{"id":798,"date":"2009-12-13T02:35:46","date_gmt":"2009-12-13T04:35:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=798"},"modified":"2009-12-21T20:29:28","modified_gmt":"2009-12-21T22:29:28","slug":"a-dialetica-em-joao-paulo-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-dialetica-em-joao-paulo-ii","title":{"rendered":"A DIAL\u00c9TICA EM JO\u00c3O PAULO II"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo \u00e9 um nome que vem de dois papas, o revolucion\u00e1rio Jo\u00e3o 23 e o conservador Paulo VI. Jo\u00e3o Paulo I teve a id\u00e9ia de encarnar essa contradi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o durou um m\u00eas no trono. Seu sorriso permanente era a m\u00e1scara de uma impossibilidade, o de unir duas tend\u00eancias incompat\u00edveis. Jo\u00e3o Paulo II teve um longo papado e encarnou a fertilidade dessa dial\u00e9tica. Fortaleceu os frouxos la\u00e7os do conservadorismo, que tinha sido abalado, primeiro, pela crise da f\u00e9 que originou a radicalidade de Jo\u00e3o 23 e, depois, pelo Vaticano II, o Conc\u00edlio que mudou tudo.<\/p>\n<p>&#8220;Levaremos 40 anos para desfazer o que ele fez em quatro&#8221;, disse uma vez um cardeal da igreja. Ao mesmo tempo, Woytila disseminou a id\u00e9ia de uma igreja atuante, sintonizado com as mudan\u00e7as do tempo, criativa nos m\u00e9todos de abordagem (a peregrina\u00e7\u00e3o permanente) e tolerante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras religi\u00f5es. Conseguiu assim alinhar-se \u00e0s principais propostas do conc\u00edlio revolucion\u00e1rio: os rituais continuaram modificados, n\u00e3o houve um retrocesso para a missa em latim e a igreja aprofundou-se no ecumenismo, aproximando-se dos ortodoxos gregos e reconhecendo em Al\u00e1 o mesmo Deus dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>FUTURO &#8211; Ele soube aplacar a linha ultraconservadora dando-lhe o que mais gosta e precisa, poder, e reprimindo os excessos da teologia da liberta\u00e7\u00e3o (filha direta da igreja transformada nos anos 60). E definiu o perfil de uma Igreja flex\u00edvel e atuante, corajosa, que foi a campo para enfrentar a pr\u00f3pria crise (encontrou sa\u00eddas no rebanho disperso, no planeta indefeso, nas terras devolutas do mundo em transforma\u00e7\u00e3o). Essa dupla natureza que soube ser uma s\u00f3 criatura, encarnada no pr\u00f3prio Papa, \u00e9 a heran\u00e7a principal do Cardeal Woytila, o homem que assumiu as contradi\u00e7\u00f5es do seu tempo e agiu dialeticamente.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre o estadista e a santidade resolvem-se em Jo\u00e3o Paulo II de maneira pol\u00eamica. Os conservadores adoram coloc\u00e1-lo como o homem que acabou com o comunismo, mas o comunismo n\u00e3o acabou, o que implodiu foi a ditadura sovi\u00e9tica, implantada pelo stalinismo. Nesse trabalho o Papa teve sua contribui\u00e7\u00e3o, mas nenhuma an\u00e1lise s\u00e9ria pode colocar exclusivamente nos seus ombros uma tarefa que depende, como nos ensina a Hist\u00f3ria, de in\u00fameras conflu\u00eancias.<\/p>\n<p>Mais importante que o Papa foi o pr\u00f3prio Gorbatchev, um estadista radicalmente inovador. Com Gorbatchev tivemos a primeira oportunidade real de um mundo transfigurado pela transforma\u00e7\u00e3o coletiva. Mas os americanos colocaram tudo a perder e retrocederam aos tempos anteriores \u00e0 guerra fria, intensificando o \u00f3dio entre na\u00e7\u00f5es e o dom\u00ednio dos outros povos. Eles acharam que a Hist\u00f3ria tinha acabado, com a vit\u00f3ria dos Estados Unidos. Sonharam com uma Pax Americana id\u00eantica \u00e0 imaginada pelo Terceiro Reich, que queria o dom\u00ednio do nazismo por mil anos. At\u00e9 hoje acham que v\u00e3o conseguir.<\/p>\n<p>CHANCE &#8211; Por um tempo, com Gorby e Woytila, tivemos a chance de sonhar com uma outra vida, mas essa oportunidade se foi. A Hist\u00f3ria n\u00e3o brinca em servi\u00e7o. Por colocar-se no miolo de todos os conflitos, e nele manter sua integridade e a for\u00e7a do que representava, Jo\u00e3o Paulo II atingiu a santidade. Tivemos sorte.<\/p>\n<p>Vimos como se comporta algu\u00e9m para tornar-se um verdadeiro santo: o homem que interrompeu uma missa para ouvir o chamado dos fi\u00e9is de uma mesquita; que cal\u00e7ou t\u00eanis, que beijou o planeta, que ouviu o coro do Ex\u00e9rcito Vermelho, em plena ditadura sovi\u00e9tica, cantar ave Maria; que veio ao Brasil falar de reforma agr\u00e1ria e de crian\u00e7as assassinadas; que riu sinceramente dos palha\u00e7os que se apresentavam para ele; que chamou Al\u00e1 de Deus; que falou em medo e coragem; que perdoou o assassino que atentou contra sua vida; que viu e foi visto por todos os habitantes da terra.<\/p>\n<p>O Papa sempre nos emocionou por ser o que sempre foi, mas principalmente porque vivemos numa \u00e9poca em que as pessoas admir\u00e1veis pertencem ao passado. Quem voc\u00ea admira hoje? Muito poucos. Jo\u00e3o Paulo II era uma das minhas predile\u00e7\u00f5es, n\u00e3o por eu ser cat\u00f3lico desde o nascimento, j\u00e1 que sempre desgostei de Pio XII e achava o Paulo VI algo sem vida. Gosto sinceramente do cardeal Woytila. Ele se foi e \u00e9 nosso privil\u00e9gio invoc\u00e1-lo em nossas ora\u00e7\u00f5es, pedir que interceda diretamente ao Alt\u00edssimo para que tenhamos a mesma coragem de cumprir nosso destino.<\/p>\n<p>BASE &#8211; Precisamos lembrar rapidamente o significado e o sentido de dial\u00e9tica, que, como explica Leandro Konder em O que \u00e9 dial\u00e9tica (Brasiliense, 1986) \u00e9 &#8220;o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contradit\u00f3ria e em permanente transforma\u00e7\u00e3o&#8221;. O livro b\u00e1sico \u00e9 A Ideologia Alem\u00e3, de Marx e Engels (Hucitec, 1986).<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica veio de longe, dos gregos, de Zenon de El\u00e9a e S\u00f3crates, fundadores, que a definiam, segundo Konder, como arte do di\u00e1logo, ou a arte de, no di\u00e1logo, demonstrar uma tese por meio de uma argumenta\u00e7\u00e3o capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discuss\u00e3o. A dial\u00e9tica de origem marxista aportou na esquerda para engessar-se num fundamentalismo sem igual. Em compensa\u00e7\u00e3o, o conceito filos\u00f3fico de mais de dois mil anos, grego ou transformado pelo pensamento filos\u00f3fico dos s\u00e9culos 19 e 20, migrou para Igreja, que, como toda institui\u00e7\u00e3o humana (para os fi\u00e9is, de origem divina), n\u00e3o pode impedir que seja vista sob esta \u00f3tica. Jo\u00e3o Paulo II encarnou a dial\u00e9tica como ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>CONFLITO &#8211; Francisco Ant\u00f4nio de Andrade Filho explica : &#8220;Para Her\u00e1clito de \u00c9feso, a realidade \u00e9 um constante devir, tudo existe em constante mudan\u00e7a &#8211; que o conflito \u00e9 o pai e o rei de todas as coisas &#8211; luta dos opostos: frio-calor, vida-morte, bem-mal, sa\u00fade-doen\u00e7a etc. Um se transformando no outro&#8221;. Conflito \u00e9 a palavra chave que define Woytila, o homem que soube assumir seu cargo de estadista e, por ter-se colocado no conflito de maneira surpreendentemente vitoriosa, nele atingiu a santidade.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que o pensamento progressista acolha urgentemente ao conceito de santidade em Woytila para que ele n\u00e3o fique confinado ao conservadorismo e \u00e0 direita. Parece bobagem, mas n\u00e3o \u00e9 (como assim, a esquerda reconhecer a santidade? perguntar\u00e1 o sabich\u00e3o que reside em n\u00f3s). Pois submetam-se, faz bem \u00e0 sa\u00fade. Sen\u00e3o estaremos \u00e0 merc\u00ea do marxismo de galinheiro de gente como Tariq Ali, tido como historiador, ensaista e romancista, que numa entrevista na Folha para a jornalista Sylvia Colombo disse que &#8220;movimento que ele promoveu nos rumos da Igreja Cat\u00f3lica funciona como um espelho da atual situa\u00e7\u00e3o mundial, refletindo exatamente o que aconteceu nos \u00faltimos anos na esfera pol\u00edtico-econ\u00f4mica&#8221;.<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica n\u00e3o funciona assim, como se a Igreja espelhasse o Consenso de Washington. Isso \u00e9 de uma pobreza mental sem limites. O Papa rompeu o bloqueio a Cuba, visitando Fidel Castro (que, como lembrou o Papa, estudou em col\u00e9gio jesu\u00edta), na mais bela transmiss\u00e3o (boicotada pela TV brasileira) audiovisual do nosso tempo. Foi contra a guerra do Iraque, pediu perd\u00e3o pelos pecados da Igreja ( a condena\u00e7\u00e3o de Galileu, a Inquisi\u00e7\u00e3o, entre outros), lan\u00e7ou pontes s\u00f3lidas para todas as igrejas. Seu ecumenismo (bandeira maior do Conc\u00edlio Vaticano II, de Jo\u00e3o 23) \u00e9 antol\u00f3gico e profundo.<\/p>\n<p>Diz Tariq: &#8220;Foi um papa autorit\u00e1rio que deixou abandonados religiosos que, no Terceiro Mundo, travavam uma luta pelos direitos humanos&#8221;. Mandou o Leonardo Boff e o Ernesto Cardenal (que levou um pito em p\u00fablico) calarem a boca. A arrog\u00e2ncia de certas pessoas, que se arvoram a gerar teologia por conta pr\u00f3pria! Arrostem ent\u00e3o a pr\u00f3pria teologia, mas a Igreja nada tem a ver com isso. Aqui no Brasil, o Papa cobrou a reforma agr\u00e1ria e denunciou o assassinato das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>M\u00cdDIA &#8211; H\u00e1 uma chuva de an\u00e1lises sobre o poder midi\u00e1tico do Papa. Queriam que o Papa sa\u00edsse de aldeia em aldeia com seu cajado anunciando bulas por meio de papiros. A Rede Globo pode, o Papa n\u00e3o. Por favor, d\u00eaem licen\u00e7a. Woytila tinha no\u00e7\u00e3o da majestade do cargo e comportou-se \u00e0 altura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele soube aplacar a linha ultraconservadora dando-lhe o que mais gosta e precisa, poder, e reprimindo os excessos da teologia da liberta\u00e7\u00e3o (filha direta da igreja transformada nos anos 60). E definiu o perfil de uma Igreja flex\u00edvel e atuante, corajosa, que foi a campo para enfrentar a pr\u00f3pria crise (encontrou sa\u00eddas no rebanho disperso, no planeta indefeso, nas terras devolutas do mundo em transforma\u00e7\u00e3o). 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