{"id":708,"date":"2009-12-12T21:48:00","date_gmt":"2009-12-12T23:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=708"},"modified":"2009-12-21T22:59:43","modified_gmt":"2009-12-22T00:59:43","slug":"a-profecia-da-vida-mansa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-profecia-da-vida-mansa","title":{"rendered":"A PROFECIA DA VIDA MANSA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nQuando falam que tens futuro, e apontam caminhos para chegar l\u00e1, \u00e9 porque querem conduzir teu destino. Qual \u00e9 o futuro dos dois jovens de classe m\u00e9dia baixa londrina (Colin Farrel e Ian McGregor) no filme de Woody Allen, O sonho de Cassandra (2007)? \u00c9 o tio milion\u00e1rio Howard (Tom Wilkinson), \u00eddolo da irm\u00e3, m\u00e3e dos rapazes, que n\u00e3o cansa de us\u00e1-lo como modelo contra o marido perdedor, enfartado e dono de restaurante. Na mitologia grega, Cassandra \u00e9 a a bel\u00edssima troiana amaldi\u00e7oada por Apolo, que n\u00e3o conseguiu fatur\u00e1-la e por isso determinou que suas profecias jamais teriam credibilidade.<\/p>\n<p>Nada mais adequado: o sonho de ascens\u00e3o social por meio do dinheiro f\u00e1cil, a mais recorrente profecia da ditadura especulativa, mostra as v\u00edsceras e faz suas v\u00edtimas, exatamente as pessoas que acreditaram nela. N\u00e3o importa que cabe\u00e7as l\u00facidas tenham avisado que tudo estava p\u00f4dre e iria explodir, as pessoas embarcaram assim mesmo. Essa \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o de Cassandra: avisar e n\u00e3o conseguir mudar nada. E esse \u00e9 o papel dos falsos profetas, as Cassandras de araque e pelo avesso: predizer um mundo ideal que vira um monte de estrume em pouco tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 proibido falar mal de Woody Allen. Nesta avalanche de mediocridade que toma conta da ind\u00fastria audiovisual, em que temos de ver uns 30 filmes por m\u00eas para que escape um ou dois, \u00e9 preciso aguardar cada lan\u00e7amento dele com ansiedade. Allen nunca nos decepciona. Ele n\u00e3o tem apenas o dom, tem a t\u00e9cnica, o que \u00e9 muito mais dif\u00edcil. O que encanta nele s\u00e3o as \u00e2ncoras cinematogr\u00e1ficas hist\u00f3ricas que usa. Com o aux\u00edlio de Philip Glass, que cuidou da m\u00fasica, ele faz mis\u00e9rias com uma produ\u00e7\u00e3o barata, enxuta, sens\u00edvel, brilhante. Sabe o barco que sai do cais ao som de uma m\u00fasica ao mesmo tempo \u00e9pica e rom\u00e2ntica, e que nos enleva, nos seduz para uma narrativa boa de ver? T\u00e3o simples assim.<\/p>\n<p>Sabe Hitchcock? Est\u00e1 todo em Woody Allen nesse filme. O Pacto Sinistro entre os irm\u00e3os e o tio bandido (voc\u00ea mata o desafeto que eu te proporciono uma boa vida); a sala escura pr\u00e9-assassinato onde toca o telefone, como Disque M para Matar; a persegui\u00e7\u00e3o dos algozes contra a v\u00edtima nos becos ao som de efeitos sonoros de arrepiar, como tantas vezes vemos nos cl\u00e1ssicos do mestre de suspense. Tudo s\u00e3o refer\u00eancias, jamais pl\u00e1gio. Vejo cineastas mediocres plagiando sem parar e se achando g\u00eanios. Woody Allen tem compet\u00eancia, sabedoria, talento, clareza de prop\u00f3sitos. E conhece cinema como poucos.<\/p>\n<p>\u00c9 encantadora a objetividade das seq\u00fc\u00eancias. O di\u00e1logo entre o casal de personagens se refere ao campo ingl\u00eas. Na cena seguinte, l\u00e1 est\u00e3o eles no pic-nic, no lago, na relva. A atriz marca encontro com o pretendente, que vai assisti-la numa sess\u00e3o de fotos num balne\u00e1rio. O apaixonado abana para a mulher de longe. A c\u00e2mara faz um travelling e se fixa num hotel. Corta para a cena da cama. Tudo muito despojado. Parece f\u00e1cil de fazer, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Dois ou tr\u00eas filmes por m\u00eas? \u00c0s vezes nem isso. Ultimamente, temos tido sorte aqui nas locadoras do norte da ilha. Vi Efeito Domin\u00f3, de Roger Donaldson, com Jason Statham, muito bom. Ambientado nos anos 60, reporta o maior roubo a bancos na Inglaterra. A capa do dvd mostra o carism\u00e1tico Jason de arma na m\u00e3o. Parece um trhriller de blockbuster, mas \u00e9 um tremendo filme. N\u00e3o sabia que a hist\u00f3ria se passava naquela \u00e9poca e estranhei que n\u00e3o via nem celular nem computador em cena. As pessoas faziam apontamentos em folhas de papel, em cadernetas. As chantagens usavam fotos de papel e filmes de celul\u00f3ide, imaginem. Hoje, com a prolifera\u00e7\u00e3o digital, j\u00e1 vai direto para a rede e pronto.<\/p>\n<p>Os dois filmes abordam a necessidade de enriquecer, o sonho da grana abundante, a aposentadoria precoce. \u00c9 a profecia da nossa \u00e9poca. Deposite sua grana em nossos in\u00fameros produtos de investimento que n\u00f3s cuidamos de multiplic\u00e1-la. Voc\u00ea vai viver de rendas, virar um aristocrata. Na hora em que os bancos e seguradoras come\u00e7am a pedir fal\u00eancia, voc\u00ea v\u00ea o tamanho do estrago. N\u00e3o v\u00e1 escutar aquele tio que parece t\u00e3o bem sucedido e n\u00e3o passa de um gangster. Cuidado com as falsas Cassandras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando falam que tens futuro, e apontam caminhos para chegar l\u00e1, \u00e9 porque querem conduzir teu destino. Qual \u00e9 o futuro dos dois jovens de classe m\u00e9dia baixa londrina (Colin Farrel e Ian McGregor) no filme de Woody Allen, O sonho de Cassandra (2007)? \u00c9 o tio milion\u00e1rio Howard (Tom Wilkinson), \u00eddolo da irm\u00e3, m\u00e3e dos rapazes, que n\u00e3o cansa de us\u00e1-lo como modelo contra o marido perdedor, enfartado e dono de restaurante. Na mitologia grega, Cassandra \u00e9 a a bel\u00edssima troiana amaldi\u00e7oada por Apolo, que n\u00e3o conseguiu fatur\u00e1-la e por isso determinou que suas profecias jamais teriam credibilidade.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/708"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=708"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1775,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/708\/revisions\/1775"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}