{"id":765,"date":"2009-12-12T23:21:06","date_gmt":"2009-12-13T01:21:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=765"},"modified":"2009-12-12T23:21:06","modified_gmt":"2009-12-13T01:21:06","slug":"a-verdade-sobre-os-anos-60","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-verdade-sobre-os-anos-60","title":{"rendered":"A VERDADE SOBRE OS ANOS 60"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Tudo o que \u00e9 relacionado, hoje, aos anos 60 era, nos anos 60, considerado um horror. Por exemplo: cabelo comprido. Nas capitais provocava apenas xingamento, m\u00e1 vontade, deboche. Mas no interior a puni\u00e7\u00e3o era o apedrejamento. Outra: rock. Ligado \u00e0 sujeira e \u00e0 vagabundagem, rock era coisa de pessoas desviadas do rumo. Dava cadeia. Mais: ser de esquerda. Ningu\u00e9m tolerava um esquerdista. As bocas se inflavam com o xingamento gritado: comunista! O chic, o elegante, era ser de direita. Ser rea\u00e7a era o fino. Comunista era morto a paulada.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, a barrava pesava ainda mais. N\u00e3o havia mulher liberada. Existiam as casadas e as solteiras. O resto era uma pouca vergonha. Sexo livre tinha outro nome. Querem mais? Cinema de vanguarda: Godard esvaziava os cinemas. Filme com gente de olho parado era recebido aos pontap\u00e9s. Vi gente sair berrando das sess\u00f5es de Glauber Rocha. Ingmar Bergman? Piada de intelectual. Dava sono. \u201cN\u00e3o entendi\u201d: eis a frase mais ouvida depois de um Antonioni.<\/p>\n<p>Poeta lido chamava-se J.G. de Ara\u00fajo Jorge. A vanguarda seca e gran\u00edtica, Jo\u00e3o Cabral, os Irm\u00e3os Campos, os transgressores Mario e Oswald de Andrade, o t\u00edsico Bandeira ou o desencantado Drummond n\u00e3o faziam parte das prioridades nacionais. Romances, os de Sidney Sheldon ou algo parecido (n\u00e3o sei, agora tudo se embaralha). No m\u00e1ximo um Jorge Amado. Revista impressa: ainda imperava a Sele\u00e7\u00f5es, com suas se\u00e7\u00f5es \u201cPiadas de caserna, Rir \u00e9 o melhor rem\u00e9dio, Meu tipo inesquec\u00edvel\u201d. Quando surgiu a Realidade, j\u00e1 no fim da d\u00e9cada, com um sucesso estrondoso, a censura caiu matando. A mesma coisa aconteceu com o Pasquim. Com uma agravante: mais tarde, tiraram o cr\u00e9dito do Tarso de Castro como fundador do jornal alternativo, que chegou a vender 200 mil exemplares por semana. Os que se atribu\u00edram o feito hoje est\u00e3o milion\u00e1rios, j\u00e1 que \u201clutaram contra a ditadura\u201d.<\/p>\n<p>Quem lutou de fato contra a ditadura, morreu. Os sobreviventes dan\u00e7aram conforme a m\u00fasica. A repress\u00e3o, assim como a escravid\u00e3o, foi instalada em rede por todo o tecido social. N\u00e3o havia como escapar. Protagonistas tardios fizeram carreiras batendo no peito. A verdade \u00e9 que a ditadura n\u00e3o foi derrotada ainda. Costumam esquecer que o movimento das Diretas-J\u00e1 perdeu a batalha no Congresso em 1984. O primeiro presidente civil depois do regime militar era vice de uma chapa que n\u00e3o tinha assumido. N\u00e3o poderia, portanto, ascender ao cargo. A pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e9 praticamente a mesma, tanto \u00e9 que os velhos tzars da economia continuam pontificando.<\/p>\n<p>Ok, mas e o voto? Considero o voto \u00fatil o novo voto de cabresto. Nossos governantes s\u00e3o eleitos num sistema pol\u00edtico engessado, onde um voto na selva (derrubada) vale dez das grandes cidades. Nesse quadro, a classe pol\u00edtica n\u00e3o se renova. Sobrevive ainda a Medida Provis\u00f3ria, inven\u00e7\u00e3o da ditadura que permite o Executivo legislar.<\/p>\n<p>O passado nos escapa porque elegemos algumas certezas como definitivas. Nestes 40 anos desde 1968 o tema se gastou com tanto document\u00e1rio e tanta saudade fajuta. Em qualquer resgate audiovisual dos 60, o sonho sempre acaba. Isso foi sendo aos poucos substitu\u00eddo pelo ano que n\u00e3o terminou. Engra\u00e7ado, comemorei o fim de 68 no dia 31 de dezembro. Como assim n\u00e3o acabou?<\/p>\n<p>O que fica dos 60 \u00e9 essa defasagem entre as vers\u00f5es oficiais, as que geram grana, e a grande periferia dos acontecimentos, onde tudo foi decidido. A revolu\u00e7\u00e3o do comportamento n\u00e3o foi exclusivo da \u00e9poca, mas uma heran\u00e7a. As mulheres sempre trabalharam, com dupla jornada de trabalho ou n\u00e3o. Parece que hoje h\u00e1 um consenso, expresso em contund\u00eancia fanha, de que a \u201cmulh\u00e9\u00e9\u00e9rrr\u201d s\u00f3 deu a volta por cima nos 60. E aquelas mulheres liberadas dos anos 20, estavam \u201cadiante do seu tempo\u201d?<\/p>\n<p>O cosmopolitismo, a vida bo\u00eamia, a liberta\u00e7\u00e3o das amarras dos relacionamentos, a insurg\u00eancia da juventude (antes conhecida como mocidade) j\u00e1 existiam, minorit\u00e1rias, antes que a histeria dos 60 gerasse a ilus\u00e3o de que tudo mudou s\u00f3 ali, naquela quadra de tempo.<\/p>\n<p>Mudou, nada. Continua a mesma coisa: a poderosa sacanagem sendo estocada pela guerrilha da coragem e da vontade de viver. Hoje, o que h\u00e1 de mais concreto sobre os anos 60 \u00e9 que minha gera\u00e7\u00e3o chega enfim aos 60 anos. Como diria M\u00e1rio Quintana: por favor, n\u00e3o me chamem de sexagen\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo o que \u00e9 relacionado, hoje, aos anos 60 era, nos anos 60, considerado um horror. Por exemplo: cabelo comprido. Nas capitais provocava apenas xingamento, m\u00e1 vontade, deboche. 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