{"id":771,"date":"2009-12-13T00:10:13","date_gmt":"2009-12-13T02:10:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=771"},"modified":"2009-12-21T21:56:24","modified_gmt":"2009-12-21T23:56:24","slug":"o-susto-da-estrada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-susto-da-estrada","title":{"rendered":"O SUSTO DA ESTRADA"},"content":{"rendered":"<p>Chegar ao anoitecer numa cidade desconhecida, ou acampar numa paisagem selvagem; batalhar comida entre desconhecidos que o condenam no olhar; pedir pouso quando todas as portas se fecham; ficar \u00e0 merc\u00ea da barb\u00e1rie; passar fome no meio do lixo; cansar as pernas atr\u00e1s de uma porta que se abra; e, pior, explicar o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo ali para quem est\u00e1 obcecado pela pr\u00f3pria pergunta, jamais pela resposta; s\u00e3o os pesadelos recorrentes de quem optou pela estrada, por diferentes motivos. Vi Into the Wild (Na Natureza Selvagem), o road movie de Sean Penn, de 2007, sobre o bem nascido que deixou tudo de lado para viver esse tipo de experi\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00e3o motivos opostos. O garoto, que se auto-denominou Alexander Supertramp, queria tirar o excesso de sua vida: o dinheiro, a posi\u00e7\u00e3o social, a identidade, o futuro em Harvard. N\u00f3s, classe m\u00e9dia empobrecida pela pol\u00edtica econ\u00f4mica da ditadura, e jogados contra a parede por meio da interven\u00e7\u00e3o da universidade, quer\u00edamos encontrar o que t\u00ednhamos perdido: uma vida com algum sentido, onde houvesse lugar para o sonho, a felicidade, o prazer, a emo\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um gap de vinte anos entre nossa hist\u00f3ria, do fim dos anos 60, e a de Christopher McCandless, o Supertramp, que \u00e9 do in\u00edcio dos noventa. A origem e os objetivos das duas viagens, t\u00e3o parecidas, s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos sorte em n\u00e3o acabar como Chris, ilhados no ermo, passando necessidade. Talvez porque f\u00f4ssemos mais acostumados \u00e0 escassez. N\u00e3o havia muita oposi\u00e7\u00e3o entre nossa vida normal de estudantes sem recursos e a que levamos na estrada. N\u00e3o t\u00ednhamos futuro, fomos procurar um. Chris fugia do futuro. O filme \u00e9 deslumbrante, mostra esse deserto horroroso que \u00e9 os Estados Unidos de maneira grandiosa e po\u00e9tica.O personagem \u00e9 irritante, pois caminha firme para o suic\u00eddio com a certeza de que est\u00e1 fazendo algo de bom para si.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 destruindo a pr\u00f3pria fam\u00edlia, a vida que o embalou e desprezando o papel fundamental das pessoas que recolhe pelo caminho. N\u00e3o enxerga que elas s\u00e3o sua \u00fanica riqueza. N\u00e3o \u00e9 nem a trajet\u00f3ria, mas as rela\u00e7\u00f5es humanas que o enriquecem, que o chamam para a sobreviv\u00eancia. Mas ele est\u00e1 disposto a morrer. N\u00e3o perdoa os pais por terem escondido o fato de que ele era filho bastardo, ou coisa assim. Funde a cuca e se atira no meio da neve como um tarado qualquer. Mas Sean Penn tirou leite de pedra, a partir do best-seller de mesmo nome, de Jon Krakauer, publicado em 1996. Tra\u00e7a um perfil isento do aventureiro, colocando sua grandeza e sua precariedade.<\/p>\n<p>Sean n\u00e3o quis fazer o filme antes que a fam\u00edlia aprovasse tudo. Levou dez anos na empreitada. Conseguiu duas indica\u00e7\u00f5es ao Oscar, uma de edi\u00e7\u00e3o e outra de melhor ator coadjuvante, o magn\u00edfico velh\u00e3o Hal Holostrom, no papel do artes\u00e3o que pede para adotar o abombado em viagem para a morte.<\/p>\n<p>Lembrei o tempo em que tive de dormir em delegacia, rebentar t\u00eanis e pernas de tanto andar, cheirar mal todo o tempo, passar necessidade. Viajei em cabine de caminh\u00e3o, dormi ao relento a quase zero graus, cheguei com os cabelos duros de tanta poeira em pousadas sinistras, como na Lapa do Rio de Janeiro, ou no vasto recinto do est\u00e1dio Pacaembu, cheio de insetos, em colch\u00f5es de palha terr\u00edveis.<\/p>\n<p>N\u00e3o era bem a natureza selvagem que quer\u00edamos. N\u00f3s \u00e9ramos os selvagens. Quer\u00edamos, talvez, reencontrar o Brasil soberano, o que nos escapava pelos dedos no meio de tanta repress\u00e3o. Quer\u00edamos o pa\u00eds de volta e por isso fomos conhecer aquelas cidades t\u00e3o parecidas e nos banhar em praias maravilhosas, mas cheias de escassez e mis\u00e9ria. Haja coragem na juventude. Haja n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre Into the Wild (Na Natureza Selvagem), o road movie de Sean Penn, de 2007: O protagonista est\u00e1 destruindo a pr\u00f3pria fam\u00edlia, a vida que o embalou e desprezando o papel fundamental das pessoas que recolhe pelo caminho. N\u00e3o enxerga que elas s\u00e3o sua \u00fanica riqueza. N\u00e3o \u00e9 nem a trajet\u00f3ria, mas as rela\u00e7\u00f5es humanas que o enriquecem, que o chamam para a sobreviv\u00eancia. Mas ele est\u00e1 disposto a morrer. N\u00e3o perdoa os pais por terem escondido o fato de que ele era filho bastardo, ou coisa assim. Funde a cuca e se atira no meio da neve como um tarado qualquer. Mas Sean Penn tirou leite de pedra, a partir do best-seller de mesmo nome, de Jon Krakauer, publicado em 1996. 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