{"id":80,"date":"2005-05-13T21:20:51","date_gmt":"2005-05-13T23:20:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=80"},"modified":"2009-12-20T23:56:34","modified_gmt":"2009-12-21T01:56:34","slug":"carandiru-infamia-e-misericordia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/carandiru-infamia-e-misericordia","title":{"rendered":"CARANDIRU: INF\u00c2MIA E MISERICORDIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fotocarandiru.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Carandiru \u00e9 um filme que fala para as trevas \u2013 as que ficam do lado de fora da pris\u00e3o, onde o espectador se encontra. Na c\u00e2mara escura onde nos acomodamos, olhamos pela fechadura em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa obra, a pris\u00e3o dos culpados. Somos &#8220;inocentes&#8221; porque estamos sentados em cima de uma mentira, a sociedade que deveria ser civilizada. Para nos aproximar do mundo que relata, o diretor Hector Babenco filma a mentira contada pelos bandidos \u2013 a sociedade que eles inventam no caos, para continuarem vivos. Cria assim a identidade entre duas fic\u00e7\u00f5es e puxa o tapete para ningu\u00e9m cair no samba.<\/p>\n<p>O que importa n\u00e3o s\u00e3o as hist\u00f3rias, mas as condi\u00e7\u00f5es da pris\u00e3o, ou seja, a inf\u00e2mia. Perto do Carandiru, o c\u00e1rcere turco de O Expresso da meia Noite \u00e9 uma esta\u00e7\u00e3o de f\u00e9rias. E em cada carceragem de delegacia na esquina de nossa casa o mesmo inferno se repete, aqui e agora. Isso parece n\u00e3o incomodar a \u201csociedade\u201d. O que incomoda \u00e9 o quanto se gasta com cada preso e a aus\u00eancia da pena de morte. O cerco da indiferen\u00e7a precisa ser rompido e por isso Babenco apela para o bizarro ao focar as rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Ele constr\u00f3i uma ponte inveross\u00edmel entre os personagens, como o casamento de Lady Di com Sem Chance, a espera, sob uma tenda, da filha que n\u00e3o veio visitar o velho preso, a solidariedade fraterna entre dois amigos de inf\u00e2ncia que acaba em morte num banho de \u00e1gua quente. O que n\u00e3o faz sentido na rela\u00e7\u00e3o humana real\u00e7a a crueza do assassinato maior, que \u00e9 o ch\u00e3o cheio de sangue, os por\u00f5es mofados de gente, os ferros enferrujados, a lama no p\u00e1tio, as paredes carcomidas. A realidade f\u00edsica \u00e9 o verdadeiro centro da trama. O pesadelo do concreto, das grades e da sujeira \u00e9 que costura a m\u00faltipla escolha de hist\u00f3rias pessoais.<\/p>\n<p>Diante do horror, o olhar cl\u00ednico do m\u00e9dico narrador \u00e9 a necess\u00e1ria humaniza\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe. O sorriso permanente \u00e9 uma defesa que, no meio dos escombros, denuncia como um retrato a indiferen\u00e7a do espectador. O m\u00e9dico narrador sai ileso como um contrabandista que conta com a confian\u00e7a da pol\u00edcia. Mas o espectador sair\u00e1 ileso dessa experi\u00eancia?<\/p>\n<p>Babenco radicaliza ao desdramatizar o final colocando Aquarela do Brasil sobre os escombros da pris\u00e3o, numa grava\u00e7\u00e3o antiga, como se pertencesse a um velho filme carnavalesco da Atl\u00e2ntida dos anos 50. \u00c9 a express\u00e3o da brasilidade cinematogr\u00e1fica de Babenco, que trafega entre Glauber Rocha e a chanchada. Glauber \u00e9 refer\u00eancia expl\u00edcita quando o travelling dos presos assistindo a partida de futebol reproduz o movimento da c\u00e2mara sobre os p\u00e9s dos candangos em Idade da Terra. O cas\u00f3rio de Lady Di e Sem Chance liga-se com a cena de Romeu e Julieta entre Oscarito e Grande Otelo.<\/p>\n<p>O gran finale de Babenco em Carandiru serve-se da radicalidade brechtiana, como j\u00e1 aconteceu com Jos\u00e9 Celso Martinez Correa na sua montagem de Galileu Galilei, quando o final \u00e9 coroado com todo o elenco dan\u00e7ando ao som de Um Banho de Lua, com Cely Campelo. Aquarela do Brasil devolve o espectador \u00e0 sua pr\u00f3pria realidade, retira-o das trevas por onde esteve imerso por tr\u00eas horas, mas n\u00e3o o isenta da culpa. Como \u00e9 dito no filme, se houvesse rem\u00e9dio para a culpa, todo mundo iria querer.<\/p>\n<p>Basta sair do cinema, pegar um t\u00e1xi e ouvir do motorista que n\u00e3o entende porque o governo n\u00e3o mata o Beira-Mar. A inf\u00e2mia do c\u00e1rcere jamais poder\u00e1 ser resolvida com viol\u00eancia. Nem tampouco com omiss\u00e3o. O filme aponta para a necessidade de miseric\u00f3rdia no cora\u00e7\u00e3o das trevas. Ou a sociedade corta o elo da viol\u00eancia, ou se afogar\u00e1 nela para sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carandiru \u00e9 um filme que fala para as trevas \u2013 as que ficam do lado de fora da pris\u00e3o, onde o espectador se encontra. Na c\u00e2mara escura onde nos acomodamos, olhamos pela fechadura em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa obra, a pris\u00e3o dos culpados. 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