{"id":768,"date":"2009-12-12T23:27:20","date_gmt":"2009-12-13T01:27:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=768"},"modified":"2009-12-20T23:31:05","modified_gmt":"2009-12-21T01:31:05","slug":"o-que-e-musica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-e-musica","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 M\u00daSICA?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>M\u00fasica \u00e9 a capacidade de ouvir. Voc\u00ea pode ser Mozart, mas se n\u00e3o houver quem escute sua obra, ela n\u00e3o existir\u00e1. Ningu\u00e9m comp\u00f5e para as altas esferas, mas para que o som se propague at\u00e9 um receptor. A m\u00fasica foi assassinada quando descobriram a mina de ouro que \u00e9 a banaliza\u00e7\u00e3o da batida do tambor. A sofistica\u00e7\u00e3o foi reduzida ao p\u00f3 das baterias, e o tunc tunc se consolidou na ind\u00fastria imediatista. Mais tarde, \u201cevoluiu\u201d para o baticum eletr\u00f4nico, que \u00e9 a entroniza\u00e7\u00e3o surtada da redund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Tudo o que m\u00fasica produziu, como melodia, harmonia, ritmo, foi deixado de lado para que imperasse a obsess\u00e3o pelo Mesmo. O eterno presente, que devora a mem\u00f3ria, precisa de reitera\u00e7\u00e3o permanente. O entorno dessa barb\u00e1rie \u00e9 a parceria gritada de duplas infernais. \u00c9 preciso atordoar os ouvintes at\u00e9 que n\u00e3o reste uma nesga de civiliza\u00e7\u00e3o auditiva. A v\u00edtima ent\u00e3o est\u00e1 pronta para digerir o atordoamento intermin\u00e1vel. O objetivo \u00e9 destruir a capacidade de ouvir. \u00c9 o assassinato implantado da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Ouvir significa sonhar, pensar, aprender, enlevar-se, transcender. Tudo isso n\u00e3o serve para nada, pois \u00e9 preciso que a linha de montagem obede\u00e7a aos ditames do entretenimento doentio. A coletividade injeta nos t\u00edmpanos a mais intensa avalanche de porcarias auditivas. D\u00e1 para perceber de longe. Os ouvidos est\u00e3o cobertos por grossa camada de fuligem. \u00c9 para enlouquecer, mesmo, j\u00e1 que pessoas saud\u00e1veis seriam incapazes de se submeter ao matadouro cultural.<\/p>\n<p>Nos supermercados ou lojas onde voc\u00ea cai na asneira de entrar, existe a distor\u00e7\u00e3o pop de vozes intermin\u00e1veis, que se esgani\u00e7am at\u00e9 o osso. Voc\u00ea est\u00e1 louco para fugir dali, mas n\u00e3o sabe por qu\u00ea. A\u00ed descobre que \u00e9 a monstruosidade despejada pela caixinha de som, constru\u00edda pelo horror de DJs invis\u00edveis, mas mortais. E n\u00e3o ouse reclamar. O sorrisinho maroto de que voc\u00ea est\u00e1 por fora ir\u00e1 se manifestar.<\/p>\n<p>O que resta para as pessoas que conservam um m\u00ednimo de lembran\u00e7a da cultura musical? Num restaurante de bom gosto, num concerto fino, numa sala de espera de luxo, eis que chega at\u00e9 n\u00f3s os acordes da bossa nova, do jazz, do blues, ou mesmo da m\u00fasica sinf\u00f4nica, erudita, rom\u00e2ntica, barroca. S\u00e3o p\u00edlulas caras, pois cobram os tubos para voc\u00ea compartilhar um pouco do que restou, as ru\u00ednas desse acervo popular maravilhoso, que sumiu do mapa e hoje est\u00e1 enterrado no cora\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea tem a cole\u00e7\u00e3o completa de Frank Sinatra, Tom Jobim ou Doris Day (sim, ela \u00e9 o m\u00e1ximo de do\u00e7ura na voz), de Pixinguinha, Baden Powell ou Maysa, se voc\u00ea gosta de Brahms ou Edu Lobo, ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 condenado a escutar bem baixinho, nos intervalos da guerra. No fundo, voc\u00ea continua preso. Jogado dentro de uma cela por in\u00fameros malfeitores, como o Ru\u00eddo e o Gritalh\u00e3o, \u00e9 como se houvessem decretado a pena de morte. Mas ainda \u00e9 poss\u00edvel ganhar dois minutos no p\u00e1tio para tomar sol. L\u00e1, voc\u00ea respira fundo e consegue lembrar aquela frase musical perdida. Do tempo em que voc\u00ea escutava. Quando havia m\u00fasica.<\/p>\n<p>Por que perdemos a capacidade de ouvir? Porque entregamos o pa\u00eds para a bandidagem, e isso foi h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas. Quando abrimos m\u00e3o do Brasil soberano. Quando achamos que poder\u00edamos viver sem a m\u00fasica a feita por n\u00f3s, e pelo melhor dos estrangeiros. Que dever\u00edamos nos entregar para sempre nas m\u00e3os de quem domina o espa\u00e7o p\u00fablico e loteia nosso ouvido como se fosse um terreno abandonado.<\/p>\n<p><strong>Cartas sobre a cr\u00f4nica &#8220;O que \u00e9 m\u00fasica?&#8221;<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>O EXEMPLO DE VIENA<\/p>\n<p>Um excelente artigo. Tudo e verdade o que o artigo fala. E imposs\u00edvel de entrar numa loja, num \u00f4nibus ou deixar os janelas abertas em qualquer lugar sem ouvir os batidos e palavras repetidos gritando ao nossos ouvidos.O grande musico Hungaro Kodaly falou: se voc\u00ea n\u00e3o aprende ouvir boa musica ate 4 anos de idade , vai ser dif\u00edcil de aprender mais tarde, E a mesma coisa de aprender linguas, Ate uma certa idade nos adquirimos a capacidade de ouvir sons e descartamos outros que nao sao usados ao nosso redor, Mais tarde vai ser dificil de ouvir e pronunciar tal sons. Seria \u00f3timo de acostumar nossos filhos de ouvir e apreciar boa musica mais cedo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 muito interressante. Os m\u00fasicos t\u00eam filhos m\u00fasicos( Mozart, bach, Strauss etc) Porque os matem\u00e1ticos ou pintores n\u00e3o tem filhos matem\u00e1ticos ou pintores? A resposta \u00e9: n\u00e3o \u00e9 heredit\u00e1rio, mas costume, Ouvir m\u00fasica boa em casa faz voc\u00ea gostar de m\u00fasica. Por que em Viena tudo mundo fala baixo e n\u00e3o grita, n\u00e3o buzina?<\/p>\n<p>Helga Szmuk<\/p>\n<p>Aposentada<\/p>\n<p>Florianopolis Sc<\/p>\n<p>IDIOTAS GRITANDO<\/p>\n<p>Nei<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns pelo artigo. Enfim mais algu\u00e9m n\u00e3o suporta idiotas gritando.<\/p>\n<p>Abra\u00e7os<\/p>\n<p>Gilberto Soares Fran\u00e7a<\/p>\n<p>Ca\u00e7ador &#8211; S.C.<\/p>\n<p>BATE-ESTACA<\/p>\n<p>Nei, sou eu de novo.<\/p>\n<p>Parece premoni\u00e7\u00e3o. Ontem no sal\u00e3o que frequento a propriet\u00e1ria perguntou \u00e0 manicure que me atendia se ela havia trocado a esta\u00e7\u00e3o do r\u00e1dio. A mocinha disse que sim. Est\u00e1vamos escutando um tipo de m\u00fasica a que chamo de &#8220;bate estaca&#8221;, essas a que te referes na coluna de hoje. Aproveitei para perguntar a ela se gostava deste tipo de m\u00fasica, o que foi confirmado prontamente; e mais, que ela s\u00f3 escuta isto. Perguntei se na escola ela teve aulas de m\u00fasica, ou qualquer instrumento musical, e a resposta foi n\u00e3o. Acredito que nem o Hino de SC ela deve conhecer, o que \u00e9 uma ironia em se tratando de ex-aluno de escola p\u00fablica.A m\u00fasica \u00e9 uma dos maiores atrativos do ser humano. Veja a atra\u00e7\u00e3o que os nossos ind\u00edgenas tinham pelos sons produzidos pelos invasores europeus. O que se pode esperar desta gera\u00e7\u00e3o que configurou o seu mental nas batidas do &#8220;tunc-tunc&#8221;? Somente imediatismo que descamba em viol\u00eancia, pois agimos como pensamos e sentimos (isto \u00e9 da Kabbalah).<\/p>\n<p>Estou levando o DC com a tua coluna para mostrar no sal\u00e3o.<\/p>\n<p>Da leitora e assinante, Maria Teresa\/<\/p>\n<p>Floran\u00f3polis &#8211; SC<\/p>\n<p>S\u00c3O JOBIM<\/p>\n<p>Caro Nei,<\/p>\n<p>Muito feliz fiquei ao ler sua coluna do DC desta data. \u00c9 mais uma das ( poucas e raras) vozes que hoje manifestam-se para protestar contra a mediocridade e primitivismo grosseiro a que se reduziu a m\u00fasica ouvida no Brasil (que n\u00e3o difere muito do eu se ouve pelo mundo).<\/p>\n<p>Lembrei-me at\u00e9 de um pequeno texto que publiquei em um jornal da regi\u00e3o onde moro ( Tubar\u00e3o), intitulado &#8220;Meu S\u00e3o Jobim, me acuda&#8221;.<\/p>\n<p>Quanto a &#8220;entregarmos&#8221; o Brasil, isso \u00e9 fato. E \u00e9 antigo, n\u00e3o? Hoje a amea\u00e7a de aniquilamento j\u00e1 chega a nossa L\u00edngua Portuguesa, substitu\u00edda de maneira irrespons\u00e1vel ( e hiper incentivada pela m\u00eddia ) pelo ingl\u00eas vulgar. O mesmo ingl\u00eas que imp\u00f5e m\u00fasicas de p\u00e9ssima qualidade aos nossos ouvidos.<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns pelo texto, que al\u00e9m de cr\u00edtico \u00e9 belo. E se eu for \u00fatil, nessa &#8220;cruzada&#8221; , conte comigo.<\/p>\n<p>Demetrio Nazari Verani<\/p>\n<p>Tubar\u00e3o &#8211; SC<\/p>\n<p>TUNC TUNC<\/p>\n<p>Nei:<\/p>\n<p>Como faz todas as semanas, voc\u00ea mais uma vez traduziu o sentimento das pessoas de consci\u00eancia em palavras, contextualizando as coisas num esfera macro. Tambem sofro com o &#8220;tunc tunc&#8221; dos jovens e dos sertanejos grit\u00f5es das empregadas e pedreiros ( s\u00f3 esqueceste de citar os odiosos pagodes). \u00c9 triste tamb\u00e9m o fato de termos de ouvir musica imposta nos shoppings e supermenrcados. Acredito que o ser humano precise de um m\u00ednimo de silencio e vazio para criar algo relevante para o mundo. Ser\u00e1 que um dia voltaremos a ouvir belas melodias no r\u00e1dio dum vizinho? Obrigado Nei e n\u00e3o desista. Abra\u00e7o do<\/p>\n<p>Rodrigo Cunha, 31 anos.<\/p>\n<p>Florian\u00f3polis &#8211; SC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00fasica \u00e9 a capacidade de ouvir. Voc\u00ea pode ser Mozart, mas se n\u00e3o houver quem escute sua obra, ela n\u00e3o existir\u00e1. Ningu\u00e9m comp\u00f5e para as altas esferas, mas para que o som se propague at\u00e9 um receptor. A m\u00fasica foi assassinada quando descobriram a mina de ouro que \u00e9 a banaliza\u00e7\u00e3o da batida do tambor. A sofistica\u00e7\u00e3o foi reduzida ao p\u00f3 das baterias, e o tunc tunc se consolidou na ind\u00fastria imediatista. 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