{"id":748,"date":"2009-12-12T23:09:52","date_gmt":"2009-12-13T01:09:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=748"},"modified":"2009-12-21T22:14:10","modified_gmt":"2009-12-22T00:14:10","slug":"arte-afora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/arte-afora","title":{"rendered":"ARTE AFORA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Lidergrama \u00e9 a charada que se decifra para se chegar ao poema. As letras dos versos escondidos eram tiradas a esmo de uma dan\u00e7a de palavras. A descoberta da resposta exata nascia da consulta de pilhas de exemplares Lello, aquele dicion\u00e1rio que escoltava a cabeceira de meus pais nas noites intermin\u00e1veis de inverno. Com capa cor de vinho, o roteiro seguro da l\u00edngua indicava o sin\u00f4nimo adequado, o sinal mais evidente, o significado oculto de tantas perguntas que se somavam nas edi\u00e7\u00f5es do sagrado jornal de domingo.<\/p>\n<p>Vendo assim, de \u00f3culos pendurados no rosto cheio de concentra\u00e7\u00e3o, quando pass\u00e1vamos em dire\u00e7\u00e3o ao nosso quarto, nos parecia que ali existia algo misterioso. N\u00e3o pela charada em si, mas pela alegria serena, renovada toda semana, de chegar enfim \u00e0s estrofes que coroavam o esfor\u00e7o. Sobre grandes travesseiros, minha m\u00e3e palmilhava os segredos propostos sem pedir ajuda a ningu\u00e9m, pois a gra\u00e7a era enfrentar com poucas armas a dificuldade prazerosa, que enfim se consumava na solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Longe dali, eu ainda convivia, na lembran\u00e7a, com aquela cena, quando comecei a publicar os primeiros poemas na imprensa da capital, exatamente na empresa que despachava o Lidergrama para a fronteira havia d\u00e9cadas. Num daqueles domingos, a composi\u00e7\u00e3o da resposta revelou para a m\u00e3e ainda incr\u00e9dula, uma das poesias que sa\u00edram do meu caderno para a multiplica\u00e7\u00e3o editorial.<\/p>\n<p>Foi a conflu\u00eancia de duas artes por inumer\u00e1veis rotas. A mais \u00f3bvia \u00e9 entre m\u00e3e e filho que se encontram sem aviso, surpresos do abra\u00e7o que elimina dist\u00e2ncias. Mas h\u00e1 outras. Especialmente a comunh\u00e3o das artes que sustentam a vida. Ambos nos encant\u00e1vamos com as palavras. At\u00e9 hoje guardo suas cartas, escritas com uma sinceridade que n\u00e3o era comum nas conversas ao vivo e que adquiriam o tom melanc\u00f3lico e comovente das situa\u00e7\u00f5es eternas.<\/p>\n<p>Ela tinha o dom e procurava, no exerc\u00edcio das charadas, intensificar essa sintonia fina entre trajet\u00f3ria pessoal e sonho, pela larga estrada do verbo impresso. Os livros a acompanhavam desde menina, quando era colocada, aos gritos, para debaixo da cama pela fam\u00edlia assustada com revolu\u00e7\u00e3o nos dif\u00edceis anos 1920; e quando era a colegial brilhante que completou a forma\u00e7\u00e3o em Porto Alegre. A literatura fazia parte dela quando, noiva, posava ao lado do elegante c\u00f4njuge de fino bigode e olhar sedutor; e quando, m\u00e3e orgulhosa, levantava seus filhos rec\u00e9m nascidos nos bra\u00e7os, como se fossem ta\u00e7as de muitas vit\u00f3rias. A consolava quando assumia o papel de preocupada vigilante dos estudos que se espalhavam por toda a casa. Temperava sua conversa quando cumpria a fun\u00e7\u00e3o de educada anfitri\u00e3 na mesa farta, diante das visitas e rodeada de seus rebentos.<\/p>\n<p>Lendo, e, eventualmente, escrevendo, foi a senhora s\u00e9ria que sofria com desvios de rumos dos mais rebeldes; e por fim a anci\u00e3 precoce, de grossos \u00f3culos, mergulhada em len\u00e7\u00f3is e pap\u00e9is quando tinha algo a resolver nos cadernos dominicais. Todas essas personas cultivavam a arte lend\u00e1ria das mulheres desta na\u00e7\u00e3o hoje em farrapos, que ela ajudou a construir com a paci\u00eancia e a for\u00e7a de seus bra\u00e7os e com a do\u00e7ura do seu grande cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem eu saber, essa era a arte que sempre me inspirou na hora de ler ou escrever. A fonte n\u00e3o era apenas a paisagem natural da terra lisa que se estendia at\u00e9 tocar o c\u00e9u, no horizonte molhados pelo rio que separa na\u00e7\u00f5es, mas que une abismos. Brotava principalmente daqueles gestos que fecundavam sem exigir retorno, que protegiam porque essa era a miss\u00e3o, e que nos projetavam para frente porque esse era seu desejo.<\/p>\n<p>Arte afora, a vida que levamos \u00e9 esse mar formado por quem nos gerou e criou. Fomos adotados por Deus quando nascemos de seu ventre. Fomos sonhados antes de nascer. Palavras, no fundo, s\u00e3o os recipientes onde o orvalho familiar pousa o bico de beija-flor. Sorvemos aos goles a heran\u00e7a que nos garante o v\u00f4o.<\/p>\n<p>As palavras de nada serviriam se n\u00e3o lut\u00e1ssemos com elas para chegarmos ao poema. Assim como de nada serviria esta passagem sobre a terra n\u00e3o fosse a percep\u00e7\u00e3o de que somos parte de algo maior, que nos transcende, como um raio de sol depois do vendaval.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela tinha o dom e procurava, no exerc\u00edcio das charadas, intensificar essa sintonia fina entre trajet\u00f3ria pessoal e sonho, pela larga estrada do verbo impresso. Os livros a acompanhavam desde menina, quando era colocada, aos gritos, para debaixo da cama pela fam\u00edlia assustada com revolu\u00e7\u00e3o nos dif\u00edceis anos 1920; e quando era a colegial brilhante que completou a forma\u00e7\u00e3o em Porto Alegre. A literatura fazia parte dela quando, noiva, posava ao lado do elegante c\u00f4njuge de fino bigode e olhar sedutor; e quando, m\u00e3e orgulhosa, levantava seus filhos rec\u00e9m nascidos nos bra\u00e7os, como se fossem ta\u00e7as de muitas vit\u00f3rias. A consolava quando assumia o papel de preocupada vigilante dos estudos que se espalhavam por toda a casa. 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