{"id":737,"date":"2009-12-12T22:33:20","date_gmt":"2009-12-13T00:33:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=737"},"modified":"2009-12-21T22:40:15","modified_gmt":"2009-12-22T00:40:15","slug":"diamantes-do-acaso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/diamantes-do-acaso","title":{"rendered":"DIAMANTES DO ACASO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO que ficava no fundo, veio \u00e0 tona. O que era oculto, foi decifrado. Quem estava escondido, deixou de ser t\u00edmido. Quem guardava um tesouro, embriagou-se. Quem estocava palavras, desandou. N\u00e3o h\u00e1 mais segredos, embora persistam os mist\u00e9rios. O mundo \u00e9 um enorme div\u00e3, mas a ang\u00fastia permanece. A pobreza de esp\u00edrito implantada impede que se formem feixes de luz, ambientes habit\u00e1veis, grandezas. H\u00e1 um espalhar de ru\u00ednas. Os ventos sopram, invariavelmente, restos de uma estranha ferocidade.<\/p>\n<p>Matamos ilus\u00f5es, mas adquirimos outras. Somos uma esp\u00e9cie de microorganismos que ganham imunidade \u00e0s vacinas. Novas obsess\u00f5es andam aos pares, como almas g\u00eameas. A certeza de que nada muda convive com a caridade perform\u00e1tica: o vazio e o pessimismo geram assim seu ant\u00eddoto, as boas inten\u00e7\u00f5es. A indigna\u00e7\u00e3o passa para o pr\u00f3ximo bloco, mas o ressentimento permanece. O amor dura meia esta\u00e7\u00e3o, enquanto todos trocam juras em frente \u00e0s c\u00e2maras.<\/p>\n<p>Quem romper\u00e1 esse c\u00edrculo de ferro? A cria\u00e7\u00e3o, t\u00e3o pouco entendida. Costuma-se confundir os verbos: inventar parece id\u00eantico a imitar. J\u00e1 que \u00e9 imposs\u00edvel entender de onde vem a inspira\u00e7\u00e3o, a fonte que gera uvas, a liga que viabiliza o ninho, o visgo que transforma o ovo, ent\u00e3o se decreta o fim do enigma: basta puxar de um outro nicho a fantasia que concorre em originalidade. \u00c9 uma confus\u00e3o perversa, pois nega (e finge que confirma) o que o esp\u00edrito possui de mais genu\u00edno, que \u00e9 a capacidade de recolher trapos de espanto a rolar pelo cais.<\/p>\n<p>Destramar as redes que s\u00e3o impostas em discursos e retomar seus fios em novas combina\u00e7\u00f5es \u00e9, aparentemente, o mesmo que reinventar a roda. A diferen\u00e7a \u00e9 sutil para quem consome, mas n\u00e3o para quem se toca. \u00c9 brutal para quem assume o papel de protagonista nesse passe de m\u00e1gica. O duro \u00e9 ter optado pela cria\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o tem volta, enquanto participamos de um cruzeiro com cartas marcadas. As emo\u00e7\u00f5es baratas, fundadas em imita\u00e7\u00e3o, formam o \u00e1libi perfeito para a mediocridade triunfante, que se locupleta no Mesmo. Enquanto isso, fica \u00e0 margem a excel\u00eancia do of\u00edcio: reunir o que est\u00e1 disperso, muito mais urente do que expor as v\u00edsceras.<\/p>\n<p>Jogadas pelos cantos, viv\u00eancia e cultura compartilham o impasse provocado pelo multiuso. De tanto ver triunfar as nulidades, propriet\u00e1rias do pensamento, a desesperan\u00e7a colhe flores amargas. O que nos deslumbra fica para tr\u00e1s, ou nos engana: \u00e9 descart\u00e1vel a revela\u00e7\u00e3o que deveria transformar vidas, mas n\u00e3o dura um fim-de-semana. Perdemos a no\u00e7\u00e3o do perigo: deixamos de abra\u00e7ar o que nos habita, sob a justificativa de que nada vale a pena, j\u00e1 que nos convenceram da nossa pequenez. Ligamos bot\u00f5es e desligamos o Acaso, essa permiss\u00e3o da divindade, esse esquecimento, o n\u00e3o-lugar de onde \u00e9 poss\u00edvel renascer.<\/p>\n<p>Onde encontrar a diferen\u00e7a que provoque fa\u00edsca, onde est\u00e1 a madeira de novas fogueiras? B\u00f3iam sobre o mar os restos dessa tempestade. \u00c9 neles que encontramos sobreviv\u00eancia. Juntamos t\u00e1buas no alto da mar\u00e9, raspamos pedras sob a chuva. A intensidade da esta\u00e7\u00e3o nos provoca: \u00e9 hora de armar o dia sem medo de errar. N\u00e3o importa o que digam. Talvez nos cobrem coer\u00eancia, pose, postura. S\u00e3o armadilhas do vazio. Veja o sol, que interrompe a treva. T\u00e3o previs\u00edvel na sua semeadura de diamantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que ficava no fundo, veio \u00e0 tona. O que era oculto, foi decifrado. Quem estava escondido, deixou de ser t\u00edmido. Quem guardava um tesouro, embriagou-se. Quem estocava palavras, desandou. 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