{"id":731,"date":"2009-12-12T22:31:00","date_gmt":"2009-12-13T00:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=731"},"modified":"2009-12-21T23:01:43","modified_gmt":"2009-12-22T01:01:43","slug":"domino-de-assombros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/domino-de-assombros","title":{"rendered":"DOMIN\u00d3 DE ASSOMBROS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O cair da tarde \u00e9 um domin\u00f3 de assombros. Colunas de fogo tombam, sob a prote\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que se desatam das correntes. O grude se desmancha e vemos a queda de uma constela\u00e7\u00e3o de anjos, rumo a um abismo de espelhos. Cai o teto que sustenta a lua transparente. Desencadeia-se uma tempestade de eventos: gaivotas que decidem emigrar, mas permanecem presas; navios cortados pelo horizonte, indecisos entre o c\u00e9u e o continente; apitos s\u00fabitos, tocados por capit\u00e3es de outros tempos; mastros embandeirados com mensagens de socorro, em lenta prociss\u00e3o diante dos impass\u00edveis morros; f\u00faria de elementos, como a onda fustigando a ostra, ou a espuma surrando os peixes.<\/p>\n<p>\u00c9 mansa essa passagem entre dois eixos, o firme estanho do sol e a morna gel\u00e9ia que anuncia a noite. Ainda \u00e9 cedo, mas a coruja antev\u00ea o sereno. Monstros abrem o olho. Estrelas invis\u00edveis fervem no cinza azulado e aguardam o breu para tocaiar o sonho. Tudo est\u00e1 atento como na v\u00e9spera do Ju\u00edzo. Ningu\u00e9m dorme a sesta de escombros. H\u00e1 um despertar de a\u00e7oites, cora\u00e7\u00f5es incertos, algas que se soltam da cabe\u00e7a. O acordo era andar, mas h\u00e1 uma pr\u00e9-estr\u00e9ia de son\u00e2mbulos. C\u00e2maras de sil\u00eancios, cavernas de molejos, \u00eaxodo de m\u00e2ntras.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel planejar qualquer coisa na tarde que se esvai, criatura em duelo terminal com seu pr\u00f3prio apogeu. \u00c9 como um susto que vira pesadelo. \u00c9 como a explos\u00e3o que acaba no vazio. \u00c9 como o desfile abandonado pela indiferen\u00e7a. Depois de atingir seu melhor momento, a tarde se derruba como adolescente. Pratica o suic\u00eddio dos amantes, que n\u00e3o suportam a gl\u00f3ria de chegar cedo ao topo. A vida \u00e9 apenas um esgar, um alento. Basta colocar a marca no presente para sair de pronto. Assim \u00e9 a tarde, m\u00e3e do crep\u00fasculo. Que choca o ovo impregnado de a\u00e7\u00facar. E gera o funeral dos dias rumo ao esquecimento.<\/p>\n<p>Talvez o entardecer seja essa not\u00edcia irrevers\u00edvel que atinge a tropa ainda mo\u00e7a, e torna o front obsoleto. \u201cAcabou a guerra\u201d seria esse aviso, que deixaria \u00e0 merc\u00ea do destino os soldados, agora sem rumo, que buscavam a gl\u00f3ria e encontram apenas um pastor em repouso. Quem estava de p\u00e9 \u00e9 tocado pelo fervor da novidade, como o rosto virgem na imagina\u00e7\u00e3o de um noivo. Nada \u00e9 real se tudo o que \u00e9 precioso acaba abandonado na pressa de se chegar longe. L\u00e1, onde cai a tarde finalmente. Lugar inacess\u00edvel, v\u00e2ndalo do Tempo, o deus que se corrompe.<\/p>\n<p>O cair da tarde \u00e9 uma avalanche. Concentrou pedras e comboios, retesou cordas e persianas, acumulou talentos, e enfim descambou, como chegam sem avisar os cabelos brancos. Na queda, levou por diante os passeios de chap\u00e9us e charretes, os namoros no cais de \u00e2mbar, os acordos embaixo da ponte. Quebrou-se a trajet\u00f3ria prudente, do sol que retesa o arco, e dispara a seta da iminente sombra. A tinta humana desperdi\u00e7ada em planos escorreu por becos e cal\u00e7adas, escura como a sorte de quem partiu para sempre.<\/p>\n<p>Foi apenas a tarde, que recolheu suas vestes, que puxou cobertores de tormenta. Deixou o mundo s\u00f3, absorto, embaixo de uma luz sem sopro. E partiu para o nada, com promessas de que voltar\u00e1 para fazer de novo a cena. Estaremos \u00e0 sua espera, imperfeitos. Quem nos dera sobreviver uma s\u00f3 vez a essa armadilha. Saber\u00edamos ent\u00e3o para onde \u00e9 sugada, a tarde e sua estrutura em p\u00e2nico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 mansa essa passagem entre dois eixos, o firme estanho do sol e a morna gel\u00e9ia que anuncia a noite. Ainda \u00e9 cedo, mas a coruja antev\u00ea o sereno. Monstros abrem o olho. Estrelas invis\u00edveis fervem no cinza azulado e aguardam o breu para tocaiar o sonho. Tudo est\u00e1 atento como na v\u00e9spera do Ju\u00edzo. Ningu\u00e9m dorme a sesta de escombros. H\u00e1 um despertar de a\u00e7oites, cora\u00e7\u00f5es incertos, algas que se soltam da cabe\u00e7a. O acordo era andar, mas h\u00e1 uma pr\u00e9-estr\u00e9ia de son\u00e2mbulos. 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