{"id":710,"date":"2009-12-12T21:48:53","date_gmt":"2009-12-12T23:48:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=710"},"modified":"2009-12-21T20:48:44","modified_gmt":"2009-12-21T22:48:44","slug":"lourenco-diaferia-a-cronica-em-branco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/lourenco-diaferia-a-cronica-em-branco","title":{"rendered":"LOUREN\u00c7O DIAF\u00c9RIA: A CR\u00d4NICA EM BRANCO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nLouren\u00e7o Diaf\u00e9ria, que morreu de infarto no dia 16 de setembro de 2008,\u00a0 \u00e9 um cronista cl\u00e1ssico. Faz parte de uma linhagem criada por escritores como ele, que n\u00e3o vieram do romance ou da poesia, como Machado de Assis ou Olavo Bilac, mas que se dedicaram apenas a esse g\u00eanero liter\u00e1rio essencialmente brasileiro, nascido no jornalismo p\u00e1trio, e que \u00e9 um reduto tradicional da liberdade de pensamento. Numa reportagem, editorial, cobertura, entrevista, o jornalista sofre muito mais limita\u00e7\u00f5es do que o livre-pensar da cr\u00f4nica. Diaf\u00e9ria \u00e9 da mesma esp\u00e9cie de Rubem Braga, que n\u00e3o precisou voar para outras paragens e fez da cr\u00f4nica seu ganha-p\u00e3o e sua transcend\u00eancia. Mas, ironia total, ele foi marcado exatamente por uma cr\u00f4nica em branco, que n\u00e3o existiu, mas foi publicada.<\/p>\n<p>Eu estava l\u00e1, posso contar. Trabalhei na Folha por dois anos e meio na segunda metade da d\u00e9cada de 1970. Diaf\u00e9ria era o chamado boa-pra\u00e7a, sempre sorridente, de grande talento, querido por todos. N\u00f3s, metidos a revolucion\u00e1rios, que faz\u00edamos parte da troupe do editor Tarso de Castro, ach\u00e1vamos at\u00e9 que ele era leve demais, pois est\u00e1vamos em plena ditadura civil-militar. Nem sab\u00edamos a porcaria em que ia se transformar o pa\u00eds nos anos seguintes. Dever\u00edamos era agradecer aos c\u00e9us por termos perto, todos os dias, o cronista da cidade, com uma popularidade que testemunhei pessoalmente, pois nesse momento o mundo explodiu.<\/p>\n<p>Todos conhecem a hist\u00f3ria. Diaf\u00e9ria fez uma cr\u00f4nica sobre o sargento her\u00f3i que salvou uma crian\u00e7a de um po\u00e7o de feras no zool\u00f3gico, as tais ariranhas, lontras gigantes ou lobos do rio. O cronista celebra a coragem do homem que salvou a v\u00edtima, mas que n\u00e3o resistiu \u00e0s mordidas, e faz uma compara\u00e7\u00e3o com as est\u00e1tuas dos her\u00f3is militares. Disse que o sargento sim merecia ser homenageado e n\u00e3o os que posavam nas pra\u00e7as p\u00fablicas imobilizados em metal. A \u00e9poca era de patriotadas infames, de grande hipocrisia, pois sab\u00edamos o que a ditadura fazia e ao mesmo tempo t\u00ednhamos que aturar o \u00e1libi perfeito proporcionado pela mem\u00f3ria dos her\u00f3is. Ou seja, a tirania se escudava na imagem leg\u00edtima dos nossos her\u00f3is de guerra para manter a opress\u00e3o. Diaf\u00e9ria, o boa pra\u00e7a, o texto leve, sempre sorridente, tocou na ferida. E foi punido exemplarmente.<\/p>\n<p>Lembro sua cara transtornada pela injusti\u00e7a que sofreu, pois foi preso e processado. Em retalia\u00e7\u00e3o, Tarso de Castro publicou o espa\u00e7o do cronista totalmente em branco, o que foi considerado uma ofensa ainda mais grave pelos ditadores. Na reda\u00e7\u00e3o, choveu telefonemas dos leitores. Todos diziam a mesma coisa: \u201cSe Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria sair, suspendo minha assinatura ou ent\u00e3o, deixo de comprar o jornal, pois eu s\u00f3 tenho a Folha na minha casa para ler o cronista\u201d. Fiquei impressionado pelo carisma, a penetra\u00e7\u00e3o, o prest\u00edgio, a grandeza do nosso her\u00f3i dos textos di\u00e1rios. Mudei complemente meu conceito. Eu sempre lia sua cr\u00f4nica, mas pessoalmente tinha preconceitos, que sumiram nesses dias. Diaf\u00e9ria era o cara e n\u00f3s, uns apagados escribas insubordinados, mas submissos.<\/p>\n<p>Infelizmente, esse epis\u00f3dio foi fatal para Diaf\u00e9ria. Ele continuou produzindo, sempre bem, sempre bom, publicou v\u00e1rios livros de cr\u00f4nicas, mas nunca mais foi o mesmo. Era diferente. N\u00e3o se tratava mais do cronista da cidade, querido e festejado na ascendente Folha de S. Paulo. Era uma pessoa marginalizada, contra a qual se desencadeou a f\u00faria do tempo, a injusti\u00e7a contra o talento, o horror contra o sorriso e a emo\u00e7\u00e3o. Agora Diaf\u00e9ria partiu e ficamos a s\u00f3s, com sua obra. Um cavalheiro, um homem do bem, de olho claro e riso aberto, a nos ensinar o conv\u00edvio decente e humano numa reda\u00e7\u00e3o, lugar de rilhar os dentes.<\/p>\n<p>Ele passou pela vida e deixou seu legado. Primeiro, o do escritor determinado e de f\u00f4lego, que soube ser fiel \u00e0s suas origens e sua cidade. Segundo, a pessoa corajosa que fez da cr\u00f4nica sua trincheira. O exerc\u00edcio da liberdade, em Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria, \u00e9 o tesouro que agora compartilhamos. Tamb\u00e9m virei cronista, seguindo o seu exemplo. E tenho liberdade para escrever gra\u00e7as a Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria, que na hora decisiva soube combater o bom combate.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria, que morreu de infarto no dia 16 de setembro de 2008,  \u00e9 um cronista cl\u00e1ssico. Faz parte de uma linhagem criada por escritores como ele, que n\u00e3o vieram do romance ou da poesia, como Machado de Assis ou Olavo Bilac, mas que se dedicaram apenas a esse g\u00eanero liter\u00e1rio essencialmente brasileiro, nascido no jornalismo p\u00e1trio, e que \u00e9 um reduto tradicional da liberdade de pensamento. 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