{"id":760,"date":"2009-12-12T23:15:37","date_gmt":"2009-12-13T01:15:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=760"},"modified":"2009-12-21T22:10:08","modified_gmt":"2009-12-22T00:10:08","slug":"silencio-de-fogo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/silencio-de-fogo","title":{"rendered":"SIL\u00caNCIO DE FOGO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>A narrativa objetiva, enxuta, precisa, sem nenhuma emo\u00e7\u00e3o, descrevendo algo brutal, arrebatador, sinistro, \u00e9 o contraponto genial criado por grandes escritores a partir de Cervantes e que chegou ao \u00e1pice na obra autobiogr\u00e1fica de M\u00e1ximo Gorki. Esse achado, que se op\u00f5e \u00e0 exaust\u00e3o dos truques ilusionistas, se estendeu a Kafka e, despido de toda indument\u00e1ria poss\u00edvel, at\u00e9 Dalton Trevisan. \u00c9 ainda uma solu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria radicalmente nova, fora das prefer\u00eancias pelo palavreado arrastado, pomposo, excessivo, expl\u00edcito.<\/p>\n<p>Arrancar o cora\u00e7\u00e3o na hora de escrever ou declamar \u00e9 o expediente mais corriqueiro dos que ainda imaginam a literatura ref\u00e9m das entrelinhas, como alma chorona presa na torre. \u00c9 um v\u00edcio que n\u00e3o enxerga a linguagem como criatura e a confunde com emo\u00e7\u00f5es baratas. Quando as inten\u00e7\u00f5es contaminam a obra, derramando-se para fora da p\u00e1gina e expressando a grandiloq\u00fc\u00eancia, fica claro que o excesso \u00e9 pura vaidade. Costuma arrancar aplausos. \u00c9 o d\u00f3 de peito da palavra, que nunca sai da moda.<\/p>\n<p>O dif\u00edcil \u00e9 simplesmente abrir m\u00e3o do que achamos ser nossa humanidade e compor um texto, um poema em que a lan\u00e7a incisiva do talento cutuca a realidade, reproduzindo sua aparente indiferen\u00e7a, a frieza, a voragem infind\u00e1vel de tempos e imp\u00e9rios. \u00c9 preciso mais do que humildade (que costuma ser o \u00e1libi perfeito da arrog\u00e2ncia dos bem-postos). Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de anular-se, j\u00e1 que o narrador continua ativo, dominando o espet\u00e1culo. O que precisa ser feito \u00e9 n\u00e3o atribuir \u00e0 palavra mais do que ela pode suportar.<\/p>\n<p>Palavra \u00e9 osso antigo que virou pedra, \u00e9 \u00e1rvore impass\u00edvel em dia de morma\u00e7o. As palavras n\u00e3o gemem ou choram nem fazem confiss\u00f5es, como ensinava o \u00e1rcade virtual Alberto Caieiro quando se referia aos rios (no fundo, \u00e0 palavra \u201crios\u201d). O verbo, apesar de divinizado no universo b\u00edblico, \u00e9 coisa terrena, feito de detalhes, entona\u00e7\u00f5es, saliva, roncos. Vibra por acaso como peda\u00e7o de papel grudado nas ru\u00ednas do deserto, em plena ventania. N\u00e3o tem utilidade, j\u00e1 que a vida prosaica \u00e9 dominada pela for\u00e7a e n\u00e3o pelo discurso.<\/p>\n<p>\u00c9 dispens\u00e1vel em fotos, acenos, beijos, socos, saltos, chutes. Ningu\u00e9m precisa da palavra quando se entrega a qualquer a\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, como chorar, respirar, suar. Foi inventada pela voca\u00e7\u00e3o de querermos dominar tudo no grito. Ao criar uma palavra para cada coisa, substitu\u00edmos as coisas pelas palavras, como notou Michel Foucault. Crescemos ent\u00e3o num mundo de frases, textos, versos, atirados por todo canto.<\/p>\n<p>As palavras perderam a for\u00e7a pelo excesso de sentido que transferimos para elas. Mas a solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi encontrada. Basta render-se ao que a palavra \u00e9 de fato, um ovo esquecido no ninho depois do furac\u00e3o. L\u00e1 est\u00e1 ela, perdida de si mesma, a brilhar com a possibilidade da fecunda\u00e7\u00e3o. O escritor a toca pelas pontas, para n\u00e3o quebr\u00e1-la. Coloca-a contra a luz para enxergar o estado em que se encontra. E a deposita de volta, sem fazer ru\u00eddo.<\/p>\n<p>Os mestres s\u00e3o pastores ascetas que descansam ao crep\u00fasculo depois de apascentar o dia inteiro. \u00c9 quando aguardam a noite, que \u00e9 o momento em que abrimos os seus livros. O escritor que n\u00e3o se esparrama, nem se entrega, aprende a nos revelar o oculto, usando as palavras no que elas t\u00eam de espessura e carne viva. Em absoluto sil\u00eancio, fabrica fogo, fazendo fric\u00e7\u00e3o entre granito e eternidade. Essa quietude nos surpreende porque n\u00e3o exp\u00f5e inutilmente seu acervo de assombros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As palavras perderam a for\u00e7a pelo excesso de sentido que transferimos para elas. Mas a solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi encontrada. Basta render-se ao que a palavra \u00e9 de fato, um ovo esquecido no ninho depois do furac\u00e3o. L\u00e1 est\u00e1 ela, perdida de si mesma, a brilhar com a possibilidade da fecunda\u00e7\u00e3o. O escritor a toca pelas pontas, para n\u00e3o quebr\u00e1-la. Coloca-a contra a luz para enxergar o estado em que se encontra. 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