{"id":752,"date":"2009-12-12T23:12:00","date_gmt":"2009-12-13T01:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=752"},"modified":"2009-12-21T22:27:23","modified_gmt":"2009-12-22T00:27:23","slug":"o-destino-nao-e-humano","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-destino-nao-e-humano","title":{"rendered":"O DESTINO N\u00c3O \u00c9 HUMANO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 lugar para a mem\u00f3ria numa terra em desencanto. Tudo o que for lembrado soa como se fosse de outro mundo. Xerifes desarmados, por exemplo. Ou fac\u00ednoras previs\u00edveis em crimes sob controle. Dinheiro e drogas rompem os limites do humano e abrem as comportas de algo al\u00e9m do drama: o fim da esp\u00e9cie, a fase terminal da vida que imperou por tanto tempo.<\/p>\n<p>Para encarnar o Mal que assombra a rotina da paisagem aparentemente imut\u00e1vel do deserto texano, foi escolhido um ator espanhol, Javier Bardem, ou seja, um alien\u00edgena que inicia a persegui\u00e7\u00e3o no \u00faltimo reduto da Am\u00e9rica tradicional. No lugar onde at\u00e9 o gado tinha alguma chance quando havia apenas abate e n\u00e3o exterm\u00ednio, as pistas n\u00e3o fazem sentido, a brutalidade n\u00e3o cabe nas celas. O destino, que se refugia no sonho, abre m\u00e3o para uma outra natureza. Ele deixa de ser humano e se transforma numa cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma seq\u00fc\u00eancia capital de No country for old men, dos Irm\u00e3os Cohen, que no Brasil ganhou o improv\u00e1vel t\u00edtulo de \u201cOnde os fracos n\u00e3o t\u00eam vez\u201d (o que bate com a velha tend\u00eancia nada-a- ver tipo \u201cOs brutos tamb\u00e9m amam\u201d, para o filme Shane, ou \u201cAssim caminha a humanidade\u201d, para Giant, ambos de George Stevens). \u00c9 quando o fac\u00ednora persegue o texano, interpretado por Josh Brolin, na fronteira com o M\u00e9xico. O assassino n\u00e3o mostra a cara o tempo todo. Os espectadores j\u00e1 est\u00e3o impregnados de sua presen\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 mais o que mostrar, a n\u00e3o ser suas a\u00e7\u00f5es, seus impactos na v\u00edtima em fuga. As balas se sucedem por todo o lado, arrancando p\u00e2nico e sangue. O rosto animal n\u00e3o aparece, mas somos tomados pelo terror.<\/p>\n<p>Isso se chama cinema. O melhor de tudo \u00e9 que os diretores n\u00e3o caem nas armadilhas fake de quem pretende fazer filme noir. Ningu\u00e9m fuma o tempo todo para dizer que estamos nos anos 80. O claro-escuro, que parece ser fruto de um processo de coloriza\u00e7\u00e3o em cima do preto-e-branco, \u00e9 feito de sombras e de c\u00e2maras que capturam de longe as tramas da persegui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos lembra \u201cah, isso parece anos 40 ou 50\u201d. Nada disso. \u00c9 s\u00e9culo 21 mesmo, da t\u00e9cnica apurada, da explos\u00e3o de recursos visuais que jamais sufocam a quem assiste, ao contr\u00e1rio, nos invocam, nos atraem para a tenta\u00e7\u00e3o de ver o que parece sempre obscuro, confuso, irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assistimos \u00e0 revelia da realiza\u00e7\u00e3o, da obra. O filme n\u00e3o se entrega como um filho da m\u00e3e para quem est\u00e1 preso na cadeira, tomado de p\u00e2nico diante do que v\u00ea. Os acontecimentos nos escapam, como se f\u00f4ssemos obrigados a tamb\u00e9m entrar numa esp\u00e9cie de persegui\u00e7\u00e3o. Nosso olhar pergunta: o que est\u00e1 acontecendo? Esse serial killer foi contratado pela m\u00e1fia que teve preju\u00edzo na transa\u00e7\u00e3o do deserto? Esse texano, \u00e9 mau? Ou \u00e9 um ca\u00e7ador comum, um pobre bicho qualquer, que s\u00f3 estava no local do crime por acaso?<\/p>\n<p>Perguntamos para n\u00e3o perdermos o fio da hist\u00f3ria, que se desenrola sem piedade. Sabemos que tudo desaguar\u00e1 em mais trag\u00e9dia. N\u00e3o temos ilus\u00e3o de algo acabar\u00e1 bem. O destino, encarnado no bruto cerebral e s\u00e1dico, n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o aos nossos apelos. Vai se consumando, como naufr\u00e1gio previsto pelas blasf\u00eamias. Somos ent\u00e3o atirados no meio de uma prociss\u00e3o de horrores, sem jamais nos perguntar o que estamos fazendo ali. Sabemos que n\u00e3o perdemos tempo ao assistir o filme. Porque tudo o mais \u00e9 desperd\u00edcio a n\u00e3o ser ver o cinema de verdade, t\u00e3o raro nesta \u00e9poca de vazio.<\/p>\n<p>N\u00e3o sa\u00edmos habitados da obra, pois ela n\u00e3o faz parte da cultura, da emo\u00e7\u00e3o, ou da arte. \u00c9 algo maior. \u00c9 como se uma bomba de plasma explodisse no nosso nariz. \u00c9 como se Van Gogh fosse o pesadelo dos mais cru\u00e9is desenhos de Goya. \u00c9 como se o mundo fosse um cen\u00e1rio de sombras, a solid\u00e3o nossa \u00fanica realidade, o assassinato a \u00fanica ocupa\u00e7\u00e3o, o medo a \u00fanica miss\u00e3o. Sonhamos, sim, com um mundo melhor. Mas \u00e9 presun\u00e7\u00e3o nossa, como diz o personagem visitado no final pelo velho xerife, interpretado por Tommy Lee Jones, querer que as coisas n\u00e3o aconte\u00e7am dessa maneira.<\/p>\n<p>Esta tudo escrito, n\u00e3o apenas no romance original de Cormac McCarthy. Est\u00e1 escrito na neve da montanha misturada aos cascos dos cavalos exaustos. Est\u00e1 escrito na mesa do caf\u00e9 frio e intrag\u00e1vel da casa em ru\u00ednas. Est\u00e1 escrito neste incompar\u00e1vel cinema impiedoso, que os americanos fazem para nos assustar. N\u00f3s, que pertencemos a um sonho feliz de universo, somos chamados \u00e0s falas pelos artistas de um povo mutante, fruto de sobrviv\u00eancias ancestrais de mortes em massa e que nos preparam diante do que h\u00e1 por vir. E vir\u00e1, essa avalanche de coisas que s\u00f3 Deus, dizemos n\u00f3s, \u00e9 capaz de segurar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma seq\u00fc\u00eancia capital de No country for old men, dos Irm\u00e3os Cohen, que no Brasil ganhou o improv\u00e1vel t\u00edtulo de \u201cOnde os fracos n\u00e3o t\u00eam vez\u201d . \u00c9 quando o fac\u00ednora persegue o texano, interpretado por Josh Brolin, na fronteira com o M\u00e9xico. O assassino n\u00e3o mostra a cara o tempo todo. Os espectadores j\u00e1 est\u00e3o impregnados de sua presen\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 mais o que mostrar, a n\u00e3o ser suas a\u00e7\u00f5es, seus impactos na v\u00edtima em fuga. As balas se sucedem por todo o lado, arrancando p\u00e2nico e sangue. O rosto animal n\u00e3o aparece, mas somos tomados pelo terror.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/752"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=752"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/752\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1720,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/752\/revisions\/1720"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}