{"id":727,"date":"2009-12-12T22:29:06","date_gmt":"2009-12-13T00:29:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=727"},"modified":"2009-12-21T23:26:16","modified_gmt":"2009-12-22T01:26:16","slug":"violencia-planejada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/violencia-planejada","title":{"rendered":"VIOL\u00caNCIA PLANEJADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nH\u00e1 tempos o Brasil est\u00e1 por um fio. A grande quantidade de eventos da viol\u00eancia define o perfil de uma guerra interna. Hoje sobram exemplos de assassinatos em fam\u00edlia, entre padrastos e filhos, irm\u00e3os e irm\u00e3s, parentes pr\u00f3ximos e distantes. N\u00e3o se resolve mais os conflitos pelo di\u00e1logo por v\u00e1rios motivos. Um deles \u00e9 porque vivemos em plena \u201cascens\u00e3o do capitalismo de desastre\u201d, como denuncia a jornalista canadense Naomi Klein no livro \u201cA Doutrina do Choque\u201d (Nova Fronteira, 590 p\u00e1ginas). Uma ditadura global trabalha as grandes trag\u00e9dias sociais, econ\u00f4micas e ambientais a favor da superconcentra\u00e7\u00e3o de renda, a galope do sucateamento das na\u00e7\u00f5es. Isso tira o espa\u00e7o m\u00ednimo de sobreviv\u00eancia da cidadania.<\/p>\n<p>O quadro \u00e9 alimentado pela for\u00e7a, via imposi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edticas maquiadas. Substituir o desenvolvimentismo dentro das fronteiras pela interdepend\u00eancia e a especula\u00e7\u00e3o financeira serviu para aplainar o terreno rumo \u00e0 derrocada. Foi praticamente eliminado, em regi\u00f5es perif\u00e9ricas, um dos instrumentos b\u00e1sicos, como o ensino da l\u00edngua culta, longe dos maneirismos datados da g\u00edria e das ancestralidades obsoletas dos regionalismos. \u00c9 preciso que saibamos falar antes que o pa\u00eds seja destru\u00eddo. A l\u00edngua culta, disseminada em massa, contribuiria para uma a\u00e7\u00e3o cooperativa capaz de operar milagres.<\/p>\n<p>Como est\u00e1, a viol\u00eancia \u00e9 a resposta \u00e0 pobreza crescente cevada no vazio do verbo. Quando as palavras perdem o poder, parte-se para a ignor\u00e2ncia. Uma das panac\u00e9ias mais comuns \u00e9 o fundamentalismo. As pessoas recorrem aos textos sagrados para encarnar o poder que n\u00e3o possuem. N\u00e3o basta a exacerba\u00e7\u00e3o da espiritualidade, j\u00e1 que a linguagem religiosa peca pela mesmice e muitas vezes o fanatismo.<\/p>\n<p>Dispomos de profundos antecedentes para esse quadro complicado. A privatiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia est\u00e1 nas ra\u00edzes da forma\u00e7\u00e3o do Brasil. O senhor de engenho era obrigado, por lei, a ter determinada quantidade de p\u00f3lvora e armas, tudo armazenado num dep\u00f3sito com dimens\u00f5es definidas no papel. Como a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 exclusiva de um poder maior, que transcenda a todos, qualquer um se acha no direito de exerc\u00ea-la. A prova s\u00e3o as matan\u00e7as e linchamentos. Em terra de escravos, todo mundo \u00e9 senhor.<\/p>\n<p>Vejam no tr\u00e2nsito. O sujeito liga o pisca-pisca e entra, j\u00e1 que sua vontade \u00e9 a lei. Voc\u00ea est\u00e1 numa estrada e precisa pegar \u00e0 esquerda. O que vem atr\u00e1s sobe na sua retaguarda como se estivesse num campo de ca\u00e7a. Ele n\u00e3o vai permitir a manobra, a n\u00e3o ser que a v\u00edtima jogue o carro no acostamento de maneira abrupta, para que o algoz possa passar com seu s\u00e9quito de raz\u00f5es.<\/p>\n<p>As pessoas n\u00e3o costumam emitir uma opini\u00e3o, preferem ditar uma ordem. O dedinho levantado, o nariz empinado, o tom deliberativo comp\u00f5em a rea\u00e7\u00e3o oposta a qualquer manifesta\u00e7\u00e3o alheia. Toda frase reativa come\u00e7a invariavelmente com um \u201cn\u00e3o\u201d. Escutar \u00e9 submiss\u00e3o, dizer \u00e9 mando (por isso todos falam ao mesmo tempo, j\u00e1 que ningu\u00e9m se submete). A viol\u00eancia amplia assim seu imp\u00e9rio. Como perdemos o h\u00e1bito de prestar aten\u00e7\u00e3o nos outros, o tiroteio atinge a todos, crian\u00e7as, velhos, mulheres gr\u00e1vidas.<\/p>\n<p>Qual seria a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o? A paz, que s\u00f3 se consegue com algumas provid\u00eancias. Primeiro: o monop\u00f3lio do exerc\u00edcio legal da viol\u00eancia por parte das institui\u00e7\u00f5es nacionais, sob a guarda da corre\u00e7\u00e3o e a \u00e9tica. Segundo: o fim do capitalismo de desastre e a volta da luta em favor do equil\u00edbrio social. E terceiro: a l\u00edngua comum afiada na criatividade, no conhecimento e na experi\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual seria a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o? A paz, que s\u00f3 se consegue com algumas provid\u00eancias. Primeiro: o monop\u00f3lio do exerc\u00edcio legal da viol\u00eancia por parte das institui\u00e7\u00f5es nacionais, sob a guarda da corre\u00e7\u00e3o e a \u00e9tica. Segundo: o fim do capitalismo de desastre e a volta da luta em favor do equil\u00edbrio social. 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