{"id":776,"date":"2009-12-13T00:16:15","date_gmt":"2009-12-13T02:16:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=776"},"modified":"2009-12-21T22:19:48","modified_gmt":"2009-12-22T00:19:48","slug":"alemanha-a-extraordinaria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/alemanha-a-extraordinaria","title":{"rendered":"ALEMANHA, A EXTRAORDIN\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Releio a parte de Feurbach de \u201cA ideologia alem\u00e3\u201d, de Marx e Engels, uma pedra de cal no idealismo e o livro fundador, no m\u00ednimo, de toda Hist\u00f3ria moderna. \u00c9 um texto lapidar, de uma clareza emocionante. Quanto mais avan\u00e7amos nas ci\u00eancias humanas, mais Karl Marx e Friederich Engels se transformam no puro diamante da revolu\u00e7\u00e3o do conhecimento. \u00c9 simples assim: \u201cA consci\u00eancia jamais pode ser outra coisa do que o ser consciente e o ser dos homens \u00e9 o seu processo de vida real\u201d. Portanto, a consci\u00eancia n\u00e3o existe no c\u00e9u para descer \u00e0 terra, como querem os idealistas, \u00e9 o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Isso serve para desmascarar a atual ind\u00fastria do aconselhamento. N\u00e3o adianta cobrar dos incautos para dar conselhos idealistas, pois para que as vidas mudem \u00e9 preciso que a produ\u00e7\u00e3o de vida, concreta, se transforme. Se voc\u00ea re\u00fane os funcion\u00e1rios (ou colaboradores, como quer o idealismo vigente) para dizer que eles podem tudo, desde que coloquem algumas palavras de ordem na cabe\u00e7a, a tal atitude, estar\u00e1 mentindo.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o houver mudan\u00e7a nas for\u00e7as produtivas\u00b8 se a massa n\u00e3o sair da situa\u00e7\u00e3o de vendedores da mais-valia (aquele plus de trabalho capturado pelo patronato), ent\u00e3o kaputt. Pode ficar falando \u00e0 vontade, eles ser\u00e3o sempre os mesmos, pois pensam conforme as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que os dominam, da mesma forma que seus chefes jamais v\u00e3o abrir m\u00e3o de seus objetivos e interesses. O resto \u00e9 conversa para boi dormir.<\/p>\n<p>Para efeitos deste texto, sobre \u201cO milagre de Berna\u201d (Das Wunder von Bern), o maravilhoso filme de S\u00f6nke Wortmann (2003), podemos dizer, sob as luzes dos alem\u00e3es Marx e Engels, que a vida concreta constr\u00f3i o imagin\u00e1rio de uma na\u00e7\u00e3o. Em 1954, ano em que se desenrola a hist\u00f3ria do filme, o que era essa vida concreta? Um pa\u00eds pobre, destru\u00eddo, com fam\u00edlias partidas pela guerra ainda presente, apesar de ter acabado dez anos antes. O que fez essa na\u00e7\u00e3o, que, como todas as outras, n\u00e3o existe fora dos seres reais? O que fizeram os alem\u00e3es, segundo Wortmann (que \u00e9 tamb\u00e9m co-autor do roteiro; o outro roteirista \u00e9 Rochus Hahn)?<\/p>\n<p>Uma leitura superficial dir\u00e1 que ganharam pela primeira vez a Copa do Mundo, tiraram o caneco das m\u00e3os certas da Hungria, que havia quatro anos e meio n\u00e3o perdia um s\u00f3 jogo e que tinha dado um vareio de oito a tr\u00eas na mesma competi\u00e7\u00e3o, disputada na Su\u00ed\u00e7a. Fizeram mais do que isso. Se reconciliaram com os ex-combatentes que estavam prisioneiros na R\u00fassia. Se concentraram na estrat\u00e9gia vencedora de cidad\u00e3os pac\u00edficos e religiosos, que procuraram meios de sobreviv\u00eancia real e se superaram.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria na Copa foi apenas o resultado desse esfor\u00e7o coletivo, que mais tarde resultou na queda do muro de Berlim e na reunifica\u00e7\u00e3o. Na reconstru\u00e7\u00e3o, houve, claro, a m\u00e3o do imperialismo americano, mas bilh\u00f5es de d\u00f3lares despejados num buraco negro resultariam em nada. \u00c9 no cora\u00e7\u00e3o nacional que foi engendrada a sa\u00edda e essa ess\u00eancia \u00e9 a vida concreta dos seres conscientes pertencentes a uma mesma comunidade.<\/p>\n<p>Por que a Alemanha \u00e9 assim? Certamente n\u00e3o \u00e9 pelo sangue, pela eugenia racial, pois isso seria nos rendermos ao idealismo. Precisamos da dial\u00e9tica marxista para entender. Uma pista \u00e9 dada pelo filme. Perdemos de oito a tr\u00eas, urravam todos, contra o t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o, que permanecia firme. Fizemos tr\u00eas gols nos deuses, replicava ele. S\u00e3o vulner\u00e1veis, t\u00eam fraquezas, vamos aproveit\u00e1-las. O grande estrategista puxou de dentro de cada jogador a vontade de vencer, demoliu brigas internas e concentrou o jogo nas possibilidades de vit\u00f3ria. Deu certo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia que recebe de volta o ex-soldado que ficou onze anos preso na R\u00fassia d\u00e1 tamb\u00e9m uma li\u00e7\u00e3o de grandeza. O sujeito chega cheio de fuma\u00e7as, ressentido, morto socialmente e come\u00e7a a aprontar. \u00c9 a rea\u00e7\u00e3o familiar, a necessidade de uni\u00e3o para a sobreviv\u00eancia de todos, o perd\u00e3o, a toler\u00e2ncia e a firmeza que fazem a diferen\u00e7a. \u00c9 a solu\u00e7\u00e3o concreta, a montagem de um neg\u00f3cio, sem esperar a anunciada indeniza\u00e7\u00e3o do governo, que mant\u00e9m a fam\u00edlia junta. \u00c9 na escassez que se encontra a sa\u00edda. \u00c9 a determina\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es pessoais com os meios de sobreviv\u00eancia que os salva. \u00c9 o que opera o milagre.<\/p>\n<p>Uma das cenas mais geniais deste filme magn\u00edfico \u00e9 o cruzamento entre a narrativa real do jogo da Copa e a pelada dos garotos alem\u00e3es disputando a bola na rua. Mas tem muito mais: os atores realmente dominam a bola, s\u00e3o jogadores de futebol. E jogam conforme o estilo antigo, numa paciente recomposi\u00e7\u00e3o dos principais lances. N\u00f3s, que ganhamos a copa de 1958, num feito ainda mais memor\u00e1vel, jamais produzimos algo semelhante. Chegamos no m\u00e1ximo a esse execr\u00e1vel filme sobre o Garrincha em que o ator principal \u00e9 um perna de pau!<\/p>\n<p>Al\u00e9m de destruir Garrincha, colocaram algu\u00e9m n\u00e3o familiarizado com a bola para interpretar nosso g\u00eanio do futebol. Tenham d\u00f3. Mirem-se no exemplo da Alemanha, e notem o que faz dela uma na\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que a Alemanha \u00e9 assim? Certamente n\u00e3o \u00e9 pelo sangue, pela eugenia racial, pois isso seria nos rendermos ao idealismo. Precisamos da dial\u00e9tica marxista para entender. 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