{"id":790,"date":"2009-12-13T00:36:37","date_gmt":"2009-12-13T02:36:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=790"},"modified":"2009-12-21T22:37:17","modified_gmt":"2009-12-22T00:37:17","slug":"cenas-inesqueciveis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cenas-inesqueciveis","title":{"rendered":"CENAS INESQUEC\u00cdVEIS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Na multid\u00e3o do metr\u00f4, algu\u00e9m me cumprimenta com entusiasmo. O rosto \u00e9 familiar, mas n\u00e3o atino quem seja. Retribuo, meio sem jeito, o que \u00e9 imediatamente percebido. No dia seguinte, quando vejo a mesma pessoa me dando o troco do cafezinho, que costumo tomar sempre no mesmo lugar, vislumbro o tamanho da gafe.<\/p>\n<p>Eu identificava o caixa com o ambiente onde ele se situava, e quando encontrei o mesmo sorriso num espa\u00e7o urbano diferente, deslocado da minha percep\u00e7\u00e3o habitual, n\u00e3o reconheci. A sorte \u00e9 que n\u00e3o houve ressentimento. O amigo da cafeteria entendeu perfeitamente. N\u00e3o por gentileza profissional, mas pelo esfor\u00e7o de tornar prazeroso o momento em que costum\u00e1vamos encerrar o intervalo do dia. Por distra\u00e7\u00e3o ou por for\u00e7a de h\u00e1bito, eu perdia a chance de me comportar \u00e0 altura da qualidade pessoal que me cercava.<\/p>\n<p>Esse crime tem uma causa. Atulhadas de imagens, nossas mentes selecionam o b\u00e1sico para a sobreviv\u00eancia. Formatamos uma rotina compat\u00edvel com nossas condi\u00e7\u00f5es cardiovasculares. O olho \u00e9 trai\u00e7oeiro e s\u00f3 enxerga o que est\u00e1 acostumado a ver. \u00c9 por isso que alguns cineastas, sabedores desse v\u00edcio, conseguiram criar imagens de impacto usando uma cena familiar instalada num entorno diferente. \u00c9 cl\u00e1ssica a imagem da Est\u00e1tua da Liberdade semi-enterrada na areia, no primeiro \u201cPlaneta dos Macacos\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel esquecer Charlton Heston, que se foi recentemente, levando consigo o segredo de encarnar personalidades hist\u00f3ricas \u00e0 altura da grandeza com que s\u00e3o lembradas. Ao se ajoelhar diante do s\u00edmbolo de uma civiliza\u00e7\u00e3o que se auto-destruiu, o ator inesquec\u00edvel nos transportou para o horror do remorso. As ru\u00ednas de algo muito pr\u00f3ximo, que se misturam \u00e0 paisagem de uma praia perdida, assombram a cultura visual da nossa \u00e9poca. \u00c9 assim com in\u00fameros outros exemplos.<\/p>\n<p>O assassinato de Janeth Leigh no momento do banho em \u201cPsicose\u201d se transformou num paradigma. Nada mais trivial do que uma ducha, um corpo visto por detr\u00e1s da cortina, cabelos molhados, gotas escorrendo pelo corpo. A a\u00e7\u00e3o do assassino que ningu\u00e9m v\u00ea, a montagem que retalha a mulher junto com a faca, os gritos, a m\u00fasica, intensificam at\u00e9 a dem\u00eancia o que deveria ser corriqueiro. Depois dessa cena, o suspense e o terror jamais foram os mesmos. Hitchcock e sua equipe nos assustaram ao mudar a natureza do olhar. Espiar mulher no chuveiro deixou de ser um expediente meramente er\u00f3tico. Virou atentado.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 de sustos vivem as imagens poderosas. Marlene Dietrich sentada no banquinho em \u201cO anjo azul\u201d, ou Marilyn Monroe esvoa\u00e7ando sua saia branca no vento encanado do metr\u00f4 em \u201cO pecado mora ao lado\u201d, participam desse deslocamento do familiar para o ins\u00f3lito. O truque \u00e9 fazer com o que o ato banal de sentar aconte\u00e7a no palco de um cabar\u00e9, com a protagonista usando uma roupa que despe o olhar dos espectadores. Ou usar a obviedade do vento gerado pelo movimento dos vag\u00f5es para arejar o desejo exposto da diva.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 o cinema cria impacto visual. O jornalismo tamb\u00e9m deixa suas marcas, que definem nossa \u00e9poca. Os avi\u00f5es mergulhando na presen\u00e7a \u201cnatural\u201d das Torres G\u00eameas, a forma corriqueira do cogumelo identificando o pesadelo nuclear, as feridas de napalm na inf\u00e2ncia vietnamita em p\u00e2nico, s\u00e3o imagens que encheram nossas retinas de assombro. Ser\u00e3o lembradas muito tempo depois que formos embora.<\/p>\n<p>Poder\u00e3o perguntar o que n\u00e3o conseguimos esquecer fora dessa ind\u00fastria visual que nos cerca. Eu selecionaria algumas lembran\u00e7as: Porto Alegre vista no crep\u00fasculo quando eu voltava do pampa para decidir o rumo da minha vida; a m\u00e3e fingindo que varria a cal\u00e7ada quando eu chegava de viagem para avis\u00e1-la que abra\u00e7aria o jornalismo; o pai, que daria um pulo na cidade, depositando um rev\u00f3lver 38 em cima da mesinha de madeira do acampamento, e recomendando que mandasse bala em quem invadisse nossos redutos sem convite; S\u00e3o Paulo em abril, vestida de ouro da luz da tarde quando l\u00e1 estive pela primeira vez; o mar visto da sa\u00edda do t\u00fanel no Rio de Janeiro; as gaivotas sobrevoando o centro de Florian\u00f3polis antes do aterro.<\/p>\n<p>Tudo isso faz parte de um acervo pessoal de impacto, em que momentos muito pr\u00f3ximos e banais se transformam na s\u00edntese de mist\u00e9rios: a vida como um presente, a mem\u00f3ria como um sonho eterno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atulhadas de imagens, nossas mentes selecionam o b\u00e1sico para a sobreviv\u00eancia. Formatamos uma rotina compat\u00edvel com nossas condi\u00e7\u00f5es cardiovasculares. O olho \u00e9 trai\u00e7oeiro e s\u00f3 enxerga o que est\u00e1 acostumado a ver. \u00c9 por isso que alguns cineastas, sabedores desse v\u00edcio, conseguiram criar imagens de impacto usando uma cena familiar instalada num entorno diferente.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/790"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=790"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/790\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1745,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/790\/revisions\/1745"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}