{"id":788,"date":"2009-12-13T00:35:48","date_gmt":"2009-12-13T02:35:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=788"},"modified":"2009-12-21T20:09:04","modified_gmt":"2009-12-21T22:09:04","slug":"maximo-gorki-cenas-de-infancia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/maximo-gorki-cenas-de-infancia","title":{"rendered":"M\u00c1XIMO GORKI: CENAS DE &#8220;INF\u00c2NCIA&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O mar da mediocridade tomou conta das livrarias, e n\u00e3o \u00e9 apenas auto-ajuda. Tudo est\u00e1 contaminado pelo texto ruim e pelo marketing. Chega 2008 e chovem lan\u00e7amentos sobre cem, duzentos, trezentos anos de tudo o que aconteceu. Dinheiro p\u00fablico cacifa as maiores barbaridades. Voc\u00ea abre livros bem fornidos, luxuosos e n\u00e3o consegue chegar ao fim de uma frase. \u00c9 t\u00e9trico.<\/p>\n<p>Os best-sellers, em sua maioria, douram a p\u00edlula amarga da ideologia fascista triunfante e seduzem com suas carca\u00e7as milion\u00e1rias, com a consist\u00eancia textual do papel crepom. Os neo-romancistas se esmeram em baixarias mais vis, pura apela\u00e7\u00e3o comercial, embalados pelo terror da ind\u00fastria de entretenimento ditada pela era Bush, em que tudo virou assunto dos pa\u00edses baixos (da cintura at\u00e9 os p\u00e9s) e o pensamento, quando tem vez, \u00e9 para reiterar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas consagradas. Mas h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es. M\u00e1ximo Gorki, por exemplo.<\/p>\n<p>Sim. Podem dizer o que quiserem de Gorki. Que ele passeava com Stalin na sua casa de campo, que foi o fundador ou o guru do realismo socialista e outras coisas. \u00c9 moda desmerecer o g\u00eanio. Deve ser gostoso cagar em cima do talento, sen\u00e3o n\u00e3o haveria tanta gente dedicada a esse of\u00edcio. Pois tudo isso n\u00e3o importa. Tudo o que enterra ou celebra Gorki politicamente n\u00e3o passa de firula, lantejoula. O que vale \u00e9 seu texto, magistral, enxuto, conciso, mortal, deslumbrante principalmente em Inf\u00e2ncia, lan\u00e7ado o ano passado pela Cosac &amp; Naify, traduzido por Rubens Figueiredo (que fez o pref\u00e1cio), e com posf\u00e1cio de Boris Schnaiderman.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de fazer resenha. Dou de barato que o leitor deve ter lido ou deveria ler o livro que comento, por isso parto sempre para uma \u00e1rea pessoal, desconhecida, a princ\u00edpio, at\u00e9 para mim. Essa \u00e9 a gra\u00e7a do ensaio. Voc\u00ea sabe onde come\u00e7a, mas n\u00e3o onde termina. Aqui, vou fazer uma exce\u00e7\u00e3o. Vou relatar algumas cenas de Inf\u00e2ncia, para tomar o pulso do que me deslumbrou nos dias mais recentes, em que economizei p\u00e1ginas para espichar a alegria de ler algo realmente importante. Vou evitar ser o chato que conta o filme, mas \u00e0s vezes n\u00e3o d\u00e1 para segurar.<\/p>\n<p>A primeira cena do livro \u00e9 a morte do pai do narrador, que coincide com o nascimento do seu irm\u00e3o, parido pela m\u00e3e de luto e em desespero. H\u00e1 o funeral paterno (em que Gorki se preocupa com duas r\u00e3s que s\u00e3o enterradas junto com o caix\u00e3o) e a viagem imediata para a cidade natal da m\u00e3e. A crian\u00e7a morre e \u00e9 carregada numa pequena caixa no camarote do vapor que singra o rio Volga. No recinto sinistro, est\u00e3o a av\u00f3, a m\u00e3e e ele, o menino Al\u00e9ksiei, mais tarde \u201cM\u00e1ximo, o Amargo\u201d. A R\u00fassia gelada e chuvosa, o povo em tremendo sofrimento, a fam\u00edlia partida e enlouquecida pelas brigas internas come\u00e7am ent\u00e3o a desfilar no livro onde cada frase \u00e9 um punhal e cada par\u00e1grafo cont\u00e9m a grandeza do humano, desaparecido hoje gra\u00e7as ao trabalho dos med\u00edocres no poder.<\/p>\n<p>Gorki ofereceu livro de contos de estr\u00e9ia para v\u00e1rias editoras e foi recusado por todas. Quando conseguiu publicar, houve um estouro. Tornou-se popular e fez amizade com os maiores escritores da \u00e9poca, como Tchecov e Tolstoi (que coisa essa R\u00fassia incompar\u00e1vel, esse pa\u00eds que nos deu os maiores g\u00eanios da literatura, tudo num mesmo espa\u00e7o de tempo!). Sua inf\u00e2ncia assustadora e sofrida gerou um suicida, que ao tentar se matar estourou um pulm\u00e3o, adquirindo ent\u00e3o tuberculose, que o perseguiu para o resto da vida. Nas p\u00e1ginas de Inf\u00e2ncia, vemos como se formou esse car\u00e1ter onde a inoc\u00eancia duela com a culpa, a v\u00edtima dos a\u00e7oites afia sua capacidade cr\u00edtica, a travessura prepara a independ\u00eancia e a paisagem hostil inspira um escritor admir\u00e1vel.<\/p>\n<p>A segunda cena impressionante \u00e9 a morte do ciganinho, agregado que fora encontrado ainda beb\u00ea na frente da casa dos av\u00f4s de Gorki, e que foi esmagado por uma cruz pesad\u00edssima, quando esta era carregada do quintal para a igreja. A morte coroa uma s\u00e9rie de eventos que definem o perfil do cigano e tem o impacto de uma bala perdida. N\u00e3o sabemos de onde vem. Pois vem desse texto certeiro, esse estopim de chumbo grosso, atirado com fina pontaria.<\/p>\n<p>Todos os personagens s\u00e3o impressionantes. A av\u00f3 gorda e com imensa cabeleira, \u00e1gil como uma gata e que sabia todas as lendas da R\u00fassia de c\u00f3r. O av\u00f4 ruivo e horr\u00edvel, que o a\u00e7oitava todas as semanas e que o ensinou a ler. A m\u00e3e ausente, que o deixou para tr\u00e1s, vi\u00fava que casou com um agiota e morreu de fome e desgosto. Os irm\u00e3os rec\u00e9m nascidos mortos. O mestre tintureiro cego, que era perseguido pelos tios e primos de Gorki, que deixavam os dedais em brasa para ele se queimar. O qu\u00edmico que foi seu primeiro amigo e que acabou expulso pelo av\u00f4. A m\u00e3e do padrasto, que se vestia toda de verde e tinha tamb\u00e9m a cara e os dentes da mesma cor. E assim por diante.<\/p>\n<p>Quando o livro parece ter esgotado sua capacidade de nos surpreender, algumas cenas sobre a adolesc\u00eancia do narrador nos trazem novos personagens igualmente inesquec\u00edveis. O filho do guarda-norturno do cemit\u00e9rio, que fazia parte de uma gang juvenil de ladr\u00f5es, o filho espancado pela m\u00e3e alc\u00f3olatra quando n\u00e3o levava alguns copeques para casa, entre outros, empurram o leitor para a situa\u00e7\u00e3o limite do narrador, testemunha da morte da m\u00e3e (que o espancou no dia do desenlace) e da queda financeira de toda a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Como pode ter sa\u00eddo, de tanta mis\u00e9ria, um escritor como Gorki? Ele mesmo responde. Diz que \u00e9 importante escancarar as mis\u00e9rias do povo russo, que assim mesmo consegue emergir com o que h\u00e1 de mais humano, capaz de se superar apesar de tantas dificuldades. Uma li\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, t\u00e3o pessimistas em rela\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds que perde a soberania.<\/p>\n<p>Mas o grande ponto de inflex\u00e3o na vida de Gorki foi conhecer um professor que prestou aten\u00e7\u00e3o no que ele realmente era e que soube relevar seu esp\u00edrito rebelde de adolescente, concentrando-se no que o garoto tinha de mais significativo. Esse contato com um adulto que o entendeu profundamente mudou sua vida e redirecionou seu rumo. N\u00e3o fosse esse cruzamento de duas personalidades, a alma ind\u00f4mita e o mestre prudente e s\u00e1bio, n\u00e3o ter\u00edamos talvez o grande escritor que emergiu da R\u00fassia profunda.<\/p>\n<p>Comprem o livro e leiam. Ele faz parte da trilogia autobiogr\u00e1fica do autor (os outros dois t\u00edtulos s\u00e3o os famosos Ganhando meu p\u00e3o e Minhas universidades). Depois me digam: isso \u00e9 ou n\u00e3o literatura, essa arte em desuso, soterrada pela pontifica\u00e7\u00e3o dos idiotas, que tomam conta de tudo e acham que v\u00e3o ficar impunes? O tempo, seus pulhas, o tempo vai se encarregar de voc\u00eas. Longa vida ao g\u00eanio e ao talento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os personagens s\u00e3o impressionantes. A av\u00f3 gorda e com imensa cabeleira, \u00e1gil como uma gata e que sabia todas as lendas da R\u00fassia de c\u00f3r. O av\u00f4 ruivo e horr\u00edvel, que o a\u00e7oitava todas as semanas e que o ensinou a ler. A m\u00e3e ausente, que o deixou para tr\u00e1s, vi\u00fava que casou com um agiota e morreu de fome e desgosto. Os irm\u00e3os rec\u00e9m nascidos mortos. O mestre tintureiro cego, que era perseguido pelos tios e primos de Gorki, que deixavam os dedais em brasa para ele se queimar. O qu\u00edmico que foi seu primeiro amigo e que acabou expulso pelo av\u00f4. 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