{"id":726,"date":"2009-12-12T22:28:04","date_gmt":"2009-12-13T00:28:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/pesadelo-automotivo"},"modified":"2009-12-21T22:36:59","modified_gmt":"2009-12-22T00:36:59","slug":"pesadelo-automotivo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pesadelo-automotivo","title":{"rendered":"PESADELO AUTOMOTIVO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA publicidade de um carro zero quil\u00f4metro omite o mundo enigm\u00e1tico das oficinas. Logo que sai da f\u00e1brica, o bicho anda como se fosse m\u00e1gica. Parece at\u00e9 que se movimenta orientado pelo esgar malicioso de bocas dos motoristas que se retorcem de prazer ao dirigir. Pelo menos \u00e9 o que vemos nos comerciais. Mas olhinhos apertados, bra\u00e7os estirados no volante, companhias femininas banhadas de ouro e prata s\u00e3o apenas poeira nos olhos, porque a realidade muda rapidinho. Em pouco tempo, aquele organismo t\u00e3o cobi\u00e7ado, que trafega para a inveja dos contempor\u00e2neos, oferece um espet\u00e1culo de ru\u00eddos rascantes, fuma\u00e7as fora de hora, luzes que jamais apagam.<\/p>\n<p>Pe\u00e7a de autom\u00f3vel \u00e9 como c\u00e9lula: j\u00e1 vem programada para pifar, depende do modelo e da marca. Se os art\u00edfices das montadoras s\u00e3o capazes at\u00e9 de inocular cheiros espec\u00edficos nos estofamentos, para aumentar o poder de sedu\u00e7\u00e3o na hora da compra, se pesquisam at\u00e9 o barulho da porta quando se fecha para sugerir poder, ou simplesmente car\u00edcia para quem ouve, como n\u00e3o iriam decidir o mais importante? Ou seja, o momento exato em que voc\u00ea ter\u00e1 de livrar do seu p\u00e9 de borracha favorito e desembolsar mais dinheiro, se quiser manter seu status de feliz propriet\u00e1rio de um zero.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a hora em que o sonho acaba e, se n\u00e3o dispomos da quantia exigida pelo resgate, ou teimamos em manter a mimosa baratinha adquirida na juventude, vamos cruzar o umbral das palavras enigm\u00e1ticas. Aos poucos elas v\u00e3o ficando mais familiares, na medida em que a conta do banco \u00e9 esvaziada para mantermos o privil\u00e9gio da locomo\u00e7\u00e3o movida a gasolina ou a \u00e1lcool. No in\u00edcio, parece que n\u00e3o vai doer. O mec\u00e2nico, ou o auto-el\u00e9trico da esquina, talvez resolva. Voc\u00ea aprende que n\u00e3o deveria ter deixado de dar doses maci\u00e7as de hidrocarbonetos (ou algo parecido) para evitar que o carro acumule cracas e entupa as passagens de \u00f3leo.<\/p>\n<p>Sim, ele \u00e9 capaz de sofrer um enfarte. Se o cara que arrancou uma nota para obrigar a v\u00edtima a cumprir seus compromissos a p\u00e9 n\u00e3o conseguir resolver, \u00e9 melhor n\u00e3o insistir e partir para o estabelecimento mais pr\u00f3ximo. Pois fica dif\u00edcil engolir explica\u00e7\u00f5es do tipo da j\u00e1 desmoralizada rebimbeca sueca. Sobram exemplos. O carro apresentou o mesmo defeito depois que o fregu\u00eas se separou do dinheiro para o conserto, por um motivo simples: \u201cEle \u00e9 eletr\u00f4nico\u201d, diz o sol\u00edcito especialista, \u201cent\u00e3o o que acontece \u00e9 a memoriza\u00e7\u00e3o do erro. Por mais que a gente conserte, ele volta ao estado anterior\u201d.<\/p>\n<p>Isso pode at\u00e9 colar, quando h\u00e1 uma capacidade gigantesca de se acreditar em tudo o que dizem. Mas a ficha acaba caindo e parte-se para a ignor\u00e2ncia: contra todos os conselhos, entramos ressabiados numa autorizada. Gasta-se ent\u00e3o os tubos na troca de pneus, v\u00e1lvulas, estofamento, limpa-parabrisas e outros sup\u00e9rfluos. Parece que sa\u00edmos no lucro, pois \u00e9 bem melhor colocar tudo na m\u00e3o dos sabich\u00f5es do que jogar grana fora em empresinhas de fundo de quintal.<\/p>\n<p>Pois em menos de duas semanas o mesmo defeito d\u00e1 as caras novamente. Os pneus est\u00e3o tinindo, mas o carro n\u00e3o anda, ou n\u00e3o pega de primeira ou simplesmente se recusa a sair de casa. Carro ensinado n\u00e3o deixa ningu\u00e9m na rua, mas tamb\u00e9m costuma ficar emburrado na garagem at\u00e9 que o propriet\u00e1rio tome uma atitude e chame um interventor.<\/p>\n<p>O cara chega, faz uma chupeta, no bom sentido e leva novamente o insubstitu\u00edvel para longe.\u00a0 At\u00e9 que um dia, depois de tantas experi\u00eancias, o coitado resolve arriar no meio da estrada com a biela em pandarecos, fazendo o barulho de um matraquear assustador. O motor fundiu, era previs\u00edvel. \u00c9 preciso que a ret\u00edfica tome conta e descubra, alarmada, que as camisas est\u00e3o gastas. Sim, existem camisas no motor. E elas custam o dobro do inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por isso, quando os pobres sofredores v\u00eaem os astros estrangeiros de cinema passeando com as beldades brasileiras, em campanhas milion\u00e1rias de carros do ano, movidos a esgares maliciosos, d\u00e1 vontade de gritar uns palavr\u00f5es: Biela! Virabrequim! Inje\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica! Rebimbeca!<\/p>\n<p>\u00c9 justo. H\u00e1 limites para o ser humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe\u00e7a de autom\u00f3vel \u00e9 como c\u00e9lula: j\u00e1 vem programada para pifar, depende do modelo e da marca. 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