{"id":758,"date":"2009-12-12T23:14:45","date_gmt":"2009-12-13T01:14:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=758"},"modified":"2009-12-21T22:09:19","modified_gmt":"2009-12-22T00:09:19","slug":"galo-inventa-a-manha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/galo-inventa-a-manha","title":{"rendered":"GALO INVENTA A MANH\u00c3"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Ref\u00e9m da madrugada, o galo forja a brasa da manh\u00e3. Seu canto, lance solit\u00e1rio, rasga a paisagem. O esfor\u00e7o trava na garganta exausta. Cercada pela indiferen\u00e7a, a sentinela se alimenta de d\u00favidas. \u00c9 um mist\u00e9rio que ainda se entregue ao of\u00edcio. Poderia abaixar a crista e insistir no sonho, mas prefere ser garimpeiro de brita. Romper os dias que nascem escuros nas promessas, se transformar num adivinho de tocaias, enfrentar p\u00e2nicos amea\u00e7ados por ciclones, molhar-se em s\u00fabitas tempestades. Nem sempre o ano tem a sorte de ser maio.<\/p>\n<p>O galo \u00e9 a impaci\u00eancia que vem a furo. N\u00e3o confia, n\u00e3o desiste, n\u00e3o delega. Ignora as luzes artificiais que tentam mascarar o tombo do abismo sobre o mundo. N\u00e3o deixa que permane\u00e7a impune a mudan\u00e7a do dia para o po\u00e7o que torna a cria\u00e7\u00e3o indistinta. Tudo se confunde ao redor. H\u00e1 submiss\u00e3o, enquanto se instala a certeza de que n\u00e3o veremos mais a separa\u00e7\u00e3o entre o morro e a lua, a r\u00e3 e a coruja. Quando tudo dorme, \u00e9 comum perder a esperan\u00e7a, acostumar-se ao luxo de esquecer.<\/p>\n<p>Talvez seja a mem\u00f3ria que torne o galo prematuro. Ele se recorda e arrisca uma conversa com o destino, num jogo mortal de cabra-cega. Os duendes ocultos repetem hist\u00f3rias de assombra\u00e7\u00e3o, tentando dobrar o teimoso. H\u00e1 um desespero no peito, que vomita a insubordina\u00e7\u00e3o. Ainda \u00e9 cedo, no entanto. O breu n\u00e3o sucumbe ao primeiro intruso.<\/p>\n<p>O galo torce o quebranto, ensina a sobreviv\u00eancia. Ele se espicha, cisca o que tem de mais fundo, se supera. E aos poucos vai acostumando o ambiente \u00e0 batida do seu pulso, que pressiona a vig\u00edlia. Cria curiosidade entre os vivos, que torcem para ver quem ganha. No duelo desigual, a tampa noturna luta de um lado. No outro, o cantar do galo ganha ritmo, e aos poucos orquestra o ouvido adormecido da multid\u00e3o, faminta de luz.<\/p>\n<p>Quando convence que \u00e9 poss\u00edvel erradicar a cortina de grosso veludo, opera-se o milagre. Os p\u00e1ssaros s\u00e3o os primeiros a ouvir. E depois que os ninhos s\u00e3o abandonados em favor do v\u00f4o e do sopro, tudo pode acontecer. At\u00e9 mesmo o sol, que tinha desistido de nos assistir, e partia para outras paragens, volta a espiar.<\/p>\n<p>O sol \u00e9 apaixonado pela ilha, mas, amante ingrato, abandona a cama depois do crep\u00fasculo. S\u00f3 mesmo o canto do galo para p\u00f4-lo de sobreaviso, reverter sua decis\u00e3o de ir embora. O galo o convence que a ilha \u00e9 o seu est\u00fadio. E que sempre \u00e9 poss\u00edvel resgatar a arte, mesmo que haja o perigo do transe f\u00e1cil, a emo\u00e7\u00e3o fl\u00e1cida, a comunh\u00e3o amarga.<\/p>\n<p>O galo ensina o sol. Fala da contund\u00eancia da miss\u00e3o a que foram destinados. Mostra a praia, a tela do mar e seu m\u00faltiplo azul, seu verde indeciso. Esmeraldas e violetas v\u00e3o desfiando a manh\u00e3 agora ensolarada. O galo ent\u00e3o se recolhe \u00e0 sua faina matinal. Debulha o trigo, ro\u00e7a as nuvens, planta figo. Deita depois, quando a tarde desce em dire\u00e7\u00e3o aos navios.<\/p>\n<p>Na noite seguinte, abre o olho, alarmado, e pergunta o que nem a Lua sabe responder. Esse enigma, o escuro, o coloca novamente em guarda. Lan\u00e7a de novo o primeiro grito. Prevendo o desenlace, a madrugada treme de pavor. Ela sabe.<\/p>\n<p>O galo puxa o dia n\u00e3o como um fardo, mas como a nota musical que nos conduz \u00e0 liberdade. N\u00e3o como h\u00e1bito, mas como descoberta. N\u00e3o como aventura, mas como lastro. \u00c9 dia porque algu\u00e9m se insurge. \u00c9 de manh\u00e3, porque soou o alarme.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O galo torce o quebranto, ensina a sobreviv\u00eancia. Ele se espicha, cisca o que tem de mais fundo, se supera. E aos poucos vai acostumando o ambiente \u00e0 batida do seu pulso, que pressiona a vig\u00edlia. Cria curiosidade entre os vivos, que torcem para ver quem ganha. No duelo desigual, a tampa noturna luta de um lado. 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