{"id":740,"date":"2009-12-12T22:35:21","date_gmt":"2009-12-13T00:35:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=740"},"modified":"2009-12-21T22:17:58","modified_gmt":"2009-12-22T00:17:58","slug":"paz-na-diferenca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/paz-na-diferenca","title":{"rendered":"PAZ NA DIFEREN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAcho gra\u00e7a na argumenta\u00e7\u00e3o de que a Amaz\u00f4nia pertence ao planeta, e n\u00e3o ao Brasil e a alguns pa\u00edses lim\u00edtrofes. Nunca vi ningu\u00e9m dizer que o Grand Canyon \u00e9 propriedade dos franceses, por exemplo, ou que seja apenas um parque tem\u00e1tico intergal\u00e1ctico. Essencialmente americano, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que tudo l\u00e1 pertence \u00e0 bandeira estrelada. Desconfio que, ao dizerem \u201cplaneta\u201d, se referem ao Brasil. Por que n\u00e3o v\u00e3o cuidar da Sib\u00e9ria? Criem l\u00e1 uma boa reserva, gerida internacionalmente. Se os russos reclamarem, denunciem a desertifica\u00e7\u00e3o das estepes. Eles nem vivem l\u00e1, se amontoam em Moscou e Petrogrado, por que querem ser donos daquele monte de neve?<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de fronteiras assegura o tr\u00e2nsito pac\u00edfico dos povos. Ao contr\u00e1rio do que diz a propaganda, o mundo com fronteiras \u00e9 que pode se dar o luxo de ser uma comunidade internacional. Sem elas, \u00e9 a terra de ningu\u00e9m, como acontecia antes das intermin\u00e1veis guerras que definiram as linhas divis\u00f3rias dos pa\u00edses. Uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o, uma s\u00f3 moeda: essa id\u00e9ia j\u00e1 est\u00e1 fazendo \u00e1gua na Europa, modelo de conviv\u00eancia fundada na casa da sogra, onde qualquer um tem acesso ao que a popula\u00e7\u00e3o levou s\u00e9culos para construir.<\/p>\n<p>Os irlandeses deram um sonoro N\u00e3o num plebiscito recente. \u00c9 costume o plebiscito ser a mais soberana das elei\u00e7\u00f5es. \u00c9 quando o povo mostra, preto no branco, o que realmente pensa e quer. E se existe algu\u00e9m que se preocupa com a terra onde vive, esse algu\u00e9m \u00e9 o cara confinado na pr\u00f3pria nacionalidade. Ele n\u00e3o possui recursos para viajar at\u00e9 os confins. Acostumou-se por gera\u00e7\u00f5es a resolver seus conflitos, escudado em par\u00e2metros como a l\u00edngua, a mem\u00f3ria, a casa, o bairro, a aposentadoria. Tir\u00e1-lo de l\u00e1 n\u00e3o significa libert\u00e1-lo, j\u00e1 que o nacionalismo n\u00e3o \u00e9 uma jaula, mesmo que n\u00e3o seja encarado como uma virtude.<br \/>\nO povo sabe o quanto custou de sangue cada retalho do territ\u00f3rio outrora conflagrado. Conhece, pelo relato dos ancestrais, o esfor\u00e7o para configurar o que chamam de um pa\u00eds. H\u00e1 exemplos de sobra que, sem isso, n\u00e3o h\u00e1 nada. Etnias sem p\u00e1tria rolam pelos campos de refugiados. Pa\u00edses artificiais se esfacelam em guerras civis. Na\u00e7\u00f5es fundamentalistas s\u00e3o invadidas. Ditaduras se sucedem pesando a m\u00e3o sobre fronteiras mutantes.<\/p>\n<p>S\u00f3 existe paz quando as fronteiras est\u00e3o consolidadas. O Tratado de Versalhes, que humilhou a Alemanha e movimentou as linhas divis\u00f3rias no cora\u00e7\u00e3o da Europa retalhada pela Primeira Guerra, resultou na invas\u00e3o total dos pa\u00edses em conflito. Por isso n\u00e3o adianta sonhar com a paz se houver esse esgar\u00e7amento das linhas divis\u00f3rias, uma fragilidade denunciada inclusive pela constru\u00e7\u00e3o de muros, como acontece entre M\u00e9xico e Estados Unidos. Quando n\u00e3o h\u00e1 garantia de fronteiras, instala-se a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Existem fronteiras que s\u00e3o cicatrizes de conflitos insol\u00faveis, como a que separa as duas Cor\u00e9ias. Mas h\u00e1 outras, definidas por \u00e1guas comuns, como a existente entre n\u00f3s e a Argentina; e as que oferecem apenas alguns marcos para determinar o espa\u00e7o de cada na\u00e7\u00e3o, como a longa divisa entre o Uruguai e o Brasil. Uma correnteza dividida virtualmente ao meio, ou uma pedra pintada de branco, com alguns n\u00fameros inscritos nela, perdida no ermo, fazem parte do patrim\u00f4nio de povos que convivem e se respeitam. Esse \u00e9 o mais alto grau da civiliza\u00e7\u00e3o humana. Est\u00e1 acima das ilus\u00f5es ditas integradoras, as que substituem a cidadania bem resolvida pela voragem das crises.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 existe paz quando as fronteiras est\u00e3o consolidadas. O Tratado de Versalhes, que humilhou a Alemanha e movimentou as linhas divis\u00f3rias no cora\u00e7\u00e3o da Europa retalhada pela Primeira Guerra, resultou na invas\u00e3o total dos pa\u00edses em conflito. Por isso n\u00e3o adianta sonhar com a paz se houver esse esgar\u00e7amento das linhas divis\u00f3rias, uma fragilidade denunciada inclusive pela constru\u00e7\u00e3o de muros, como acontece entre M\u00e9xico e Estados Unidos. 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