{"id":745,"date":"2009-12-12T22:46:53","date_gmt":"2009-12-13T00:46:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=745"},"modified":"2009-12-21T22:19:06","modified_gmt":"2009-12-22T00:19:06","slug":"improviso-na-obra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/improviso-na-obra","title":{"rendered":"IMPROVISO NA OBRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDobrar o ferro em quadradinhos, para que, alinhados, sirvam de espinha dorsal para a coluna de concreto, \u00e9 uma arte desenvolvida com poucos recursos. Primeiro, coloca-se duas escoras de madeira em forma de T fincadas no ch\u00e3o. Entre elas, estende-se uma t\u00e1bua qualquer, que tenha alguns pregos lado a lado, desde que n\u00e3o formem uma fileira regular. Essa falta de alinhamento dos pregos \u00e9 que vai fixar a barra de ferro colocada em cima da t\u00e1bua. Pega-se ent\u00e3o um cano de metal amassado na ponta, de tal forma que tenha uma abertura bem apertada. Isso permite que a fina barra de ferro seja capturada na extremidade t\u00e3o estreita quanto um l\u00e1pis. O cano serve de alavanca para ir entortando o ferro ao gosto da obra.<\/p>\n<p>Trata-se de um torno bem brasileiro. As t\u00e1buas est\u00e3o gastas e cheias de cracas de tanto uso. Os pregos, claro, enferrujados. Mas o servi\u00e7o sai direito. O pr\u00f3ximo passo \u00e9 concretar as seis colunas. Para evitar excesso de custos, compra-se apenas a metade das t\u00e1buas, novas e retas, para construir tr\u00eas recipientes. Neles, coloca-se o cimento misturado \u00e0 argamassa e brita. Introduz-se a composi\u00e7\u00e3o de ferro em quadradinhos, sa\u00edda do torno improvisado, desde que as pontas do ferro se sobressaiam na extremidade da futura coluna.<\/p>\n<p>Deixa-se ent\u00e3o o material secar e tomar aquela consist\u00eancia indestrut\u00edvel. Retira-se depois as t\u00e1buas para fazer as colunas restantes. As seis v\u00e3o segurar um telhado e para isso \u00e9 preciso furar com precis\u00e3o milim\u00e9trica as grossas toras de madeira que v\u00e3o sustentar a armadura do teto. Nesses furos v\u00e3o entrar, sem que nada fique torto, as pontas de ferro deixadas de prop\u00f3sito para fora das colunas. \u201cSe tivesse medido n\u00e3o daria t\u00e3o certo\u201d me diz o pedreiro-chefe. Trata-se de um blefe. Ele mediu tudo, mas tem raz\u00e3o quanto ao feeling: n\u00e3o basta o sistema decimal, \u00e9 preciso saber intervir no lugar exato para que n\u00e3o haja problemas.<\/p>\n<p>A m\u00e3o-de-obra brasileira na constru\u00e7\u00e3o civil, cada vez mais escassa pelo excesso de demanda, est\u00e1 sendo treinada nos padr\u00f5es internacionais e de qualidade. Mas nas pequenas reformas, onde os contratos apalavrados levantam in\u00fameras edifica\u00e7\u00f5es, ainda vigora o improviso e a criatividade. \u00c9 essa percep\u00e7\u00e3o flex\u00edvel, de tirar o m\u00e1ximo do m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es, que deslumbra empregadores estrangeiros, acostumados \u00e0 rigidez e \u00e0s exig\u00eancias dos oper\u00e1rios de outros pa\u00edses. O Brasil foi feito no muque e temos s\u00e9culos de uma cultura que se apropria e transmite, pelas gera\u00e7\u00f5es afora, solu\u00e7\u00f5es cevadas na escassez.<\/p>\n<p>No fundo, \u00e9 um pa\u00eds em obras. Nas casas de material de constru\u00e7\u00e3o, sempre lotadas, temos variados perfis de compradores, que manifestam suas personalidades logo quando entram. Quem vem atr\u00e1s de areia , tijolo ou telha chega pisando duro, batendo a porta do carro, espalhando os p\u00e9s por todos os lados e exigindo, s\u00f3 com os gestos, prefer\u00eancia e atendimento imediato. Quem tem d\u00favidas sobre o nome das ferramentas, p\u00f3rticos, detalhes, exibe o ar de interroga\u00e7\u00e3o que faz de cada atendente um especialista em psicologia mineral.<\/p>\n<p>Em geral, h\u00e1 um clima de identifica\u00e7\u00e3o e curiosidade nessas popula\u00e7\u00f5es que afloram nos balc\u00f5es do ramo. H\u00e1 euforia da realiza\u00e7\u00e3o. O fato de fazer acontecer algo numa na\u00e7\u00e3o que precisa tanto de trabalho, com tanto a construir, une propriet\u00e1rios e trabalhadores de obras. \u00c9 o Brasil que anda enquanto os donos do pa\u00eds perdem tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00e3o-de-obra brasileira na constru\u00e7\u00e3o civil, cada vez mais escassa pelo excesso de demanda, est\u00e1 sendo treinada nos padr\u00f5es internacionais e de qualidade. 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