{"id":763,"date":"2009-12-12T23:18:29","date_gmt":"2009-12-13T01:18:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=763"},"modified":"2009-12-21T21:58:54","modified_gmt":"2009-12-21T23:58:54","slug":"o-fino-da-prosa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-fino-da-prosa","title":{"rendered":"O FINO DA PROSA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Escrever literatura \u00e9 um duelo de punhais num territ\u00f3rio dominado pela p\u00f3lvora. A desvantagem \u00e9 enorme: n\u00e3o h\u00e1 sobreviv\u00eancia aparente para uma arte de armas brancas diante da capacidade do fogo inimigo. O confronto retrocede at\u00e9 a arena mais oculta, pois se trata de manter viva essa esgrima de l\u00e2minas curtas (letra, s\u00edlaba, palavra), que exige suor e provoca ferimentos. \u00c9 manter a sobrevida num condenado, suportando o conv\u00edvio desigual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 complexa cadeia de explos\u00f5es em volta &#8211; a ind\u00fastria cultural e os c\u00e2nones, os lan\u00e7amentos fulgurantes e a reprodu\u00e7\u00e3o infinita dos mesmos, a percep\u00e7\u00e3o viciada e indevass\u00e1vel, a leitura recorrente e o desprezo aos que procuram emergir de alguma forma.<em><\/p>\n<p><\/em><\/p>\n<p>Ou o escritor se recolhe e imagina a luta, sabendo que n\u00e3o vai derrotar a for\u00e7a que o exclui, ou sai a campo e encontra o deserto. Mesmo que autor seja imediatamente reconhecido, como \u00e9 o caso de Tony Monti, que foi celebrado j\u00e1 no seu livro de estr\u00e9ia, O Mentiroso (7letras, 2003), vencedor do projeto Nascente, da Universidade de S\u00e3o Paulo em 2002. O impulso inicial vale , mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. N\u00e3o temos, no Brasil, ventos favor\u00e1veis constantes para que os talentos possam cumprir destinos e voca\u00e7\u00f5es. Vivemos em espasmos, em premiados que caem no esquecimento, em aplausos que o tempo cobre. Depende do autor seguir adiante e \u00e9 o que Tony Monti consegue fazer, mesmo agora, desarmado do apoio inicial, quando chega ao seu segundo livro, O menino da rosa (Hedra, 46 p\u00e1ginas).<\/p>\n<p>Tony traz embutida uma postura pessoal que reflete o da sua gera\u00e7\u00e3o (ele est\u00e1 chegando aos 30 anos): as concess\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o importantes. N\u00e3o fazer concess\u00f5es \u00e9 o lugar comum mais desmoralizado depois do rev\u00e9s sofrido pelas utopias. N\u00e3o significa que os escritores agora aceitem a derrota, e tenham desistido de redescobrir a vida na mat\u00e9ria bruta. Simplesmente mudaram o foco, ou melhor, j\u00e1 nascem com outra embocadura. \u00c9 por isso, talvez, que in\u00fameros escritores nessa faixa de idade trabalhem hoje em outro patamar, fora da linearidade que opunha legitimidade e farsa, verdade e mentira, realidade e imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 que sua estrat\u00e9gia traz carregada um ba\u00fa de emerg\u00eancias, para o caso de a barra pesar. S\u00e3o mantos que espalham disfarces cada vez mais freq\u00fcentes, como se a literatura cumprisse a sina apontada pelos preconceitos e fosse realmente tudo mentira. O que decide um duelo de punhais, que por natureza \u00e9 feito de maneira franca e aberta, s\u00e3o os detalhes especialmente que confundem o advers\u00e1rio. Tony se aprofundou nessa arte, como revelam os contos do seu primeiro livro, e a desconversa cont\u00ednua do seu blog, o Exato Acidente (que costuma ser batizado com outros nomes).<\/p>\n<p>Essa brincadeira de esconde-esconde n\u00e3o \u00e9 a fuga em dire\u00e7\u00e3o a uma arte superficial ou obscura. \u00c9 a maneira de se chegar \u00e0 ess\u00eancia do drama, pois o que resta para um autor que chega a uma literatura que se transformou num mega-neg\u00f3cio e que \u00e9 cercada por milh\u00f5es de pessoas que est\u00e3o escrevendo ao mesmo tempo sobre tudo, na rede m\u00faltipla da web infinita? Restam sua part\u00edcula de viv\u00eancia, seus verdes anos, seus sonhos mais antigos, sua pessoalidade extravagante. Morando em casas id\u00eanticas \u00e0s de seus colegas, convivendo com o mesmo tipo de pessoas, cercado por fam\u00edlias numerosas que se repetem em gestos e tradi\u00e7\u00f5es, a originalidade est\u00e1 na linguagem raspada de toda esp\u00e9cie de \u201cconte\u00fado\u201d, essa palavra mentirosa que tomou conta das m\u00eddias.<\/p>\n<p>Fica mais claro se pegarmos o pequeno livro \u00e0 unha, que de t\u00e3o curto pode ser lido sem queimar calorias. Em princ\u00edpio, s\u00e3o mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia, escritas numa clareza do universo infantil, em frases que se encadeiam na l\u00f3gica realista dos olhos que enxergam pela primeira vez. Mas \u00e9 mais proveitoso ler como o enxugamento total da arte a que nos referimos acima. Como se a briga feia que usa apenas punhais pudesse ser representada por poucas linhas de um design essencial.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um terreno baldio, onde caem frutos maduros explosivos. O que vai ser quando crescer? \u201cAos quatro anos , eu queria ser caminh\u00e3o\u201d. Que fim deu aquela garota que roubou seu cora\u00e7\u00e3o no Primeiro Grau? Ela volta ciclicamente, cada vez mais perto da vida adulta, e marca encontros sucessivos para o resto da vida. Por que meu nome escrito n\u00e3o me representa direito, como se na p\u00e1gina ele fosse uma outra pessoa? Nesse espa\u00e7o pessoal, o mar tem cheiro e, a areia, gosto. E o toque no bra\u00e7o da tia &#8211; um pouco mais velha -, era diferente quando o atingia, n\u00e3o fazia o mesmo efeito do que o toque no bra\u00e7o da irm\u00e3.<\/p>\n<p>\u00c9 pouco para que seja visto como criatura no zool\u00f3gico das autorias? \u00c9 o que Tony Monti tem, essa escassez que busca o brilho, esse recuo que reage, esse disfarce que quebra a leitura e a transporta para outras paragens. Por ser curto, o livro engana a pressa dos olhos que acham j\u00e1 terem visto tudo. N\u00e3o precisa ficar relendo, o autor se entrega na primeira viagem. Mas \u00e9 preciso ler de maneira decidida, pois n\u00e3o haver\u00e1 outra chance. Se o leitor passar impune, n\u00e3o poder\u00e1 ver o fio de \u00e1gua que a chuva verte pela fresta da grande janela da sala. N\u00e3o se enganar\u00e1 de casa na busca da primeira namorada. N\u00e3o reconhecer\u00e1 a alegria no pai que sempre sorri e o leva para a praia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o precisa cair na tenta\u00e7\u00e3o de achar que se trata de prosa po\u00e9tica. Poesia \u00e9 outra coisa. Aqui o que existe \u00e9 o fino da prosa. N\u00e3o pela espessura m\u00ednima do volume ou pela economia dos contos. Mas por ser sil\u00eancio em tempo de gritaria, por ser voz em \u00e9poca de mesmice, por ser dor, mesmo que s\u00f3 ofere\u00e7a o curativo. N\u00e3o que haja recados por baixo da narrativa. O que h\u00e1 mesmo \u00e9 prosa, fin\u00edssima, para ouvidos fecundos. E uma autoria que se projeta em v\u00f4o circunflexo em meio \u00e0 tempestade de almas, em linha reta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o temos, no Brasil, ventos favor\u00e1veis constantes para que os talentos possam cumprir destinos e voca\u00e7\u00f5es. Vivemos em espasmos, em premiados que caem no esquecimento, em aplausos que o tempo cobre. 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