{"id":729,"date":"2009-12-12T22:30:05","date_gmt":"2009-12-13T00:30:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=729"},"modified":"2009-12-21T22:11:27","modified_gmt":"2009-12-22T00:11:27","slug":"cenas-de-uma-trilogia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cenas-de-uma-trilogia","title":{"rendered":"CENAS DE UMA TRILOGIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s (*)<\/strong><\/p>\n<p><em>Inf\u00e2ncia, Ganhando Meu P\u00e3o e Minhas Universidades revelam toda a maestria narrativa de M\u00e1ximo Gorki<br \/>\n<\/em><br \/>\nSim. Podem dizer o que quiserem de Gorki. Que ele passeava com Stalin na sua casa de campo, que foi o fundador ou o guru do realismo socialista e outras coisas. \u00c9 moda desmerecer o g\u00eanio. Tudo isso n\u00e3o importa. Tudo o que enterra ou celebra Gorki politicamente n\u00e3o passa de firula, lantejoula. O que vale \u00e9 seu texto, magistral, enxuto, conciso, mortal, deslumbrante na sua trilogia autobiogr\u00e1fica, sob todos os aspectos uma obra-prima. A edi\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas livros, Inf\u00e2ncia, Ganhando Meu P\u00e3o e Minhas Universidades, \u00e9 da CosacNaify. Tradu\u00e7\u00e3o, apresenta\u00e7\u00e3o, ensaios e informa\u00e7\u00f5es valiosas sobre o autor s\u00e3o de Rubens Figueiredo e Boris Schnaiderman.<\/p>\n<p>Quem l\u00ea M\u00e1ximo Gorki, n\u00e3o precisa ler mais nada. Algumas cenas nos deslumbram pela contund\u00eancia, pela precis\u00e3o dos detalhes, pelo fragor da narrativa, pela atualidade. Fellini deve ter lido, pois a literatura de Gorki revela que estamos cercados pelo surrealismo, que a realidade \u00e9 hiper-real, que os seres humanos s\u00e3o um mural de exce\u00e7\u00f5es, o que chamariam hoje de diversidade.<\/p>\n<p>A primeira cena de Inf\u00e2ncia \u00e9 a morte do pai do narrador, que coincide com o nascimento do seu irm\u00e3o, parido pela m\u00e3e de luto e em desespero. H\u00e1 o funeral paterno (em que Gorki se preocupa com duas r\u00e3s que s\u00e3o enterradas junto com o caix\u00e3o) e a viagem imediata para a cidade natal da m\u00e3e. A crian\u00e7a morre e \u00e9 carregada numa pequena caixa no camarote do vapor que singra o Rio Volga.<\/p>\n<p>No recinto sinistro, est\u00e3o a av\u00f3, a m\u00e3e e ele, o menino Al\u00e9ksiei, mais tarde &#8220;M\u00e1ximo, o Amargo&#8221;. A R\u00fassia gelada e chuvosa, o povo em tremendo sofrimento, a fam\u00edlia partida e enlouquecida pelas brigas internas come\u00e7am, ent\u00e3o, a desfilar no livro onde cada frase \u00e9 um punhal e cada par\u00e1grafo cont\u00e9m a grandeza do humano.<\/p>\n<p>Gorki ofereceu livro de contos de estr\u00e9ia para v\u00e1rias editoras e foi recusado por todas. Quando conseguiu publicar, houve um estouro. Tornou-se popular e fez amizade com os maiores escritores da \u00e9poca, como Tchecov e Tolstoi. Nas p\u00e1ginas de Inf\u00e2ncia, vemos como se formou esse car\u00e1ter onde a inoc\u00eancia duela com a culpa, a v\u00edtima dos a\u00e7oites afia sua capacidade cr\u00edtica, a travessura prepara a independ\u00eancia e a paisagem hostil inspira um escritor admir\u00e1vel.<\/p>\n<p>Outra cena impressionante \u00e9 a morte do ciganinho, agregado que fora encontrado ainda beb\u00ea na frente da casa dos av\u00f4s de Gorki, e que foi esmagado por uma cruz pesad\u00edssima, quando esta era carregada do quintal para a igreja. A morte coroa uma s\u00e9rie de eventos que definem o perfil do cigano e t\u00eam o impacto de uma bala perdida. N\u00e3o sabemos de onde v\u00eam. Pois v\u00eam desse texto certeiro, esse estopim de chumbo grosso, atirado com fina pontaria.<\/p>\n<p>Os personagens desfilam como num filme. A av\u00f3 gorda e com imensa cabeleira, \u00e1gil como uma gata e que sabia todas as lendas da R\u00fassia de mem\u00f3ria. O av\u00f4 horr\u00edvel, que o a\u00e7oitava todas as semanas e que o ensinou a ler. A m\u00e3e ausente, que o deixou para tr\u00e1s, vi\u00fava que casou com um agiota e morreu de fome e desgosto. Os irm\u00e3os nascidos mortos. O mestre tintureiro cego, que era perseguido pelos tios e primos de Gorki, que deixavam os dedais em brasa para ele se queimar. O qu\u00edmico, que foi seu primeiro amigo e que acabou expulso pelo av\u00f4. A m\u00e3e do padrasto, que se vestia toda de verde e tinha, tamb\u00e9m, a cara e os dentes da mesma cor. E assim por diante.<\/p>\n<p>Quando o livro parece ter esgotado sua capacidade de nos surpreender, algumas cenas sobre a adolesc\u00eancia do narrador nos trazem novos personagens, igualmente inesquec\u00edveis. O filho do guarda-noturno do cemit\u00e9rio, que fazia parte de uma gang juvenil de ladr\u00f5es, o filho espancado pela m\u00e3e alco\u00f3latra quando n\u00e3o levava alguns copeques para casa, entre outros, empurram o leitor para a situa\u00e7\u00e3o-limite do narrador, testemunha da morte da m\u00e3e (que o espancou no dia do desenlace) e da queda financeira de toda a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Em Minhas Universidades, a mulher gord\u00edssima que faz sexo com a v\u00edtima, amarrada a uma mesa, de um ritual sat\u00e2nico num covil de mendigos; o mujique que teve partido o cr\u00e2nio com uma marretada e jaz na beira do Volga com os olhos virados para o c\u00e9u; os estudantes bizarros que convivem com a mis\u00e9ria do povo e fazem parte dela; os intelectuais \u00e1grafos que orientam o autor sobre a morte e a fome: tudo em Gorki tem a grandeza do humano e enche de vergonha a literatura atual, t\u00e3o metida a vanguarda, t\u00e3o intimista e t\u00e3o oca, t\u00e3o sem nada a dizer, t\u00e3o an\u00eamica e cheia de maneirismos.<\/p>\n<p>Em poucas linhas, Gorki descreve sua tentativa de suic\u00eddio aos 19 anos, quando deu um tiro no cora\u00e7\u00e3o e acertou o pulm\u00e3o, tendo que pagar o mico de voltar ao trabalho um m\u00eas depois (um atentando que provocou nele a tuberculose; mais tarde, quase aos 70 anos, morreu de pneumonia). O que o salvou na juventude foi sua for\u00e7a f\u00edsica, j\u00e1 que ele mesmo era fruto da sele\u00e7\u00e3o natural promovida pela pobreza e o inverno russo. Condo\u00eddo do jovem leitor de livros que tentara o suic\u00eddio, um revolucion\u00e1rio o leva para o interior do pa\u00eds e o engaja num projeto de prele\u00e7\u00e3o catequista aos camponeses. O tiro sai pela culatra, pois eles tentam eliminar os intermedi\u00e1rios da produ\u00e7\u00e3o de alimentos e acabam tendo que fugir da aldeia.<\/p>\n<p>O grande ponto de inflex\u00e3o na vida de Gorki foi conhecer um professor que prestou aten\u00e7\u00e3o no que ele realmente era e que soube relevar seu esp\u00edrito rebelde de adolescente, concentrando-se no que o garoto tinha de mais significativo. Esse contato com um adulto que o entendeu profundamente mudou sua vida e redirecionou seu rumo. N\u00e3o fosse esse cruzamento de duas personalidades, a alma ind\u00f4mita e o mestre prudente e s\u00e1bio, n\u00e3o ter\u00edamos, talvez, o grande escritor que emergiu da R\u00fassia profunda.<\/p>\n<p>Em Ganhando meu p\u00e3o, h\u00e1 o destaque para a rela\u00e7\u00e3o entre o autor e os livros. Qual a R\u00fassia reportada por M\u00e1ximo Gorki nesse inesquec\u00edvel rio de palavras? Aparentemente, \u00e9 um pa\u00eds mergulhado na mis\u00e9ria e na barb\u00e1rie. Rodeado por pessoas \u00e1grafas, o adolescente Gorki, \u00f3rf\u00e3o e sem recursos, sobrevive \u00e0 custa do seu esfor\u00e7o f\u00edsico. O que o diferencia \u00e9 a leitura de livros, que l\u00ea \u00e0 luz de lampi\u00f5es, apartado de todos, e \u00e0s vezes compartilhando com oper\u00e1rios e velhos exaustos. \u00c9 tocante cada cena em que os autores russos, lidos pelo jovem autodidata (que foi encaminhado para os livros pelo cozinheiro de um navio que singrava o Volga), emocionam aquela humanidade brutalizada.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, chegam a roubar um livro favorito do rapaz para escond\u00ea-lo numa gaveta fechada a chave. O que isso nos diz? Que a R\u00fassia produzia uma literatura, no s\u00e9culo 19, que se disseminava em rede por todo o tecido social, chegava at\u00e9 os confins da popula\u00e7\u00e3o de todas as formas, seja em sebos onde se alugavam livros, seja por meio de alguns leitores que liam para a coletividade. Por todo o trajeto de sua narrativa, Gorki esmi\u00fa\u00e7a essa rela\u00e7\u00e3o complicada entre o povo russo e sua pr\u00f3pria literatura.<\/p>\n<p>Trata-se de uma sucess\u00e3o de coment\u00e1rios sobre livros e autores, o que cada um produziu e a refer\u00eancia que eles tinham entre comerciantes, camponeses, oper\u00e1rios, entre o povo rec\u00e9m-sa\u00eddo da servid\u00e3o e \u00e0s voltas com a rudeza do tzarismo d\u00e9cadas antes da Revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tente detectar qualquer vest\u00edgio do chamado realismo socialista nessas palavras de Gorki. Ele as escreveu e publicou antes de 1917. Sua principal observa\u00e7\u00e3o \u00e9 que as pessoas reais n\u00e3o estavam reportadas na literatura que conhecia, n\u00e3o apenas estrangeira, mas nacional. Ele sabia do que estava falando. Convivia diretamente com o povo, fazia parte dele e era seu olho consciente.<\/p>\n<p>Como pode ter sa\u00eddo, de tanta mis\u00e9ria, um escritor como Gorki? Ele mesmo responde. Diz que \u00e9 importante escancarar as mis\u00e9rias do povo russo, que assim mesmo consegue se superar. Vindos de uma realidade rural, se aglomerando em vilas e cidades, a popula\u00e7\u00e3o criada nos ermos tinha a auto-sufic\u00eancia da sabedoria emp\u00edrica, que despreza o que estava impresso, considerando-o fantasia. Tudo pode ser publicado, observou um dos personagens que conviveram com Gorki, portanto, n\u00e3o preste aten\u00e7\u00e3o nisso que voc\u00ea l\u00ea. Mas Gorki encontrava nessa rela\u00e7\u00e3o com os livros o ambiente suport\u00e1vel para trabalhar suas perplexidades. O que mais o invocava era o sem sentido das vidas entregues \u00e0 maldade. Considerava particularmente nojento o jeito como eram tratadas as mulheres.<\/p>\n<p>Como a grande formadora do seu car\u00e1ter foi a av\u00f3, paradigma de bondade e generosidade, e de alma caridosa e cheia de f\u00e9, Gorki se insurgia com a viol\u00eancia que se abatia sobre prostitutas, oper\u00e1rias, e at\u00e9 mulheres da nobreza. Era um mist\u00e9rio que os homens as tratassem daquele jeito, falando mal pelas costas, a\u00e7oitando-as e, como aconteceu com sua pr\u00f3pria m\u00e3e, levando pontap\u00e9s do marido, padrasto de Gorki.<\/p>\n<p>As pessoas n\u00e3o s\u00e3o boas nem m\u00e1s, s\u00e3o incompreens\u00edveis no seu comportamento, segundo Gorki. Ele tenta decifrar o enigma compartilhando suas d\u00favidas para quem estiver perto. Ressente-se do deboche e das perguntas evasivas. Acha que todos escondem algo dele. Por isso insiste e cada personagem \u00e9 crivado de perguntas at\u00e9 a exaust\u00e3o. \u00c9 uma pesquisa profunda que desenvolve sem as veleidades cient\u00edficas, mas como literatura de primeira \u00e1gua, saindo dela enriquecido. Acumula sabedoria, ao mesmo tempo em que enche sua cabe\u00e7a de mais d\u00favidas.<\/p>\n<p>Gorki se engajou mais tarde no projeto cultural stalinista, pois esse era seu tempo e seu pa\u00eds. Mas sua literatura sobreviveu porque est\u00e1 resguardada de qualquer superficialidade ou artificialismo. Ele descreve o povo sem os equ\u00edvocos de percep\u00e7\u00e3o que infletem sobre as pessoas miser\u00e1veis. Veio do ventre da velha R\u00fassia, foi chibatado quando menino, recolhia lixo junto com outras crian\u00e7as, como mostra a obra do cineasta Mark Donskoy nos anos 1930.<\/p>\n<p>Hoje, vemos como a mis\u00e9ria \u00e9 aproveitada pelo pensamento dito politicamente correto, em que a escassez \u00e9 mostrada como exce\u00e7\u00e3o a um ambiente ass\u00e9ptico. A pr\u00f3pria reportagem (com jornalistas engravatados) representa o mundo clean e justo dos bem-nascidos, enquanto a c\u00e2mara foca as paredes ro\u00eddas, os seres humanos carcomidos, as falas partidas, os rostos em p\u00e2nico. Em Gorki, o narrador faz parte da paisagem, n\u00e3o est\u00e1 acima dela, \u00e9 gerado nesse ninho. N\u00e3o h\u00e1 escape na literatura monumental do g\u00eanio.<\/p>\n<p>As universidades de Gorki s\u00e3o as pessoas. Nelas tenta decifrar os enigmas. Gente o invoca de todas as formas. Acha que est\u00e3o escondendo algo, perdem o tempo e a vida em rotinas autodestrutivas. Por toda parte onde v\u00e1, ele \u00e9 o homem que l\u00ea, que tem chance de se livrar daquelas amarras. \u00c9 tratado com pena pelos seus contempor\u00e2neos, que v\u00eaem nele o maior desperd\u00edcio da na\u00e7\u00e3o rota que a todos devora. Mas ele conseguiu se superar. N\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, do qual foi tamb\u00e9m cr\u00edtico quando achou necess\u00e1rio e da qual, dizem, talvez tenha sido uma das v\u00edtimas, pois teria sido eliminado por Stalin. Mas gra\u00e7as ao seu talento, que nos subjuga como um sol rec\u00e9m-nascido e nos leva para a grandeza da arte incompar\u00e1vel que \u00e9 a literatura de quem sabe o que faz.<\/p>\n<p>Tchecov, o mestre absoluto, quando lia Gorki, tinha vontade de dan\u00e7ar de alegria.<\/p>\n<p>(*) <em>Escritor e jornalista, autor de Outubro, No meio da rua, No mar, veremos (os tr\u00eas de poesia), Universo Baldio (romance) e O Ref\u00fagio do Pr\u00edncipe (contos e cr\u00f4nicas), escreve \u00e0s ter\u00e7as no Variedades e, aos domingos, na revista Donna do DC.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem l\u00ea M\u00e1ximo Gorki, n\u00e3o precisa ler mais nada. Algumas cenas nos deslumbram pela contund\u00eancia, pela precis\u00e3o dos detalhes, pelo fragor da narrativa, pela atualidade. 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