{"id":714,"date":"2009-12-12T21:50:54","date_gmt":"2009-12-12T23:50:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=714"},"modified":"2009-12-21T22:53:37","modified_gmt":"2009-12-22T00:53:37","slug":"pedra-no-regato","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pedra-no-regato","title":{"rendered":"PEDRA NO REGATO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Pedra lisa, quase transparente, brilha no fundo de um regato, aquela por\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pura que desce a montanha tecendo a aventura. Mais preciosa que ametista, mais vistosa que pepita, mais valiosa que diamante bruto. Perdida entre tantas, se deposita sem esperan\u00e7a de ser colhida. Tem apenas a beleza exposta no barulho da pequena correnteza, mudando de lugar conforme a chuva, amea\u00e7ando despencar na primeira cascata e que se encolhe ao toque quando a descobrimos quase sem querer, numa curva tomada pelo pedregulho.<\/p>\n<p>A m\u00e3o em forma de luva despenca para apanh\u00e1-la antes que flutue, ou suma, ou fa\u00e7a qualquer coisa louca, t\u00edpica das criaturas do sonho. A m\u00e3o cruza o filete de \u00e1gua em movimento perdendo a dire\u00e7\u00e3o. A prata do sol, filtrado por nuvens p\u00e1lidas, gera a confus\u00e3o do gesto feito de improviso. O resultado \u00e9 apanhar p\u00f3 do leito do riacho, milh\u00f5es de part\u00edculas que por instantes escondem o objeto de desejo, agora imposs\u00edvel de ser localizado diante da escassez dos cinco sentidos.<\/p>\n<p>A paisagem conspira para manter a prenda grudada ao seu ambiente. Quer evitar que ela sofra de s\u00fabita demonstra\u00e7\u00e3o de assombro e depois seja depositada no fundo da mochila, na parte inacess\u00edvel dos bolsos, no forro de jaquetas abandonadas e por l\u00e1 fique para sempre, exilada da miss\u00e3o que a natureza, portanto, o destino, lhe reservou. Se o viajante tem pressa, e est\u00e1 ali para bater recordes, ou simplesmente foge do iminente despencar do dia, se quer alcan\u00e7ar a cabana mais pr\u00f3xima antes que a coruja pie, ent\u00e3o o tesouro ser\u00e1 preservado.<\/p>\n<p>Mas se quem estiver passando for mulher, tudo muda. A pedra \u00e9 vista como a \u00e2ncora de um amor que est\u00e1 por vir, o fetiche de uma declara\u00e7\u00e3o eterna, o in\u00edcio de um namoro, o presente que jamais se esquece. Mas h\u00e1 um problema: mulher n\u00e3o colhe a pedra, e sim a recebe de algu\u00e9m que talvez ainda nem saiba que foi escolhido. \u00c9 preciso ent\u00e3o desafiar os planos e gerar uma artimanha. Torcer o p\u00e9 para chamar o pr\u00edncipe, envolto em brumas l\u00e1 adiante. Mal sabe ele que j\u00e1 est\u00e1 sendo encaminhado para a gruta, o ninho, o momento fecundo. Por um milagre, ou talvez porque a mulher saiba gritar em dire\u00e7\u00e3o do amado sem que ningu\u00e9m mais escute, ele se precipita para ver o que \u00e9. A princesa finge a dor e dirige o olhar p\u00e2nico para a \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u00c9 quando ele v\u00ea, no fundo do rio, a pedra mais valiosa do que dobr\u00f5es de ouro. Sem atinar direito, pega o que est\u00e1 sendo ofertado pela liquidez do entardecer. Pois agora ficou claro que p\u00e1ssaros, folhas, ciscos, p\u00e9talas est\u00e3o carregando o esp\u00edrito do rapaz para dentro do mist\u00e9rio. Ele acha que ningu\u00e9m pensou antes no que surge em sua mente tomada por um breve susto. Assim como colhe a pedra, a estende em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mo\u00e7a, j\u00e1 refeita do tombo e pronta para receber a esperada alian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que funciona esse expediente maroto que o amor prega nos garotos expostos \u00e0 esperteza feminina. A pedra colhida no fim-de-semana, quando todos fingiam divertir-se, \u00e9 o fundamento de uma rela\u00e7\u00e3o que deve perdurar. Porque \u00e9 imposs\u00edvel evitar. Assim como existe a certeza de que tudo passa e que o romantismo foi pura perda de tempo dos nossos ancestrais, h\u00e1 tamb\u00e9m o inevit\u00e1vel arranjo dos pares que jamais tomam caminhos opostos e se unem para uma vida a dois, contrariando os fuxicos, as tend\u00eancias e at\u00e9 mesmo as celebra\u00e7\u00f5es de bodas intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mais do que uma festa ou um bolo de 50 andares, um para cada ano da rela\u00e7\u00e3o, o que existe \u00e9 a pequena cesta de vime em frente ao espelho do quarto. L\u00e1, entre agulhas, lantejoulas, brocados, fotos, jaz a pedra lisa colhida um dia no fundo de um regato em flor. A mulher pega a prenda, aperta-a contra o cora\u00e7\u00e3o e sorri. E lembra a cara de espanto do futuro marido, quando lhe alcan\u00e7ou a j\u00f3ia. Era o rosto dos predestinados. Os que foram ungidos pelo privil\u00e9gio de compartilhar o amor na longa trajet\u00f3ria sobre a terra. Ele sabe que participa de uma viagem sagrada, que nasceu num entardecer na serra. Foi quando o brilho da pedra \u00fanica transformou o regato numa fonte de sentimentos que costuram uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedra lisa, quase transparente, brilha no fundo de um regato, aquela por\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pura que desce a montanha tecendo a aventura. Mais preciosa que ametista, mais vistosa que pepita, mais valiosa que diamante bruto. Perdida entre tantas, se deposita sem esperan\u00e7a de ser colhida. 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