{"id":783,"date":"2009-12-13T00:20:58","date_gmt":"2009-12-13T02:20:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=783"},"modified":"2009-12-21T22:13:51","modified_gmt":"2009-12-22T00:13:51","slug":"o-cheiro-do-brasil-jogado-fora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-cheiro-do-brasil-jogado-fora","title":{"rendered":"O CHEIRO DO BRASIL JOGADO FORA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O filme nacional \u201cO cheiro do ralo\u201d, dirigido por Heitor Dhalia, que divide com Mar\u00e7al Aquino o roteiro baseado em livro de Louren\u00e7o Mutarell, \u00e9 sobre o Brasil jogado no lixo. O cen\u00e1rio reproduz uma realidade econ\u00f4mica e social que j\u00e1 passou, fundada na ind\u00fastria agora obsoleta, nas f\u00e1bricas que foram para o espa\u00e7o, no escrit\u00f3rio composto de m\u00f3veis, pisos, paredes e tetos que pertenceram a uma \u00e9poca de costas para o humano. O concreto que cobre todo vest\u00edgio de natureza concede apenas um escoadouro de mat\u00e9ria org\u00e2nica, de onde sai o fedor de uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida.<\/p>\n<p>Muros altos e p\u00f4dres, todos pichados, em bairros abandonados, s\u00e3o o cen\u00e1rio de est\u00e9tica monstruosa e coerente, pois as seq\u00fc\u00eancias do filme, somadas, formam uma galeria cl\u00e1ssica de uma periferia que foi concebida para a decad\u00eancia e hoje cumpre seu destino ao abrigar cal\u00e7adas sujas, corredores escuros, apartamentos sinistros. Essa urbanidade pesada envolve pessoas despossu\u00eddas, rostos derrubados, roupas velhas, gestos exaustos. Algo se soma a esse entulho: os princ\u00edpios morais, os valores, os sentimentos. Os indiv\u00edduos cassados de sua cidadania s\u00e3o liberados dos seus compromissos.<\/p>\n<p>O comprador de inutilidades (subprodutos de la\u00e7os humanos e sociais que se esgar\u00e7aram), interpretado por Selton Melo, negocia a dignidade alheia enquanto \u00e9 tragado pelo esgoto moral de sua vida. Livra-se da noiva e da gentileza profissional para abra\u00e7ar uma obsess\u00e3o que aparentemente o liberta do vazio. Apaixonar-se pela bunda de uma gar\u00e7onete, interpretada por Paula Braun, \u00e9 a sa\u00edda que encontra para a falta de sentido de suas rotinas. Mas ele est\u00e1 escaldado: sabe o perigo que corre quando a emo\u00e7\u00e3o e a responsabilidade tomam conta. Isso significar\u00e1 la\u00e7os amorosos, cobran\u00e7as, sofrimento. Tenta, ent\u00e3o, interpor o dinheiro numa rela\u00e7\u00e3o que perde a gra\u00e7a.<\/p>\n<p>E procura substituir o olhar permanente da consci\u00eancia por um olho de vidro, comprado na sua loja. Finge que esse olho falso \u00e9 o do seu pai, a ancestralidade inexistente da orfandade, que n\u00e3o deixou heran\u00e7a. Sozinho no mundo, abandonado pelo Estado e a fam\u00edlia, palmilhando ruas exclu\u00eddas, o personagem se entrega \u00e0 podrid\u00e3o. Tem motivos de sobra para decair cada vez mais em dire\u00e7\u00e3o ao ralo: as pessoas do seu entorno est\u00e3o em piores condi\u00e7\u00f5es, pois n\u00e3o conseguem o b\u00e1sico para a sobreviv\u00eancia e chegam para implorar alguns trocos em troca dos \u00faltimos resqu\u00edcios de humanidade que mantiveram (uma caixa de m\u00fasica, uma perna mec\u00e2nica, um rel\u00f3gio de bolso).<\/p>\n<p>A \u00e9tica, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o incestuosa entre os sobreviventes e a mem\u00f3ria, n\u00e3o vale nada para o negociante frio que se desculpa pelo cheiro ruim que inunda sua loja de badulaques. Sem leis que ordenem o caos de uma economia na mis\u00e9ria, ele \u00e9 a palavra final, o patr\u00e3o da humanidade r\u00f4ta, o legislador com seu cinismo catequista (\u201ca vida \u00e9 dura\u201d). O filme n\u00e3o mostra o homem do prego revendendo o que compra de maneira t\u00e3o compulsiva. \u00c9 um sistema de m\u00e3o \u00fanica, em que tudo parte do indiv\u00edduo em p\u00e2nico para a grande cloaca em que se transformou o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quando todas as quinquilharias se esgotam, o devorador de almas compra os corpos dispon\u00edveis, oferecidos como \u00faltimo ganho para o \u00fanico neg\u00f3cio poss\u00edvel dessa realidade terminal. O tumulto, o assassinato, o berreiro s\u00e3o resultados naturais do \u00f3dio, do ressentimento, do desamor represados. A merda literalmente transborda e toma conta do ch\u00e3o coalhado de sangue. \u00c9 o que resta de uma na\u00e7\u00e3o perdida, de uma popula\u00e7\u00e3o derrotada, de uma cidade sem abrigo.<\/p>\n<p>O que se salva \u00e9 o cinema, radicalidade exposta e tratada como com\u00e9dia, quando, no fundo, \u00e9 um drama amarelo-marrom que se apega \u00e0 uma das partes dos corpos retalhados. A admira\u00e7\u00e3o pela gar\u00e7onete \u00e9 a isca para reacender o cora\u00e7\u00e3o de pedra, mas a esperan\u00e7a n\u00e3o se consuma. Assumir o cheiro, comprar o amor e o sexo, inventar uma ascend\u00eancia s\u00e3o gestos da maldade insuport\u00e1vel e desesperada. Quando enfim o protagonista encontra e adquire o objeto de desejo, \u00e9 eliminado pelo que cevou na vida bandida, de onde n\u00e3o teve chance de escapar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme nacional \u201cO cheiro do ralo\u201d, dirigido por Heitor Dhalia, que divide com Mar\u00e7al Aquino o roteiro baseado em livro de Louren\u00e7o Mutarell, \u00e9 sobre o Brasil jogado no lixo. O cen\u00e1rio reproduz uma realidade econ\u00f4mica e social que j\u00e1 passou, fundada na ind\u00fastria agora obsoleta, nas f\u00e1bricas que foram para o espa\u00e7o, no escrit\u00f3rio composto de m\u00f3veis, pisos, paredes e tetos que pertenceram a uma \u00e9poca de costas para o humano. O concreto que cobre todo vest\u00edgio de natureza concede apenas um escoadouro de mat\u00e9ria org\u00e2nica, de onde sai o fedor de uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/783"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=783"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/783\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":785,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/783\/revisions\/785"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=783"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=783"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=783"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}