{"id":712,"date":"2009-12-12T21:49:51","date_gmt":"2009-12-12T23:49:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=712"},"modified":"2009-12-21T23:02:24","modified_gmt":"2009-12-22T01:02:24","slug":"a-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-experiencia","title":{"rendered":"A EXPERI\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"<p>A EXPERI\u00caNCIA<\/p>\n<p>Nei Ducl\u00f3s (*)<\/p>\n<p>Ele entrou com um gravador na m\u00e3o e foi logo instalando em cima da minha mesa. Tentei ser gentil, mas o seu jeito de andar, se abaixar e pegar os fios era terr\u00edvel. Na hora em que alcancei a m\u00e3o no telefone ele fez um movimento t\u00e3o brusco para me impedir que acabou caindo em cima do lixo. N\u00e3o riu, s\u00f3 fez uma careta. Levantou-se, puxou o palet\u00f3, sempre com aquela express\u00e3o torcida. Estava tentando sorrir, l\u00e1 da maneira dele, s\u00f3 que eu n\u00e3o pude adivinhar, na hora, o que era. Imediatamente come\u00e7ou a me mostrar.<\/p>\n<p>P\u00f4s as m\u00e3os no meu pesco\u00e7o, mas preferiu apert\u00e1-lo depois que conseguiu arrancar o meu colar. Parou quando eu comecei a tossir e a ficar roxa. Sentou na mesa enquanto eu me recompunha e procurava o len\u00e7o na bolsa. Acendeu o cigarro, tragou fundo e ficou me olhando. Fiquei mal por alguns minutos. Quis ir ao banheiro mas ele n\u00e3o deixou. N\u00e3o fez nenhum gesto, nem franziu nada. Continuou fumando. Fazia um jogo claro, ca\u00e7ador, n\u00e3o permitia que eu bancasse a desentendida. Tinha deixado a porta encostada e sabia que eu, na primeira oportunidade, me jogaria para o corredor.<\/p>\n<p>Comecei a ficar apavorada porque ele parou de fazer loucuras e ficou curtindo comigo, esperando, talvez, que eu assumisse o que j\u00e1 estava claro. N\u00e3o pude nem sentir pena de mim, t\u00e3o apavorada e confusa que eu estava.<br \/>\n&#8211; \u00c9 tu que atende os telefones? perguntou.<br \/>\n&#8211; Do meio-dia at\u00e9 as duas eu fico de plant\u00e3o, respondi, com excita\u00e7\u00e3o. Aquela pergunta tinha me feito bem, me dava alguma chance.<br \/>\n&#8211; E no resto do dia?<br \/>\n&#8211; Tem mais tr\u00eas pessoas.<br \/>\n&#8211; Me diz uma coisa, disse, depois de um suspiro e chegando um pouco mais perto de mim. Todos os que telefonam est\u00e3o querendo mesmo se matar? Isso saiu no jornal. \u00c9 verdade?<br \/>\n&#8211; Bem, suspirei tamb\u00e9m, tentando dar um rumo para minhas palavras. Parecia que eu tinha achado um furo nele, um ponto de liga\u00e7\u00e3o com a maioria dos casos. J\u00e1 come\u00e7ava a pensar que ele era um necessitado de nossa ajuda, do nosso Pronto Socorro Espiritual.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o deixou continuar. Passou o cigarro para a m\u00e3o esquerda e com a outra come\u00e7ou a me bolinar. Babava no meu ouvido que eu devia fechar a porta a chave, pois podia chegar algu\u00e9m, desses teus colegas, com um rev\u00f3lver na m\u00e3o, isso n\u00e3o seria bom para ningu\u00e9m, pois tinha tamb\u00e9m um rev\u00f3lver e ia matar todo mundo que ficasse na frente dele. Respirava depressa, atropelando meu corpo, minha cuca. Eu j\u00e1 estava completamente pirada, n\u00e3o sabia mais o que fazer, pensava em morrer logo, porque me meti nesta barra, essas coisas. Fui me levantar para fechar a porta, mas estava paralisada. Tirou a m\u00e3o de mim e explicou que n\u00e3o era nada disso do que eu estava pensando. Que tinha visto a not\u00edcia sobre nossa ag\u00eancia no jornal e que resolveu fazer uma experi\u00eancia. Estava absolutamente normal na apar\u00eancia e nos gestos, eu \u00e9 que parecia uma louca daquele jeito, me mordendo, tremendo toda.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vai ter um chilique agora, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nParecia um professor. Pegou a garrafa de \u00e1gua que estava em cima da mesa, p\u00f4s no copo e me deu, com cortesia. Levei um susto quando o telefone tocou. Pegou meu bra\u00e7o numa chave, tirou o telefone do gancho , ligou o gravador. Repousou todo o corpo nas minhas costas, p\u00f4s o telefone na minha orelha, afastou meu cabelo para eu ouvir bem. Escutei uma vozinha do outro lado do fio, era de adolescente, voz de menina. Fui responder quando outra voz ao meu lado respondeu, met\u00e1lica:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tem ningu\u00e9m aqui. Isto \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o.<br \/>\nClic do gravador. Blam do fone no gancho. Fiquei sem respirar. Fechei os olhos e vi a menina que fui, de vestido vermelho, rolando num precip\u00edcio, num po\u00e7o, num barranco sem fim.<br \/>\nAbri os olhos. Tudo continuava igual. Ele estava encostado na parede. Acendeu outro cigarro.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 seu nome? perguntou e eu comecei a ficar com raiva de toda aquela situa\u00e7\u00e3o. Meu bra\u00e7o do\u00eda muito, mas assim mesmo bati com a m\u00e3o na mesa, me levantei e comecei a andar para a porta. Ele fez um barulho atr\u00e1s de mim e senti o cano do rev\u00f3lver na nuca. Mas eu j\u00e1 estava mais \u00e0 vontade, e resolvi apresentar outro lance. Suspirei para dar a impress\u00e3o de estar de saco muito cheio, voltei para a cadeira, peguei meu cigarro na bolsa, acendi e disse:<br \/>\n&#8211; Vem c\u00e1, \u00f4 d\u00e9bil mental, qual \u00e9 a tua?<br \/>\nEle ficou meio roxo com a pergunta, mas continuei:<br \/>\n&#8211; Porra, arrebentar a vida desses coitados que telefonam para c\u00e1 \u00e9 muita covardia. Vem c\u00e1, tu apanhou do teu pai?<br \/>\nTinha resolvido partir para cima dele, podia se amedrontar, entrar pelo cano comigo, com gravador, experi\u00eancia e tudo. Ele continuava meio roxo, me olhando de lado. Parou de fumar. Tremeu todo quando o telefone tocou de novo, mas o barulho o recomp\u00f4s, deu uma esp\u00e9cie de sorriso cheio de triunfo enquanto se atirava no aparelho. Atendeu dizendo bem depressa: \u201cN\u00e3o tem ningu\u00e9m aqui, isto \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o\u201d, batendo o telefone e rindo sem parar. Tossia e co\u00e7ava a cabe\u00e7a com o rev\u00f3lver. Dei um pulo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta, mas um tiro arrebentou o vidro antes que eu encostasse a m\u00e3o nela. Fiquei parada vendo o corredor vazio, os vidros pequenos indo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escada, brilhavam parecendo pingos de \u00e1gua no sol.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio, parecia que meu ouvido ia explodir com aquele peso no ar. Ele apertou meu pesco\u00e7o com o bra\u00e7o e me arrastou para a cadeira.<br \/>\nQuando o telefone tocou mais uma vez, senti o rev\u00f3lver na minha fronte. Me apertou bem, estava suando. Disse baixinho que ia me matar.<br \/>\n&#8211; Tentou fugir de mim, eu sou um cara legal, ningu\u00e9m pode fugir de mim.<br \/>\nP\u00f4s a m\u00e3o no meu ouvido, tapando o bocal e repetindo que ia me matar. Fechei os olhos e esperei. Ele disse:<br \/>\n&#8211; Pode atender agora.<br \/>\nIa me deixar falar, posso dar um aviso, meu cora\u00e7\u00e3o estava batendo demais, inc\u00f4modo demais.<br \/>\n&#8211; Al\u00f4, disse eu, tr\u00eamula.<br \/>\n&#8211; Que brincadeira \u00e9 essa? respondeu a mesma voz de menina. Pensei que fosse uma coisa s\u00e9ria esse neg\u00f3cio a\u00ed.<br \/>\n&#8211; Pois \u00e9, respondi, ele engatilhou a arma, levantei os olhos para aquela testa suada, tensa, excitada.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 se sentindo mal?<br \/>\nN\u00e3o respondi, engoli e tentei ser natural:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, sabe o que \u00e9, fui me desculpando e me flagrando que, por v\u00edcio estava tentando ser agrad\u00e1vel com a consulente. Voc\u00ea \u00e9 que deve estar com algum problema.<br \/>\n&#8211; Por qu\u00ea voc\u00ea mudou de assunto? perguntou a menina e eu tive vontade de rir, pois me lembrei que deveria ser assim que eu falava quando tinha 12 anos, daquela maneira \u201cdura\u201d, pensando que estava impressionando muito, com a m\u00e3o na cintura, toda metida.<br \/>\n&#8211; Por qu\u00ea ent\u00e3o voc\u00ea telefonou? gaguejei. S\u00f3 para saber como era?<br \/>\nN\u00e3o ouvi mais nada. Senti medo que ela tivesse sa\u00eddo correndo, como toda crian\u00e7a, que estava passando um trote e eu ali, desperdi\u00e7ando minha \u00faltima chance.<br \/>\n-N\u00e3o \u00e9, voltou a voz e eu quase fiz um ahh: de alegria. Continuou dizendo:<br \/>\n&#8211; Queria era dizer uma poesia que eu fiz hoje, mas ningu\u00e9m me deu bola. Meu irm\u00e3o disse que eu era uma imbecil, s\u00f3 sabia ficar em casa e n\u00e3o tinha de me escutar. A m\u00e3e fez a comida e se mandou. Isso que ela prometeu me dar aten\u00e7\u00e3o depois do almo\u00e7o. O pai, ent\u00e3o, s\u00f3 faltou dormir em cima da mesa, nem ouviu o que eu disse. N\u00e3o sei porque tanto onda com um poeminha, n\u00e3o leva nem dois segundos, quer escutar? Ou voc\u00eas tamb\u00e9m est\u00e3o sem tempo?<br \/>\nLimpei o suor que me descia na cara, vinha l\u00e1 da testa, me dando sensa\u00e7\u00e3o de l\u00e1grima. Pensei que ela ia me perguntar se eu estava chorando. Eu estava emocionada com aquela vozinha, as pretens\u00f5es dela e sentia inveja por ela ser livre daquilo tudo, de trabalhar, de atender pessoas loucas, de gastar amor com desconhecidos, para acabar assim, nas m\u00e3os de um assassino.<br \/>\n&#8211; Perdeu a l\u00edngua? disse ela, bem desafinada. Voc\u00ea sabe que eu j\u00e1 fumo? Como \u00e9, vai me escutar ou n\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Pode dizer, consegui responder, num arranque. Imediatamente ela falou do amor dela que n\u00e3o vinha e que ficava esperando sempre no terra\u00e7o, rimava tran\u00e7a com dan\u00e7a, terra\u00e7o com abra\u00e7o, amor com dor. N\u00e3o consegui entender direito porque eu j\u00e1 estava solu\u00e7ando alto, pedindo que o cara me matasse de uma vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele entrou com um gravador na m\u00e3o e foi logo instalando em cima da minha mesa. Tentei ser gentil, mas o seu jeito de andar, se abaixar e pegar os fios era terr\u00edvel. Na hora em que alcancei a m\u00e3o no telefone ele fez um movimento t\u00e3o brusco para me impedir que acabou caindo em cima do lixo. N\u00e3o riu, s\u00f3 fez uma careta. Levantou-se, puxou o palet\u00f3, sempre com aquela express\u00e3o torcida. Estava tentando sorrir, l\u00e1 da maneira dele, s\u00f3 que eu n\u00e3o pude adivinhar, na hora, o que era. 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