{"id":735,"date":"2009-12-12T22:32:35","date_gmt":"2009-12-13T00:32:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=735"},"modified":"2009-12-21T22:32:39","modified_gmt":"2009-12-22T00:32:39","slug":"nos-bracos-do-pai","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/nos-bracos-do-pai","title":{"rendered":"NOS BRA\u00c7OS DO PAI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Quando faltava mistura, Jonathan dos Santos, de 18 anos, sa\u00eda para ca\u00e7ar. Trazia para a m\u00e3e, Socorro, a carne silvestre abatida nos arredores de sua cidade, a Presidente Figueiredo, a 60 quil\u00f4metros de Manaus. Tinha aprendido com o pai, Ed\u00edlson, tudo sobre a selva. Foi com esse motivo e esse conhecimento que ele se embrenhou na mata e desapareceu. A busca oficial encerrou seu expediente depois de tr\u00eas dias. Mas o pai n\u00e3o desistiu e encontrou o filho depois de quase dois meses. Quando viu o pai, Jonathan, ferido e debilitado, disse: \u201cEstou em casa\u201d. E morreu.<\/p>\n<p>Disse, no fundo de sua dor e seu hero\u00edsmo: Viu, pai, resisti, como voc\u00ea me ensinou. Agora vais cuidar de mim. Pois n\u00e3o vou deixar meu corpo atirado para as feras. Sa\u00ed para ca\u00e7ar e n\u00e3o permiti que fosse ca\u00e7ado. Lutei cada dia, na solid\u00e3o sem fim deste pa\u00eds abandonado. Porque se for para morrer de fome, aqui na terra da fartura, n\u00e3o ser\u00e1 por omiss\u00e3o minha, porque eu fui \u00e0 luta. Fui buscar o que faltava em casa, para te ajudar, pai, tu que briga por mim e vieste me salvar. Pois me salvaste, pai. Agora posso descansar.<\/p>\n<p>O pai que foi em sua busca disse, no fundo: Filho, sei que est\u00e1s vivo. Que est\u00e1s rodeado de perigos, mas tamb\u00e9m de chances de sobreviv\u00eancia. Quantas vezes falamos sobre essa possibilidade? Como se deve agir quando estamos perdidos, como esticar a vida at\u00e9 al\u00e9m do limite, como perseverar. Isolados neste ermo intermin\u00e1vel, sem nenhum apoio, sem nada que nos conduza para uma vida melhor, devemos contar apenas com nossas pr\u00f3prias for\u00e7as. Porque somos resistentes, meu filho, e o pa\u00eds \u00e9 grande, hostil, mas \u00e9 nosso. Nele encontramos o necess\u00e1rio para viver. Mesmo que isso nos custe a vida.<\/p>\n<p>Nada se pode dizer diante do hero\u00edsmo do filho, o amor e a determina\u00e7\u00e3o do pai, a grandeza da briga por se manter vivo, a dor incomensur\u00e1vel da perda, a falta de recursos num lugar que deveria sobrar em tudo. Nada se pode dizer diante da m\u00e3e que viu seu filho sumir para sempre e testemunhar a insist\u00eancia do marido, que jamais perdoou o destino e nunca se deu por vencido. N\u00e3o se conformou e isso quase salvou a vida do seu filho. Foi por pouco, Ed\u00edlson, foi por pouco, Socorro, foi por pouco, Jonathan.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds em que os jovens da tua idade, Jonathan, brigam por nada, apenas por excesso; que desperdi\u00e7am vidas e se envolvem em trag\u00e9dias em troca de algumas horas de baladas; que vivem em quadrilhas, enquanto tu sa\u00eda sozinho; que perderam o respeito e a compostura e invadem ruas e bares com sua op\u00e7\u00e3o expl\u00edcita pelo mal; neste pobre pa\u00eds que abandona seus filhos e os destr\u00f3i todos os dias, foste a resist\u00eancia exemplar, Jonathan. Se n\u00e3o tem \u00e1gua, eu furo um po\u00e7o, como diz o samba imortal de Z\u00e9 K\u00e9ti. Se n\u00e3o tem carne, eu boto um osso na sopa e deixo andar.<\/p>\n<p>Esta trag\u00e9dia nos enche de vergonha, fam\u00edlia Santos. Temos vergonha de chorar. Dever\u00edamos fazer como sempre, virar o rosto para o outro lado. Mas estamos presos \u00e0 not\u00edcia, suspensos no ar diante desse drama. N\u00e3o porque seja insumo para nossa falta de assunto. Mas porque nos resgata o pa\u00eds que se foi para sempre. \u00c9 o Brasil que sai sozinho na Amaz\u00f4nia cobi\u00e7ada e mostra que l\u00e1 existem brasileiros que ningu\u00e9m enxerga. V\u00eaem apenas min\u00e9rios, biodiversidade e tudo o mais. N\u00e3o olham para o povo, que tem sobrenome herdado dos tempos em que os padres batizavam os \u00f3rf\u00e3os da guerra, colocando-os sob prote\u00e7\u00e3o de todos os santos.<\/p>\n<p>Sim, Jonathan, voc\u00ea nos revela o Brasil que insistimos em desconhecer. N\u00e3o por estares longe, na selva, mas porque est\u00e1s dentro de n\u00f3s e emerges como um n\u00e1ufrago que ainda luta para sobreviver. Queremos voltar para casa, para o pa\u00eds que amamos. Para esse pai, essa id\u00e9ia de na\u00e7\u00e3o, que enfim nos acolhe. Nossa felicidade \u00e9 t\u00e3o imensa que morremos quando ele nos encontra. Fizemos nossa parte, pai. N\u00e3o dev\u00edamos partir. Dev\u00edamos ficar, firmes, diante das amea\u00e7as. Mas o terror \u00e9 maior do que nossa capacidade de resistir.<\/p>\n<p>Talvez, se prestarmos aten\u00e7\u00e3o nos outros Jonathans, outros Edilsons, outras Socorros, poderemos descobrir o veio oculto da na\u00e7\u00e3o a qual pertencemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada se pode dizer diante do hero\u00edsmo do filho, o amor e a determina\u00e7\u00e3o do pai, a grandeza da briga por se manter vivo, a dor incomensur\u00e1vel da perda, a falta de recursos num lugar que deveria sobrar em tudo. Nada se pode dizer diante da m\u00e3e que viu seu filho sumir para sempre e testemunhar a insist\u00eancia do marido, que jamais perdoou o destino e nunca se deu por vencido. N\u00e3o se conformou e isso quase salvou a vida do seu filho. 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