{"id":804,"date":"2009-12-13T11:37:31","date_gmt":"2009-12-13T13:37:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=804"},"modified":"2009-12-21T20:47:34","modified_gmt":"2009-12-21T22:47:34","slug":"vida-adulta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vida-adulta","title":{"rendered":"VIDA ADULTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Ela come\u00e7a de forma inesperada. Tomamos as principais decis\u00f5es, as que influenciam o resto da vida, sem nos dar conta que j\u00e1 n\u00e3o somos crian\u00e7as. \u00c9 o que diz um professor, interpretado por Robert Redford, no seu filme \u201cLe\u00f5es e Cordeiros\u201d, para o estudante que adotou uma postura cr\u00edtica que beira a indiferen\u00e7a. Virar as costas agora para o problema pol\u00edtico pode perpetuar o impasse e roer ainda mais a na\u00e7\u00e3o em decad\u00eancia, diz o mestre. O aprendiz escuta e cai em si.<\/p>\n<p>No sexto ano da guerra do Iraque, com milhares de mortos no passivo, e com uma crise econ\u00f4mica grave amea\u00e7ando explodir o consenso financeiro global, Hollywood come\u00e7a a se livrar da censura. Ou pelo menos da forma obsessiva como encarava a luta contra o terror, desencadeado a partir de 11 de setembro de 2001. Somos coniventes, diz a jornalista interpretada por Meryl Streep, pois\u00a0 sab\u00edamos de todos os truques da manipula\u00e7\u00e3o. Assim mesmo, demos carta branca aos falc\u00f5es. Incentivamos a barb\u00e1rie destacando l\u00edderes oportunistas e predadores, que, sob o signo da revanche, inocularam o v\u00edrus mortal anti-democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Esse despertar tardio (a invas\u00e3o do Iraque j\u00e1 dura mais do que a Segunda Guerra, observa a jornalista) coincide com o fim da era Bush. E \u00e9 confirmado por outros t\u00edtulos, que abrem janelas no sufoco das posi\u00e7\u00f5es irremov\u00edveis. Est\u00e3o mais dispon\u00edveis, pois saem do acanhado circuito dos cinemas e ganham as dimens\u00f5es mais confort\u00e1veis das locadoras. \u201cNo vale das sombras\u201d, de Paul Haggins, \u00e9 sobre a culpa de guerreiros de d\u00e9cadas passadas, que estimularam a juventude a entrar num novo atoleiro. Hoje, paga-se um alto pre\u00e7o. A brutalidade no front substitui os ideais que justificavam a invas\u00e3o, e a camaradagem interna se rompe pela implanta\u00e7\u00e3o generalizada e n\u00e3o oficial da tortura.<\/p>\n<p>O militar que tenta consolar Susan Sarandon, no papel da m\u00e3e do soldado vindo do front para ser assassinado em casa, recebe de volta um fuzilamento do olhar: \u00e9 um dos momentos antol\u00f3gicos desta retomada do cl\u00e1ssico papel da S\u00e9tima Arte, o de refletir consci\u00eancias e influenci\u00e1-las pelo poder de sedu\u00e7\u00e3o de seus protagonistas.<\/p>\n<p>O terceiro filme que decreta o fim da falsa inoc\u00eancia \u00e9 \u201cConduta de risco\u201d, do veterano Sidney Pollack, com George Clooney, o ex-gal\u00e3 de televis\u00e3o que virou artista de primeiro time do cinema adulto e, dentro dos limites da na\u00e7\u00e3o poderosa, radical.\u00a0 O advogado corrupto \u00e9 despertado pelo surto de honestidade que acomete seu colega (Paul Wilkinson), uma crise confundida com loucura. No mundo virado pelo avesso, a moral precisa ser encarcerada, por ser perigosa. Ela for\u00e7a a tomada de posi\u00e7\u00e3o a partir do conhecimento.<\/p>\n<p>O cinema \u00e9 a soma de todos os talentos. Precisa interagir com a vida de verdade, como est\u00e1 voltando a acontecer no mais comercial dos pa\u00edses. A n\u00f3s, cabe perguntar por que somos t\u00e3o pobres em abordagens s\u00e9rias. Nossos filmes, com honrosas exce\u00e7\u00f5es, est\u00e3o confinados ao deboche, \u00e0 mis\u00e9ria, \u00e0 eterna mocidade, ao sexo f\u00e1cil, \u00e0 viol\u00eancia desmesurada. O m\u00e1ximo que alcan\u00e7amos \u00e9 a brutalidade geral, a mem\u00f3ria im\u00f3vel, o relacionamento amoroso pautado pelo ego\u00edsmo. \u00c0s vezes, algu\u00e9m acerta, mas \u00e9 raro.<\/p>\n<p>Precisamos fazer filmes adultos, sob pena de continuarmos calados, assistindo os outros. Amargamos a falta de representa\u00e7\u00e3o de algo maior, fruto da conviv\u00eancia amadurecida pelo tempo e pela dor. Ainda somos um pa\u00eds que n\u00e3o se enxerga como deveria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema \u00e9 a soma de todos os talentos. Precisa interagir com a vida de verdade, como est\u00e1 voltando a acontecer no mais comercial dos pa\u00edses. A n\u00f3s, cabe perguntar por que somos t\u00e3o pobres em abordagens s\u00e9rias. Nossos filmes, com honrosas exce\u00e7\u00f5es, est\u00e3o confinados ao deboche, \u00e0 mis\u00e9ria, \u00e0 eterna mocidade, ao sexo f\u00e1cil, \u00e0 viol\u00eancia desmesurada. 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