, por meio da s\u00e9tima arte.<\/p>\n<p>\u00c9 complicado esse enfoque? Acho que n\u00e3o. Por que ningu\u00e9m fala nisso? Ficam malhando o resultado, dizendo que \u00e9 um melodrama. D\u00e1 licen\u00e7a. Yimou mata a pau. Fez obras imperais como aquele das adagas voadoras, que \u00e9 excelente, apesar de estar a servi\u00e7o da grandiosidade da China moderna, mas fez tamb\u00e9m \u201cNenhum a menos\u201d, sobre a saga da professorinha que vai em busca do aluno perdido. Yumou saiu do cinema de autor para o megablockbuster. Nesse longo caminho, voltou \u00e0s suas origens de cineasta. \u00c9 o que ele faz. Tinha perdido o foco, concedido demais. Usou seu prest\u00edgio para fazer de novo uma obra de autor. Benvindo de volta \u00e0 casa, g\u00eanio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo filme \u00e9 sobre cinema. &#8220;Um longo caminho&#8221; (2005), dirigido por Yimou Zhang e com Ken Takakura e um elenco de atores amadores, n\u00e3o foge \u00e0 regra. A morte, nessa obra, \u00e9 representada pela aus\u00eancia da ind\u00fastria audiovisual na vida dos personagens. 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